Disney compra a Marvel domingo, nov 15 2009 

Mickey na visão de um dos "pais" da Marvel, Jack Kirby

Mickey na visão de um dos "pais" da Marvel, Jack Kirby

(Desculpem a demora, mas esta notícia teve tantas ramificações nas últimas semanas que o artigo precisou ser reescrito diversas vezes.)

No que é possivelmente a notícia mais importante (e surpreendente) da indústria de quadrinhos este ano, a multinacional de entretenimento Walt Disney Company adquiriu Marvel Entertainment Inc., que inclui a Marvel Comics, por um valor estimado (baseado no preço a ser pago pelas ações da Marvel, que inclui troca de ações da Marvel por ações da Disney) em cerca de quatro bilhões de dólares!

Um negócio bastante impressionante por vários fatores. O primeiro e mais óbvio é a soma investida. A Disney está pagando o equivalente a metade do seu lucro anual, uma soma impressionante comparável ao Produto Interno Bruto de Ruanda, por uma empresa que no ano passado anunciou um lucro de… 200 milhões de dólares!

Simples aritmética determina que, para recuperar seu investimento (assumindo que o faturamento da Marvel continue o mesmo), a Disney teria de esperar 20 anos! Bem, é óbvio que a companhia fundada por Walt Disney não comprou a Marvel com o objetivo de recuperar seu investimento em 20 anos, seria ridículo pensar isso! Então qual é a motivação dela?

(mais…)

Fui no lançamento do novo Asterix! quinta-feira, out 22 2009 

Na noite do dia 21 para o dia 22 de Outubro aconteceu o lançamento mundial do novo álbum de Asterix, O aniversário de Asterix e Obelix, o livro de ouro.

A bela capa do novo álbum de Asterix

A bela capa do novo álbum de Asterix

O evento foi celebrado nos dezoito países em que o álbum foi publicado simultaneamente, com a impressionante tiragem total de 3,5 milhões de exemplares. Portugal é um deles (a tiragem lusa é de 60 mil exemplares, número bastante alto para o país). Fã incondicional da série, decidi desbravar a chuva forte que caía sobre Lisboa para participar do lançamento do álbum. O que eu não faço por um Asterix!

Ao chegar ao local do lançamento (a livraria FNAC do Centro Comercial Colombo, para os curiosos), notava-se logo a decoração temática, com direito até à presença dos próprios Asterix e Obelix (atores fantasiados, claro). Nada menos que duas emissoras de TV estavam cobrindo o evento, a estatal RTP e a privada TVI! Curiosamente no mesmo local se realizara poucas horas antes um acontecimento que se revelou menos mediático… O lançamento do Windows 7! Melhor sorte da próxima vez, Bill Gates…

Na palestra estavam presentes a editora de quadrinhos da Asa Maria José Magalhães Pereira, o jornalista especializado Carlos Pessoa e o filho do primeiro editor de Asterix (e de Tintim) no país, Adolfo Simões Müller. Este visionário editor (que completaria 100 anos em 2009) foi o responsável por Portugal ter sido o primeiro país do mundo a traduzir Asterix (e, novamente, Tintim!), portanto a presença do seu filho no evento foi bastante simbólica. A palestra centrou-se no tema da tradução dos nomes dos personagens da série, polêmica recorrente em Portugal desde que a prática se iniciou, na passagem da série para a égide editorial da Asa. Algo de  interesse limitado para os leitores deste blog.

Então vamos ao que realmente interessa: O álbum em si!

Esta é, como prometido, uma coleção de histórias curtas e ilustrações, efetivamente recolhendo todo o material “de arquivo” que ainda sobrava do personagem. Há até um divertidíssimo texto de René Goscinny (devidamente ilustrado por Albert Uderzo, que continua um desenhista de talento inquestionável) sobre as férias na Gália, que apesar de seus mais de 40 anos de idade mantém a verve cômica do escritor original da série. Lamentavelmente é o único material dele presente no álbum.

Este abre com uma ótima sequência inédita mostrando Asterix e Obelix cinquenta anos mais velhos, em referência ao cinquentenário dos personagens comemorado pelo álbum. A visão dos gauleses envelhecidos é bem mais engraçada do que parece à primeira vista e a sequência termina com uma divertida participação especial do autor Uderzo, que tem um certo tom de despedida.

Tom este também presente nos prefácios assinados por “Asterix” (certamente o próprio Uderzo, um tanto auto-congratulatório demais para o meu gosto) e Anne Goscinny, que derrete-se em elogios ao colega de seu pai e nas sequências de ligação entre as várias histórias do álbum. Que são, por sinal, o seu principal problema.

Ao invés de colocar as histórias separadamente, como em Asterix e a volta às aulas (Asterix e o regresso dos gauleses, na edição portuguesa), Uderzo decidiu ligar as histórias (e até as várias ilustrações, que correspondem a cerca de metade do conteúdo do álbum) com um fio condutor narrativo extremamente tênue. Isso não favorece o material e acaba resultando em um todo inferior à soma das partes. O que é uma pena, porque algumas partes são excelentes.

Vale destacar, por exemplo, uma história curta que mostra Obelix tentando aprender a ler (publicada anteriormente na revista literária francesa Lire), os “erros de gravação” do álbum Asterix e Latraviata (sinceramente bem melhores que o álbum em si…) e até uma série de pinturas de Asterix parodiando obras de arte clássicas, curiosamente similar a uma iniciativa mais antiga de Mauricio de Sousa, História em quadrões! O resultado ficou melhor que o do Mauricio (não há como negar que Uderzo é um desenhista mais habilidoso), mas não soa muito original para quem já viu o trabalho do autor brasileiro.

Curiosamente o álbum fecha com uma história curta que mostra a única piada escatológica dos cinquenta anos da série. Penso que Asterix poderia ter ficado sem isso, mas se for verdade que Christophe Arleston será realmente o sucessor de Uderzo nos argumentos, isso é algo com que os leitores terão de se acostumar…

No final, Uderzo até agradece a seus assistentes Régis Grébent e os irmãos Frédéric e Thierry Mébarki (os mesmos que nomeou como sucessores em uma entrevista recente para o Journal du Dimanche), algo bastante raro entre autores de quadrinhos. Uma iniciativa louvável!

Enfim, como eu disse o resultado é inferior à soma das partes. Eu considero que o álbum vale a compra, é certamente superior ao muito criticado volume anterior e possui várias gemas escondidas entre suas páginas, mas é um álbum de altos e baixo, prejudicado pela tentativa de Uderzo de “amarrar” tudo à força. O que, de certa forma, faz dele o final apropriado para o período “solo” de Uderzo na série.

Fotos do evento a serem adicionadas mais tarde. Estou cansado e quero dormir!

Estamos de volta! quinta-feira, set 3 2009 

Estou vivo! VIVOOOOOO!!!!

Estou vivo! VIVOOOOOO!!!!

Quem é vivo sempre aparece!

Ainda não pude criar um novo blog, mas uma série de eventos abalou o mercado de quadrinhos mundial nos últimos dias e seria inconcebível que eu não os comentasse por aqui, portanto estou tirando a poeira do velho blog para tentar ajudar a mostrar as consequências desses eventos para o público.

Os eventos em questão foram:

A anunciada aquisição da Marvel Comics pela Walt Disney Company

A entrada das editoras japonesas Shueisha e Shogakukan no mercado europeu através da Viz Europe

A criação da Kodansha Comics nos EUA, colocando a terceira grande editora japonesa no mercado de quadrinhos americano

Todos são eventos significativos que provocarão enormes mudanças no mercado de quadrinhos mundial nos meses e anos que virão. Nos próximos dias eu dedicarei um artigo a cada uma delas explicando o mais detalhadamente possível como cada um desses eventos afetará o mercado de quadrinhos e quais as consequências para o mercado brasileiro.

É bom estar de volta, espero que meus leitores (sobrou algum?) pensem o mesmo.

O futuro deste blog (ou O blog não morreu, apenas hiberna) quinta-feira, mar 27 2008 

Muita gente tem me perguntado se eu não pretendo continuar este blog, acho que os devo um esclarecimento.

Eu comecei este blog porque queria (e quero) divulgar quadrinhos de origem européia para o público brasileiro, que infelizmente ainda tem um conhecimento muito restrito da enorme gama de material disponível no Velho Continente. Além disso, queria um lugar para colocar meus escritos sobre quadrinhos, que geralmente ficam esquecidos em fórums ou listas de mensagens, onde eu pudesse ter algum controle sobre meus textos e garantia de que eles não seriam apagados, de que eu pudesse efetuar correções e atualizações, etc.

Tudo muito belo, a questão é que desde então eu comecei a fazer alguns trabalhos escritos PAGOS, traduções e a desenvolver o meu livro sobre o Tintim (que ainda está beeeeeem no início, caso estejam se perguntando), atividades que reduziram meu tempo livre, já bastante escasso devido a meu emprego regular (que, infelizmente, não tem nada a ver com HQs), quase a zero. Nessa situação, eu poderia deixar de lado minha leitura de quadrinhos ou o trabalho não remunerado, ou seja, este blog. A escolha é óbvia.

Mas esse não é o fim! Eu ainda POSSO transformar minha atividade no blog em algo remunerado (ainda que pouco) utilizando anúncios! Ou poderia SE o WordPress me deixasse, o que não é o caso. Para colocar anúncios eu tenho de hospedar meu blog em outro provedor, o que não posso fazer no momento.

No momento? Sim, porque eu devo mudar de residência em pouco tempo (um mês ou coisa assim) e, no processo, mudar para um outro provedor de Internet, que VAI me fornecer um espaço onde posso colocar um blog com quantos anúncios eu bem entender! eu vou poder transformar isso em uma atividade (moderadamente) remunerada e justificar o tempo que eu gasto escrevendo estes artigos.

Claro que isso não é para agora. Mudar de casa não é uma coisa facil e eu ainda terei de conciliar isso com minhas outras atividades (relacionadas acima), o que deve adiar o lançamento da versão 2.0 do blog. Mas ela virá, acreditem em mim!

Afinal, vocês não vão se livrar de mim assim tão facilmente…

Mike Wieringo 1963-2007 segunda-feira, ago 13 2007 

Ontem, dia 12 de agosto, faleceu subitamente o desenhista Mike Wieringo, vítima de um ataque cardíaco fulminante. Ele tinha apenas 44 anos de idade.

Mike Wieringo fazendo o que gostava mais, desenhar!

Nascido em Veneza, Itália, mas um cidadão norte-americano, Wieringo, como a maior parte dos artistas de quadrinhos de seu país, ganhou fama trabalhando em quadrinhos de super-herói, começando com a série do Flash - onde foi o criador visual do personagem Impulso, que ironicamente foi “morto” nas páginas de sua revista poucas semanas atrás – e seguindo depois para personagens como o Super-Homem, o Homem-Aranha (no qual trabalhou em parceria com seu melhor amigo, o escritor Todd DeZago) e o Quarteto Fantástico. Aliás seu último trabalho é exatamente uma mini-série com um encontro entre o Quarteto e o Aranha, escrita pelo jovem e talentoso escritor Jeff Parker.

Capa da encadernação do último trabalho de Wieringo, cujo lançamento está previsto para outubro nos EUA

Dono de um estilo energético e caricatural, Wieringo trabalhava em uma indústria de quadrinhos completamente inadequada para seus talentos. Seu estilo não fora talhado para retratar os rompantes de violência e a atitude exageradamente séria dos quadrinhos de super-herói modernos. Embora os outros artistas e os leitores mais iluminados admirassem seu óbvio talento, boa parte dos fãs criticava sua “falta de realismo” e “excessos caricaturais” (obviamente, personagens que voam por aí usando a cueca por cima da calça precisam ser mostrados da forma mais realista possível…). Esse paradoxo fez com que os períodos de Wieringo em títulos de ponta de super-heróis fossem relativamente curtos e espaçados.

Espetacular GIF animada mostrando os vários uniformes do Homem-Aranha desenhados por Mike Wieringo!

Em um dos intervalos, ele e seu amigo DeZago decidiram escapar do círculo vicioso dos super-heróis e criar uma série de fantasia para a Image Comics, Tellos. E é sobre este trabalho, ainda inédito em português, que eu falarei.

Uma das capas de Wieringo para a série original de Tellos

Tellos era, na aparência, uma série de fantasia perfeitamente convencional. Passada no mundo ficcional de Tellos (um mundo de fantasia clássico, com criaturas estranhas, navios voadores e tecnologia medieval), mostrava as aventuras de um garoto e seus amigos, um híbrido de tigre e humano e uma capitã pirata, que encontram um amuleto contendo um poderoso gênio. Porém esse amuleto é cobiçado por vilões inescrupulosos, que vão atrás dos heróis para se apoderar do referido amuleto.

Quadrinho da edição francesa de Tellos. Ironicamente, essa HQ fez muito mais sucesso na França do que em seu pa�s de origem!

Dito assim, parece a mais estereotipada série de fantasia possível (não que existam muitas dessas – ou mesmo UMA que seja! – no mercado de quadrinhos americano…), mas uma reviravolta inesperada próximo do final da série original recoloca toda a história em uma perspectiva diferente. Não entrarei em detalhes, claro, mas a série revela-se bem mais interessante do que parece a princípio! Toda a série original desenhada por Wieringo foi recentemente compilada nos EUA em um grande volume em capa dura, que porém ainda não fora posto à venda antes da morte do artista. Fica meu conselho para aqueles que não conhecem esse trabalho o adquirirem quando estiver disponível.

Capa da encadernação gigante de Tellos

Infelizmente, a revista não teve muita sorte. Durante sua publicação, DeZago e Wieringo resolveram se juntar a um grupo de autores capitaneado por Kurt Busiek e Mark Waid, que tinham decidido criar seu próprio selo de quadrinhos (um pouco nos moldes da Image original e dos extintos selos Legend da Dark Horse e Bravura da Malibu Comics) , o Gorilla Comics, lançado com grande fanfarra em 2000. Porém, os autores esperavam um financiamento externo que nunca veio e seu pesado investimento inicial em publicidade teve de ser pago pelos próprios autores. Tellos, até entao uma HQ lucrativa, entrou no vermelho e os dois criadores precisaram fechar a série inicial e correr atrás de trabalhos na Marvel e DC para pagar o prejuízo! Eventualmente ela retornou, novamente pela Image, mas o envolvimento de Wieringo foi reduzido a ocasionais capas e histórias curtas. A série, porém, era uma favorita do artista, que nunca escondeu sua vontade de voltar a trabalhar nela. Foi exatamente um desenho de Tellos o último trabalho que ele colocou em seu blog, dois dias antes de sua morte.

O último desenho do blog de Wieringo, retratando o protagonista de Tellos.

Apesar de fulgurante, a carreira de Wieringo foi demasiado curta. Seu primeiro trabalho profissional data de 1991, fazendo dele um dos raros desenhistas de quadrinhos a iniciar sua carreira depois dos 25 anos. Apesar disso, existe um excelente livro em inglês a respeito do artista, que detalha toda sua carreira em uma longa entrevista, ricamente ilustrada com muitos dos seus melhores desenhos. É o 9º volume da série Modern Masters, da sensacional editora norte-americana TwoMorrows Publishing, minha recomendação pessoal para os apreciadores deste artista de carreira tão brilhante quanto fugaz.

Capa da edição dedicada a Mike Wieringo

Descanse em paz, Mike Wieringo.

Tintim no País do Racismo? terça-feira, jul 17 2007 

É, as atualizações deste blog continuam raras. Mea culpa! Porém uma notícia recente arrancou-me do meu imobilismo. O velho álbum Tintim no Congo* (Tintim na África na antiga edição brasileira da Record) foi alvo de uma virulenta crítica pela CRE (Comission for Racial Equality – Comissão pela Igualdade Racial do Reino Unido), instituição pública inglesa que combate a discriminação racial. O comunicado diz que a HQ contém “imagens e textos de horrendo preconceito racial” e que ela não deveria ser vendida e sim “ser exposta em um museu, com um grande cartaz dizendo ‘velho lixo racista’”. A CRE afirma que o comunicado foi emitido a pedido de um homem que vira o álbum à venda em uma livraria e teria ficado profundamente ofendido com ele.

Capa do álbum que gerou toda a polêmica

O comunicado gerou dois resultados: A cadeia de livrarias onde estava sendo vendido o álbum em questão, Borders, o transferiu da seção infantil onde estava para a de material adulto e as vendas do álbum dispararam por todo o Reino Unido, subindo cerca de 3.800%!

Os Studios Hergé, donos dos direitos do personagem, responderam usando a argumentação tradicional, de que o álbum é um produto de seu tempo, que Hergé admitia ser fruto de sua mentalidade da época, mas o mantinha quase inalterado para servir como “testemunho de sua época”. Pierre Assouline, biógrafo de Hergé, também defendeu o álbum em seu blog no jornal Le Monde, com uma argumentação similar.

A polêmica envolvendo a HQ é bastante antiga. Ela foi a segunda aventura de Tintim, publicada entre 5 de junho de 1930 e 11 de junho de 1931 no semanário belga Le Petit Vingtième, de ideologia católica fortemente conservadora. Curiosamente, o autor Hergé não queria mandar seu personagem para uma aventura africana e sim para os EUA (o que faria na aventura seguinte), mas foi obrigado a isso pelo diretor do semanário, o abade Wallez, que desejava convencer os jovens leitores da validade da colonização belga do país africano.

Nunca tendo saído da Bélgica, Hergé procurou documentação para retratar o Congo. Porém, tal como no álbum anterior e no seguinte, suas fontes não foram particularmente boas, pois o resultado foi uma visão demasiado estereotipada da África. Hergé mais tarde admitiria que sua visão dos africanos fora influenciada pela crença corrente na época de que os negros eram como crianças ingênuas, que precisavam da “sabedoria” dos brancos. Esse paternalismo está por todo o álbum que, ao considerar os africanos como ingênuos, revela-se ele próprio fruto de uma visão bastante ingênua, que era a de Hergé na época.

Vale dizer que o álbum pode ser paternalista, mas não é realmente racista. Em nenhum momento o álbum (ou o personagem) demonstra ódio contra os nativos! Ele os mostra em geral como figuras simpáticas, ainda que algo dependentes de Tintim. O que, na verdade, não é muito diferente dos personagens dos outros álbuns da série, uma vez que Tintim, herói perfeito por natureza, tendia sempre a ajudar aqueles que encontrava pela frente. Se isso é uma visão racista, então Tintim é racista com todo o mundo que encontra!

A forma com que os negros são retratados, com as feições exageradas das caricaturas da época e falando um francês capenga, também é similar à forma como eles eram retratados nos quadrinhos daquele tempo. Por exemplo, nas primeiras tiras de jornal do Mickey, escritas pelo próprio Walt Disney, o famoso camundongo vai parar em uma ilha distante habitada por canibais que eram retratados da mesmíssima maneira. A única diferença é que Hergé nunca teve o mau gosto de retratar negros como canibais…

Por que Walt Disney não é chamado de racista?

Também vale notar que Hergé desenhava todos os seus personagens, independentemente da origem, de forma caricatural.

Na sua versão original em preto e branco, a HQ era sim fortemente colonialista. Mas em 1946, quando Hergé redesenhou a aventura para a nova versão a cores (que é a mais conhecida hoje em dia), ele retirou boa parte das referências coloniais. Porém não “pasteurizou” o álbum, mantendo o paternalismo e a violência contra os animais presentes na versão original.

Na versão original, Tintim mostra a seus alunos nativos sua “pátria”, a Bégica. Na versão colorida, a cena foi “suavizada” para uma simples lição de aritmética.

Por sinal, essa violência contra animais presente por todo o álbum é muito mais chocante que o paternalismo de Tintim. Ou pelo menos o foi para mim quando li a HQ pela primeira vez na infância. Tintim mata indiscriminadamente macacos, elefantes e, em uma cena inspirada em um livro de André Maurois, toda uma manada de antílopes! A associações de defesa dos animais têm muito mais do que se queixar deste álbum do que as de combate ao racismo!

Tintim pratica tiro ao alvo com um crocodilo em uma das cenas menos violentas do álbum

Ele chega ao requinte de explodir um rinoceronte com dinamite! Sério! Isso foi demais para a editora Egmont, que publica o personagem na Escandinávia e no Reino Unido e pediu para Hergé fazer uma versão menos violenta do encontro com o animal, que está presente nas edições desses países (todas as de língua portuguesa até hoje mantiveram a cena original).

Tomado por um inexplicável furor terrorista, Tintim explode um pobre rinoceronte inocente, que nunca soube o que lhe atingiu!

Toda a polêmica que gira em torno do álbum há anos fez com que sua publicação em francês fosse interrompida em finais dos anos 50. Durante mais de 10 anos o álbum juntou-se ao então lendário Tintim no País dos Sovietes no limbo dos quadrinhos. Ironicamente, ele voltou a ser publicado por iniciativa de uma revista… Do próprio Congo** (já independente, na altura chamado Zaire)! Esta fez diversos elogios à obra em suas páginas no início dos anos 70, estimulando a republicação do álbum por todo o mundo.

Artesanato congolês inspirado em Tintim

Todo? Não! Uma pequena aldeia inglesa continuou resistindo! Os ingleses ainda rejeitaram uma edição britânica do álbum por muitos anos, até finalmente cederem em 1991 (!), curiosamente publicando um fac-símile da edição original em P&B do álbum, ainda com todo seu ranço colonialista intacto.

Capa da primeira edição inglesa, em P&B

Somente em 2005 a editora inglesa Egmont cedeu ao apelo dos fãs e aceitou publicar a edição colorida, que recebeu uma cautelosa introdução de autoria dos tradutores explicando o contexto do álbum para evitar polêmicas racistas. Infelizmente não parece ter resultado. Ainda assim, a primeira tiragem de 30 mil exemplares foi vendida rapidamente, mais uma vez confirmando o duradouro sucesso do personagem com o público!

Ironicamente, o ataque do CRE parece ter apenas aumentado ainda mais o interesse deste pelo álbum. Nos poucos dias passados desde a emissão do comunicado, a instituição recebeu críticas por todos os lados, enquanto o álbum foi defendido como um clássico da literatura que exprime o pensamento de sua época, por mais equivocado que fosse. O que é um tipo de valorização que Tintim nunca tivera antes em um país de língua inglesa! Os detratores da série podem ter conseguido então o que os esforços de décadas de Hergé e seus sucessores nunca conseguiram: Popularizar Tintim nos países anglo-saxônicos!

Uma crítica muito mais eficiente à história foi feita recentemente por Joann Sfar. No quinto álbum de sua famosa série O Gato do Rabino (editada no Brasil pela Jorge Zahar, atualmente no segundo volume), Jerusalém da África, Sfar inclui uma aparição relâmpago do jornalista belga, mostrado como um chatíssimo branco com mania de dar lições de moral para todas as pessoas que vê pela frente e atirar em todos os animais que se mexem. A hilária sequência é muito mais devastadora para essa aventura de Tintim do que a censura de uma instituição pública que acaba se revelando muito mais paternalista que a obra que pretende criticar.

* Convém mencionar que a Companhia das Letras, atual editora da série no Brasil, já anunciou que sua nova edição do álbum utilizará realmente o título Tintim no Congo, tradução literal do título original, ao invés da mais tradicional tradução brasileira Tintim na África, utilizada na antiga edição da Record. A história também já foi conhecida pelo título Tim-Tim em Angola quando de sua primeira publicação em língua portuguesa, na revista lusa O Papagaio, nos anos 30, que mostrava “Tim-Tim” como um repórter lusitano, apropriadamente visitando a então colônia portuguesa de Angola.

** Para desespero dos intelectuais europeus, este álbum em particular é de longe o mais popular e apreciado do personagem na própria África. Os africanos demonstrando possuir muito mais senso de humor que seus “defensores”…

Palestra com David B. quinta-feira, jun 7 2007 

Novamente a falta de tempo me fez negligenciar o blog por um período demasiado longo. Tentarei compensar nos próximos dias.

Todo esse tempo de ausência fez com que eu não comentasse uma palestra do artista David B. (pseudônimo de Pierre-François Beauchard) que eu assisti mês passado no Instituto Franco-Português de Lisboa. O autor fora convidado para o Festival Internacional de BD de Beja e o Instituto, sabiamente, aproveitou sua curta passagem por Lisboa para convidá-lo a dar lá uma palestra.

Foto do autor. Infelizmente eu não tirei fotos da palestra.
David B. foi, junto com outros seis autores, um dos fundadores da célebre editora francesa L’Association em 1990. A editora revolucionou o mercado francês, introduzindo uma série de formatos e temáticas antes impensáveis na então altamente conservadora indústria de quadrinhos franco-belga.

Dono de um estilo enganadoramente simples, mas capaz de desenhar páginas de composição arrojada e possuidor de um excelente domínio das técnicas do chiaroscuro, o autor virou uma lenda entre os autores de quadrinhos “alternativos” ao criar a série L’Ascension du Haut Mal (que está para ser publicada no Brasil com o título de “Epiléptico”, pela editora Conrad), publicada pela L’Association entre 1996 e 2003, que aborda a relação entre o autor e seu irmão, vítima de epilepsia, de uma forma inovadora, quase onírica. A série foi bastante premiada e traduzida em diversas línguas.

Exemplo das belas composições de página de David B.
De lá para cá, David B. participou de muitos outros projetos, sozinho ou em parceria com outros autores, como Christophe Blain (de Isaac o Pirata) e Joann Sfar (O Gato do Rabino). Em 2005 deixou a editora que ajudara a fundar e passou a publicar primordialmente pela nova encarnação da editora Futuropolis, onde ainda se encontra.

Apesar de ter ficado famoso por seus trabalhos autobiográficos, David B. já fez uma infinidade de quadrinhos sobre outros temas, em particular falando de seus sonhos surreais, uma grande influência em toda sua obra.

Na palestra, falada em francês, David B. falou sobre todos esses assuntos e diversos outros. Explicou as razões que o levaram a deixar a L’Association (essencialmente ele rompeu com o cacique da editora, Jean-Christophe Menu), falou sobre sua vida e seus projetos. Não vou escrever aqui tudo o que ele falou, mas devo dizer que foi uma palestra assaz interessante.

Vale também adicionar que, caso único entre todas as vezes em que eu assisti palestras de autores de quadrinhos estrangeiros, fosse em festivais ou em eventos pontuais como este, a livraria do Instituto teve o cuidado de trazer e colocar à venda todos os trabalhos do autor disponíveis na França! Uma medida aparentemente óbvia, mas que eu nunca vira antes posta em prática! Certamente valeu a pena, já que quase todos os que assistiram a palestra (pouco mais de uma dúzia de pessoas) saíram de lá com um ou mais álbuns recém-comprados nas mãos (eu inclusive). Ouso dizer que esse tipo de boa visão comercial é uma das razões da prosperidade do mercado francês…

Entre o material que adquiri estão as duas mais recentes obras do autor, publicadas pela Futuropolis, que eu comentarei a seguir:

Capa de Le jardin armé et autres histoires
Le jardin armé et autres histoires é uma coleção de três histórias (duas delas serializadas na antiga revista Lapin da L’Association), que abordam temas ligados à religião e os conflitos criados pelo fanatismo, mas dentro de uma ambientação fantástica e sobrenatural.

Na primeira história, Le prophète voilé (“O profeta velado”), um homem tem o rosto coberto por uma misteriosa faixa de tecido e transforma-se no profeta velado, um poderoso conquistador e líder religioso que eventualmente desperta a atenção do famoso califa Harun al-Rashid, que por sua vez precisa descobrir uma forma de destruir este oponente sobrenatural. A segunda história, Le jardin armé (“O jardim armado”), mostra um ferreiro da Praga medieval que crê ter visões que o levarão até o Jardim do Éden, rapidamente ele atrai um exército de fanáticos a seu redor e começa a espalhar o caos e a violência pela região. Por fim, na última história, Le tambor amoureux (“O tambor apaixonado”), o líder hussita Jan Zizka, que aparecera na história anterior, morre e seus seguidores criam com sua pele um tambor, cujo toque permite a seu exército vencer todas as batalhas, mas o tambor cai nas mãos de uma jovem, por quem o espírito de Zizka se apaixona.

Página de Le prophète voilé
As três histórias são excepcionalmente criativas e cativantes, ajudadas pela bela arte de David B., que retrata com perfeição a magia de seus personagens. Mais que uma história em quadrinhos, este álbum é uma entrada para um mundo onde violência, magia e religião andam de braços dados. E uma das melhores HQs que eu li nos últimos meses.

Capa do primeiro volume de Par les chemins noirs
Par les chemins noirs (“Por caminhos obscuros”) é o título da mais recente série de David B., cujo primeiro álbum, entitulado Les Prologues (“Os prólogos”) foi recentemente editado na França. Como o título diz, é uma série de “prólogos” da saga que o autor pretende contar, ambientada na então cidade iugoslava de Fiume (hoje Rijeka, na Croácia) em 1920, quando a cidade, de maioria italiana, foi ocupada militarmente pelo escritor e aventureiro italiano Gabriele d’Annunzio, que tentou criar lá um “estado livre”. O álbum mostra a vida de uma série de personagens exóticos (entre eles o próprio poeta), cujos caminhos se cruzam em meio ao caos criado pela ocupação do “brancaleonesco” exército de D’Annunzio.

Página de Par les chemins noirs
Necessariamente menos exótico e surreal que as outras obras mencionadas acima, o álbum chama a atenção pela eficiente caracterização dos personagens e o bom humor com que retrata a inusitada situação em que se encontram. Apesar das limitações em trabalhar com uma temática mais realista, a arte de David B. continua bastante eficiente, exibindo ocasionalmente (mas sempre em contexto!) as composições surrealistas que fizeram a fama do autor. Um início promissor para uma série ambiciosa como esta.

Para aqueles que ainda não conhecem o autor e não têm o privilégio de saber francês ou poder assistir uma palestra com ele, eu recomendo adquirirem a edição brasileira de “Epiléptico”, que está prestes a ser lançada pela Conrad.

HQs e política na França – Conclusão domingo, mai 13 2007 

A eleição presidencial francesa já passou e, como se esperava, Nicolas Sarkozy é o novo presidente da República Francesa, assumindo o cargo na próxima quarta-feira (16 de maio). Hora das editoras lançarem seus últimos trabalhos sobre o assunto e medirem os resultados.
Edição espanhola da bem sucedida

O grande sucesso da turma foi, sem dúvida, La face kärchée de Sarkozy, que eu mencionei em meu artigo anterior, que vendeu mais de 200 mil cópias em sua edição francesa, para não falar em uma tradução espanhola que parece ter tido um desempenho razoável. O que impulsionou os autores a escreverem uma continuação, Sarko 1er, que cobre o período eleitoral e será publicada dia 15 de maio, véspera da posse do novo presidente. Para poder terminar o álbum ainda antes da posse, os autores chegaram a fazer duas versões diferentes da capa, para cada um dos candidatos do segundo turno do escrutínio eleitoral gaulês.

Capa do novo álbum parodiando Sarkozy

Outras HQs publicadas para aproveitar o interesse do público na eleição tiveram um desempenho mais modesto. A dupla Tout sur Sarko/Ségo, que eu igualmente mencionei em meu artigo, vendeu “apenas” cerca de 20 mil exemplares cada um (ainda muito acima das vendas médias de um álbum na França, estimadas em 7 mil exemplares).

Capa prevista para caso Ségolène vencesse a eleição presidencial

Todo esse furor de criação de HQs oportunistas sobre a eleição presidencial despertou a curiosidade de muita gente, com algumas reportagens televisivas sobre o assunto chegando até às redes de televisão americanas, que raramente falam sobre quadrinhos! A revista francesa especializada em quadrinhos BoDoï também fez uma reportagem sobre o assunto, com direito a uma curta entrevista com o autor e jornalista Pierre Christin (Valerian, A Caçada, Falanges da Ordem Negra), um dos poucos argumentistas franceses com tradição em escrever sobre assuntos políticos.

Eu e Pierre Christin no último Festival de Angoulême. Não ia perder a chance de mostrar esta foto!

Christin afirmou que há pouca gente escrevendo HQs políticas “de verdade” e gente demais trabalhando nessas sátiras a Sarkozy e Ségolène. Ele fala com conhecimento de causa, já que alguns de seus trabalhos mais políticos (como A Caçada, obra de ficção ambientada nos bastidores do regime soviético) são bem vendidos até hoje, décadas depois de sua publicação.

Capa de A Caçada, arte de Enki Bilal

Uma HQ política nova seria o primeiro volume da série Élysée République, de autoria da dupla Rémy Le Gall, que, de acordo com a editora, é lobista da indústria de armamentos e antigo alto funcionário do executivo francês, e Frisco, que consta ser o pseudônimo de um artista já estabelecido dos quadrinhos franceses.

Capa do primeiro álbum da série Élysée République

Prevista como uma série de cinco álbuns (o primeiro foi publicado em fevereiro), Élysée République segue a trajetória de Constant Kérel, honesto deputado francês que quer ser o próximo presidente do país. No primeiro álbum ele descobre um segredo que pode ser fatal para o atual presidente, seu adversário político. Nos álbuns seguintes, o autor pretende acompanhar a caminhada do protagonista rumo à ambicionada presidência. Conseguirá ele manter sua integridade ou terá de abrir mão de seus princípios para poder chegar ao poder?

Página de Élysée République

Já existem HQ examinando o tema, em particular o mangá Eagle, de Kaiji Kawaguchi, que mostra um candidato nipo-americano tantando chegar à presidência dos Estados Unidos, mas Élysée segue uma linha diferente, a de Largo Winch, mostrando seu protagonista não apenas como um hábil político, mas também como um corajoso homem de ação, tal e qual o herói Largo Winch, cujas tramas misturam ação e os bastidores das altas finanças e inspirou uma infinidade de outros heróis em moldes similares, dos quais Constant Kérel é o mais recente.

Capa da edição francesa do mangá Eagle, uma ficção pol�tica mais convencional

Para além das acrobacias de seu protagonista, a série tem sido muito elogiada por sua representação realista (ou ao menos convincente) das engrenagens do poder na França.

Voltando um pouco ao presidente eleito da França, Sarkozy fez recentemente uma incomum crítica ao chargista político Plantu, que o caricaturou caracterizado como o líder da extrema direita Jean-Marie Le Pen. Aparentemente Sarko não gostou da comparação! A resposta do chargista foi, obviamente, satirizar ainda mais o político.

A caricatura que tirou Sarkozy do sério

A eleição de Sarkozy também provocou um regresso inesperado. Frantico, autor de um polêmico blog em quadrinhos que foi posteriormente transformado em livro, surpreendera o mundo dos quadrinhos francês no ano passado, quando foi revelado que ele seria nada menos que o célebre autor Lewis Trondheim, maior nome do quadrinho “alternativo” francês, trabalhando sob pseudônimo (Trondheim nega, com pouca convicção). Agora “Frantico” está de volta, com um novo blog em que satiriza Sarkozy, retratando-o como “Nico Shark”, retratando-o como o ditatorial diretor de recursos humanos de uma empresa.

(Pessoalmente eu acho crueldade comparar um ser humano com um diretor de recursos humanos…)

Por fim, um acontecimento ainda mais estranho que serve como prova definitiva da ligação entre quadrinhos e política na França: Um autor de quadrinhos, Jean-Luc Coudray, é candidato nas eleições legislativas francesas, a serem realizadas em junho!

Cartaz de propaganda eleitoral de Coudray

Veterano autor de quadrinhos (está no sangue, seu irmão gêmeo Philippe Coudray também trabalha na área!), Jean-Luc Coudray já trabalhou com autores do porte de Trondheim ou Moebius e agora é candidato pelo Parti pour la Decroissance (“Partido do Decrescimento”), que defende o fim da busca obsessiva pelo crescimento econômico, argumentando que isso tem prejudicado a sociedade e o meio ambiente! Não deixa de ser verdade, muito embora eu pense que o fim desse crescimento não resolva necessariamente esses problemas – e crie muitos outros!

Antes de sua carreira política, Coudray trabalhou em diversas HQs de sátira política, como Béret et Casquette (“Boné e Boina”). É de se imaginar que logo ele terá material para muitas outras…

Capa de Béret et Casquette

José Aguiar no Centro de Cultura França-Alemanha de Niterói quarta-feira, mai 9 2007 

Andei muito ocupado esses últimos dias para poder atualizar o blog. Mea culpa, vou tentar compensar o melhor que puder. Primeiro divulgando um evento que está rolando na cidade de Niterói (RJ).

Bom amigo meu e artista de grande talento, o curitibano José Aguiar é um dos raros artistas brasileiros de quadrinhos trabalhando no exigente mercado europeu. Depois de ter feito diversos trabalhos para o mercado brasileiro (incluindo uma participação na “reformulação” do super-herói curitibano O Gralha), Aguiar, em parceria com o também brasileiro Wander Antunes, publicou pela editora suiça Paquet dois álbuns da série policial Ernie Adams.

Capas dos dois álbuns de Ernie Adams

A série não foi um grande sucesso (é complicado uma série de uma editora pequena se destacar em um mercado com mais de 3000 lançamentos de quadrinhos por ano…), mas foi o bastante para Aguiar, na altura morando na Alemanha, fazer uma pequena turnê de lançamento por França e Suiça.

Aguiar autografando seus trabalhos em uma loja de quadrinhos suiça

Durante a turnê, ele aproveitou para colocar no papel suas impressões do Velho Continente, prática bastante comum para os artistas europeus em viagem pelo mundo, que Aguiar “inverteu” fazendo ele próprio uma série de ilustrações da pitoresca Europa.

Aguiar junto à antiga residência de Rodolphe Töpffer, o “inventor” dos quadrinhos!

De volta ao Brasil, fez a exposição Reisetagebuch – Uma Viagem Ilustrada pela Alemanha, na qual exibiu suas ilustrações, e uma HQ autobiográfica publicada na revista Omelete, do website homônimo, do qual nós dois somos colaboradores de longa data.

Página da HQ de Aguiar no Omelete, mostrando as peripécias do casal Aguiar em Paris

(Incidentalmente, seu Aguiar, quase todos os parisienses sabem inglês, apenas se recusam a falar nessa língua! Mas eles falam em inglês se você tentar falar com eles em francês e não conseguir, por estranho que pareça. Esses franceses são loucos!)

O plano de Aguiar é fazer um livro misturando suas ilustrações, quadrinhos e textos falando sobre suas experiências na Europa, um tipo de trabalho muito difundido no Velho Continente, mas praticamente inexistente no Brasil, ao menos na vertente de quadrinhos.

A exposição Viajando em Quadrinhos pela França e Alemanha, que reune esses trabalhos com páginas produzidas para Ernie Adams, abre hoje no Centro de Cultura França Alemanha, em Niterói, com a presença do autor. O Centro de Cultura fica na Estrada Francisco da Cruz Nunes, 6266, Oásis Shopping Center, Piratininga, Niterói-RJ, e abre de segunda a sexta-feira, das 13h às 21 horas e sábados das 8h às 12 horas. Vão lá e digam que Hunter os mandou, que vão poder entrar sem pagar! Bem, na verdade vão poder entrar de graça até sem falar nada, porque a entrada é franca…

Dinâmica página de Ernie Adams, t�pica das que estarão na exposição

A exposição fica até o fim do mês. Se estiverem nas proximidades, visitem-na!

Página de teste de Aguiar com Dylan Dog. Não tem nada a ver com a exposição, mas eu não podia deixar de postar isso!

Enquanto ninguém se anima a publicar esse projeto no Brasil (e se você é um editor de quadrinhos, está lendo isso e ainda não entrou em contato com o Aguiar para publicá-lo, qual é o seu problema afinal?), Aguiar continua seu trabalho para a Paquet, desta vez colaborando na coletânea Flying Doctors, um álbum coletivo em homenagem à ONG AMREF, que presta ajuda médica a comunidades africanas isoladas utilizando aviões. O álbum será publicado na coleção Cockpit da editora, dedicada a histórias de aviação, e será escrito por Régis Hautière, com arte de 10 artistas de diversas nacionalidades, entre eles Aguiar. O título do álbum será Un jour de mai (“Um dia de maio”).

Página de Un jour de mai de autoria de Aguiar, que mostra sua habilidade como desenhista “técnico”

É uma pena que alguém como José Aguiar precise ir até a Europa para conseguir publicar seus trabalhos. Resta esperar que um dia o mercado brasileiro esteja sólido o suficiente para que talentos como ele possam publicar no próprio país!

Grandes revistas em quadrinhos – 2000 AD segunda-feira, abr 30 2007 

Pode parecer estranho depois de minha defesa apaixonada das livrarias como o futuro das HQs, mas eu sou grande apreciador das revistas em quadrinhos de banca. Em particular as antologias em estilo europeu, de formato grande e com várias séries, que sabem aproveitar as poucas páginas que têm (em geral não mais de meia dúzia por edição!) para contar uma história da forma mais direta e enxuta possível.

A Inglaterra tem uma grande tradição em revistas desse tipo, contando até com aquela que é (até onde meu limitado conhecimento chega) a mais antiga revista em quadrinhos do mundo: Dandy, publicada semanalmente desde 4 de dezembro de 1937! Em comparação, a 2000 AD é muito mais recente (publicada pela primeira vez em 26 de fevereiro de 1977, ela comemorou seu 30º aniversário apenas há poucos meses), mas sua importância mais do que excede os seus comparativamente poucos anos de existência.

2000 AD foi a herdeira direta da revista Action, uma revista de vida curta criada em 1976. Os criadores da Action foram a célebre dupla Pat Mills e John Wagner, que antes tinham criado o violento gibi de guerra Battle Picture Weekly. O sucesso deste levou Mills e Wagner a criarem uma publicação ainda mais violenta e amoral, a Action. Porém eles haviam passado da conta, a conservadora sociedade inglesa da época (não que hoje esteja muito melhor…) não podia tolerar uma revista assim e a Action foi corrida das bancas poucos meses depois. Ela acabou voltando, em uma versão mais “pasteurizada”, poucas semanas depois, mas essa nova encarnação não agradou os leitores e foi cancelada no ano seguinte.

Nesse meio tempo, Mills e Wagner criaram um segundo semanário, no estilo da Action (tendo aprendido com esta quais os limites que não deveriam ser excedidos…) e usando muitos dos mesmos criadores, mas com uma temática de Ficção Científica e ressuscitando um dos grandes clássicos da FC quadrinística britânica, Dan Dare, antiga estrela da mais famosa revista em quadrinhos inglesa de todos os tempos, a Eagle (1950-1970). Esta encarnação do personagem, porém, não teve grande sucesso, o que colocou as outras HQs da revista em maior evidência.

Capa da primeira edição da 2000 AD

Fazendo companhia ao tradicional Dan Dare, uma série de HQs que definitivamente nunca teriam sido publicadas na tradicional Eagle: Invasion (violenta HQ de guerra que mostrava uma Inglaterra ocupada por uma potência estrangeira, o grande diferencial era seu protagonista, o brutal e vingativo Bill Savage), M.A.C.H.1 (mais convencional das séries novas – e maior sucesso da revista até a ascensão do Juiz Dredd – era basicamente uma cópia barata do Homem de seis milhões de dólares), Harlem Heroes (série esportiva futurista descaradamente inspirada nos Harlem Globetrotters) e a alucinada Flesh (mais perturbada das séries originais, partia do conceito de que no futuro a superpopulação acabara com a criação de animais de corte e a única alternativa para vender carne a uma faminta sociedade futurista era voltando no tempo para caçar dinossauros, o que teria sido a verdadeira causa da extinção dos bicharocos!).

A insana série Flesh, arte de Kevin O'Neil

Porém foi no segundo número da 2000 AD que surgiu o personagem que se tornaria o maior sucesso da revista e a imagem que vem à mente da maioria das pessoas quando se fala na revista, o Juiz Dredd!

O Juiz Dredd em todo seu explendor

Homem da lei de uma sociedade fascista futurista, Dredd é juiz, júri e executor, tendo autoridade para decidir (e executar) as penalidades judiciárias sobre todo aquele que quebrar uma das muitas leis que governam a cidade. Conceito genial, que permite contar um sem número de histórias, desde simples thrillers de ação, passando por sátiras político-sociais, até sofisticadas críticas ao totalitarismo, o personagem criado pelo escritor John Wagner e o desenhista espanhol Carlos Ezquerra (que ainda hoje trabalham na série!) logo se tornou o personagem mais popular da revista, posição que mantém até hoje. Seu sucesso determinou ainda a criação de uma revista mensal dedicada, a Judge Dredd Megazine, publicada até hoje, e diversas outras publicações de vida mais curta. Inúmeras outras séries ambientadas no universo de Dredd surgem regularmente na 2000 AD e na Judge Dredd Megazine, algumas fazendo bastante sucesso!

Explosiva sequência de Dredd assinada por seu co-criador Carlos Ezquerra

Para além de Wagner e Ezquerra, diversos criadores se destacaram na criação das aventuras de Dredd, em particular o desenhista Brian Bolland, que deve boa parte de seu sucesso ao magnífico trabalho que fez no personagem. Hoje ele raramente faz trabalhos para a revista, foraocasionais capas.

Magn�fica capa de Brian Bolland

Apesar de diversas tentativas de publicação, Dredd nunca conseguiu se tornar popular no Brasil. Como é que uma alegoria para justiça a todo custo não consegue se estabelecer em um país em que boa parte das pessoas gostaria de ver a lei reprimindo o crime com a brutalidade de um Juiz Dredd é algo incompreensível, mas eu atribuo isso à falta de visão das editoras que o publicaram. Praticamente apenas as histórias curtas de Dredd saíram no Brasil, e quase todas elas têm um tom de paródia mais acentuado. Mas o personagem se tornou popular em seu país de origem devido às megasagas de centenas de páginas que se desenrolavam por meses na 2000 AD. Nessas tramas mais complexas é possível constatar que o personagem é muito mais do que a sátira unidimensional que pode parecer àqueles que conhecem apenas as histórias curtas! Juiz Dredd tem continuidade – e uma bastante rica até! Eu acho que a próxima editora a tentar publicá-lo no Brasil (vai acontecer algum dia, é inevitável…) deveria tentar traduzir alguma das sagas mais longas, ao invés de ficar só no material curto. É mais arriscado, eu sei, mas é a melhor chance do personagem emplacar!

Capa do TPB de Total War, uma das melhores megasagas recentes de Juiz Dredd

Mas 2000 AD não é só Dredd! Diversos outros personagens e séries marcaram as páginas da revista ao longo dos anos. Eis alguns destaques:

Rogue Trooper é uma série de guerra futurista ambientada em Nu Earth (corruptela de New Earth – “Nova Terra”) um planeta destruído pelo interminável conflito entre duas facções, os Nortistas e os Sulistas. Fruto de uma experiência genética sulista, Rogue é um G.I. (Genetic Infantryman – “Infante Genético”), um entre vários humanóides artificiais criados em laboratório para sobreviver ao ambiente hostil do pleneta arrasado. Porém a traição de um general corrupto levou à morte de seus companheiros. Foragido e considerado traidor por seus compatriotas, Rogue carrega a consciência de seus falecidos amigos em biochips especiais inseridos em sua arma, mochila e capacete, percorrendo o terreno inóspito de Nu Earth em sua infindável busca pelo general traidor, enquanto é caçado por ambos os lados!

Rogue Trooper

Criação do veterano escritor Gerry Finley-Day e do desenhista Dave Gibbons (que ganhou fama por seu trabalho na série), Rogue Trooper era uma eficiente crítica à guerra e ao belicismo. Sua caça ao “general traidor” cativou os leitores durante anos a fio, com Finley-Day e seus diversos artistas desfilando uma série de reviravoltas a cada passo do caminho, chegando até a ser mais popular do que Dredd!

Primeira e mais clássica capa de Gibbons para Rogue Trooper

Porém, logo após Rogue encontrar o general traidor, Finley-Day, um dos últimos escritores “profissionais” dos quadrinhos (ou seja, um escritor que trabalhava em HQs não por ser fã da mídia em si, mas por não ter encontrado outro trabalho) se aposentou, deixando sua criação órfã. Com sua trama principal resolvida, a série ficou sem direção e acabou deixando de publicada durante um bom tempo, até que o jovem escritor Gordon Rennie (uma das novas estrelas da 2000 AD) “ressuscitou”o personagem, criando novas aventuras ambientadas durante a caçada original ao general traidor.

Não foi a primeira vez que a 2000 AD voltou a publicar histórias de um personagem considerado finalizado usando o bastante óbvio expediente de ambientá-las no passado. A primeira vez fora com outra criação de Wagner e Ezquerra, Strontium Dog.

O caçador de recompensas Johnny Alpha, astro de Strontium Dog

Criado para a revista Starlord, uma das várias revistas de FC de vida curta criadas após a 2000 AD na tentativa de atingir o mesmo público, Strontium Dog se passava em um futuro após um conflito nuclear que contaminou a Terra com uma infinidade de elementos radioativos, entre eles o Estrôncio (Strontium), gerando uma série de mutações nos seres humanos. Esses mutantes foram segregados pelo resto da humanidade, tendo que sobreviver como criminosos ou caçadores de recompensas. Johnny Alpha é um deles, um mutante com olhos que emitem “ondas alfa” que o permitem ver através de paredes e manipular objetos, entre outros superpoderes. Um homem honrado em um ambiente corrupto, Johnny e seu parceiro Wulf Sternhammer são apenas dois entre os caçadores de recompensas conhecidos como os “Strontium Dogs”.

Johnny Alpha desenhado por Ezquerra

A popularidade do personagem permitiu que ele sobrevivesse ao cancelamento da Starlord e passasse para o elenco da 2000 AD, onde eventualmente se tornou o segundo personagem mais popular depois do Juiz Dredd. John Wagner e Alan Grant se alternam nos roteiros até hoje, com o incansável Carlos Ezquerra como principal artista (quando não está desenhando Dredd!). Curiosamente, tal e qual Rogue Trooper, a série “acabou” uns anos atrás e as aventuras atuais são “flashbacks” do período de caçador de recompensas de Johnny Alpha! Outro exemplo de como o final de uma série não significa necessariamente o fim de novas histórias (as HQs americanas fariam bem em aprender essa lição!). Como Juiz Dredd, Strontium Dog também gerou diversas outras séries estreladas por personagens do mesmo universo.
Durham Red, coadjuvante de Strontium Dog e estrela de uma série spinoff

Outra HQ que fez a transição da Starlord para a 2000 AD foi Ro-Busters, série humorística criada por Pat Mills e estrelada por dois robôs de segunda mão, Ro-Jaws e Hammerstein (os nomes são “homenagem” à dupla de compositores britânicos Rogers e Hammerstein), que são salvos do desmanche para fazerem parte de uma equipe especializada em resgate, os Ro-Busters. Essa série teve sucesso mediano, mas quando Mills trocou o foco das aventuras para o tempo em que a dupla era parte de um grupo especial de soldados-robôs, os A.B.C. Warriors, a série rapidamente se tornou um dos hits da revista.

Hammerstein, o protagonista de A.B.C. Warriors. Sim, ele aparece no filme do Juiz Dredd!

Parte do sucesso se deveu sem dúvida à arte da série, assinada por talentos do calibre de Kevin O’Neil, Brendan McCarthy, Simon Bisley e outros talentos, que complementaram habilmente os roteiros afiados de Mills. Atualmente a sérieé desenhada por Clint Langley, que faz uma espetacular combinação de montagens fotográficas com desenhos que dá à arte um realismo insperado nesse tipo de trabalho, sem sacrificar o dinamismo essencial para uma boa HQ.

Hammerstein por Clint Langley. Sim, arte interior também é assim!

Outra criação de Mills é o celta Sláine. Uma das raras séries de fantasia da 2000 AD, Slaine é estrelada pelo guerreiro celta Sláine Mac Roth, uma espécie de Conan ambientado na mitologia celta. Desenhado originalmente por Angie Kincaid (ex-esposa de Mills), o celta foi depois desenhado por uma constelação de grandes artista, entre eles Glenn Fabry, Bryan Talbot e especialmente Simon Bisley, que desenhou sua história mais popular, The Horned God (já publicada no Brasil).

Slaine desenhado por Bisley

A série continua até hoje, apesar de ter perdido popularidade durante os anos 90, criticada pelo “excesso de misticismo barato”. O artista atual da série é novamente Clint Langley.

Capa de Langley para Sláine

Por fim, temos minha favorita pessoal entre as séries mais recentes, Nikolai Dante. Ambientada em uma Rússia czarista futurista, a série é protagonizada por um malandro charmoso e descolado, que se envolve nas intrigas políticas da corte czarista ao tomar posse inadvertidamente de uma arma simbiótica alienígena, que lhe dá, entre outras coisas, o poder de produzir lâminas cyberorgânicas no corpo. Mas o que ele quer mesmo é diversão, bebida e mulheres!

Nikolai Dante na bela arte de Simon Fraser

Criado pelo escritor Robbie Morrison e o talentoso artista Simon Fraser, Dante obteve um sucesso inesperado devido à sua combinação de humor escrachado, intriga sofisticada e drama pessoal com doses de erotismo e sensualidade raramente vistas na revista.

Espetacular capa de Fraser para um dos TPBs de Nikolai Dante

Certamente a mais “europeia” (continental, no caso) das HQs da 2000 AD, a série ainda é desenhada por Fraser até hoje, alternando com o mais tradicional John Burns, um dos últimos representantes da arte tradicional dos quadrinhos britânicos.Exemplo da arte mais tradicional de John Burns em Nikolai Dante

Apesar de um rol de personagens incrível como este (e eu citei apenas uns poucos exemplos, há muitos mais de onde estes vieram!), a 2000 AD teve a mesma carreira atribulada de outras revistas britânicas. Particularmente após o espetacular fracasso do filme do Juiz Dredd, que criou uma imagem errônea do personagem na mente do público, a 2000 AD atravessou um sério período de crise nos anos 90. Boa parte dos criadores originais, incluindo a insubstituível dupla Pat Mills e John Wagner, se afastara da revista e seus substitutos (Garth Ennis, Mark Millar e outros autores de segunda categoria que eventualmente fariam sucesso nos EUA após fracassarem no mercado britânico) não se mostraram à altura. Porém a aquisição da revista pela empresa de videogames Rebellion deu novo gás à publicação, promovendo o regresso dos autores clássicos e o surgimento de uma nova geração de criadores, que substituiu aqueles que fracassaram nos anos 90. A recente publicação de numerosas encadernações republicando séries de sucesso da revista também ajudou, levando o material da 2000 AD até o público das livrarias e lojas de quadrinhos.

Apesar de seu ano de batismo já ter passado há um bom tempo, a 2000 AD continua em frente. Ela é publicada toda semana na Inglaterra (exceto por três semanas dedezembro, quando uma edição anual gigante a substitui nas bancas), tem 32 páginas em formato magazine e papel razoável (o LWC mais simples que se pode imaginar, usado até na capa!), com impressão apenas decente o bastante para reproduzir nesse papel as séries pintadas mais complexa. A revista é colorida, embora haja quase sempre alguma série P&B sendo serializada nela. Cada edição contém em média 5 histórias de 5-6 páginas cada. Custa razoáveis £ 1,75. Há também duas revistas derivadas, a Judge Dredd Megazine (mensal, com mais páginas e histórias mais longas, ambientadas geralmente no universo do Juiz Dredd) e a 2000 AD Extreme (bimestral, republica histórias antigas que ainda não saíram em encadernações, geralmente material mais obscuro).

A revista chegou a ser publicada no Brasil pela Ebal, em edições iguais às inglesas! Alguns dos seus personagens, como Juiz Dredd, Slaine e Zênite, receberam publicações ocasionais no Brasil, mas nunca conseguiram realmente se firmar. Em Portugal, ela é quase completamente desconhecida, embora a edição inglesa possa ser encontrada em alguns pontos de venda. Considerando a quantidade de HQs norte-americanas publicadas em português, é incompreensível que a maior parte do material da 2000 AD nunca tenha sido traduzido até hoje! Vale notar que foi de lá que saíram muitos dos autores que eventualmente fizeram sucesso nos comics americanos, como Alan Moore, Dave Gibbons, Grant Morrison, Kevin O’Neil, Brian Bolland e muitos, muitos outros!

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