A morte de Jean “Moebius” Giraud segunda-feira, mar 19 2012 

Escrevi este texto no último dia 10 para marcar o falecimento do grande Jean “Moebius” Giraud. Esta é uma versão revista e ampliada para o blog:

Poucas pessoas têm a honra de se tornar uma lenda em seu próprio tempo. Menos ainda podem ser consideradas os nomes mais importantes da sua área. Jean Giraud, o Moebius, falecido hoje cedo na França, era as duas coisas.

Nada mais justo que um desenho de Enki Bilal para homenagear Moebius...

Capa do jornal Libération em homenagem a Moebius. Arte de Enki Bilal.

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Tonkaradani, a obra mais obscura de Osamu Tezuka sábado, dez 17 2011 

Soube com algum atraso da nobre iniciativa do Tezuka Day. Ora, como fã incondicional de Osamu Tezuka, eu nunca poderia deixar essa data passar em branco! E decidi reavivar o meu blog só para homenagear aquele que foi o maior autor de mangá (e quiçá de quadrinhos como um todo) de todos os tempos!

Mas sobre o que escrever? Como muitas das principais obras dele já estavam sendo comentadas por outros, era preciso que fosse um material bastante obscuro. Então eu fui atrás daquela que deve ser a obra mais obscura do autor: Tonkaradani Monogatari!

Castiga o pandeiro aí! Ziriguidum, telecoteco, balacobaco!

Capa da edição francesa de Tonkaradani, que referencia a adaptação de Mignon

Tonka o quê?

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Editoras japonesas entram no mercado francês segunda-feira, abr 5 2010 

Não é de hoje que o mangá faz sucesso na França. De quinze anos para cá os quadrinhos de origem japonesa tiveram um crescimento exponencial no mercado gaulês, passando de meia dúzia de séries a cerca de 40% das HQs publicadas na França!

Não admira portanto que as editoras japonesas, enfrentando uma queda contínua de vendas no mercado doméstico, tenham decidido entrar diretamente no mercado de quadrinhos francês, o segundo maior do mundo a seguir ao nipônico.

A primeira a fazer isto é o Grupo Hitotsubashi, holding que controla as editoras  Shogakukan, Shueisha, Hakushensha e uma infinidade de outras editoras japonesas. Esse poderosíssimo grupo editorial já operava nos EUA (e, desde 2007, também na Europa) através da sua filial Viz Media, mas não publicava diretamente na França, onde seus mangás são licenciados por editoras como Glénat, Kana (divisão de mangás da francesa Dargaud), Pika (subsidiaria do gigantesco grupo editorial Hachette) e Tonkam (filial da Delcourt).

Isso mudou em Agosto do ano passado, quando a Viz Media adquiriu a distribuidora de animes gaulesa Kaze. De um só golpe a Viz ficou dona não apenas da maior distribuidora de animes da França (com filiais em outros países da região, em particular a Alemanha), como também levou “de brinde” a editora de mangás da Kaze, a pequena Asuka, até então destacada apenas por sua publicação das obras do mestre Osamu Tezuka e de material Yaoi. Embora a decisão de adquirir a Kaze pareça ter sido motivada mais pelo sua presença no mercado de animes,  o grupo resolveu não desperdiçar esta oportunidade de atuar também no próspero mercado de mangás francês!

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Disney compra a Marvel domingo, nov 15 2009 

Mickey na visão de um dos "pais" da Marvel, Jack Kirby

Mickey na visão de um dos "pais" da Marvel, Jack Kirby

(Desculpem a demora, mas esta notícia teve tantas ramificações nas últimas semanas que o artigo precisou ser reescrito diversas vezes.)

No que é possivelmente a notícia mais importante (e surpreendente) da indústria de quadrinhos este ano, a multinacional de entretenimento Walt Disney Company adquiriu Marvel Entertainment Inc., que inclui a Marvel Comics, por um valor estimado (baseado no preço a ser pago pelas ações da Marvel, que inclui troca de ações da Marvel por ações da Disney) em cerca de quatro bilhões de dólares!

Um negócio bastante impressionante por vários fatores. O primeiro e mais óbvio é a soma investida. A Disney está pagando o equivalente a metade do seu lucro anual, uma soma impressionante comparável ao Produto Interno Bruto de Ruanda, por uma empresa que no ano passado anunciou um lucro de… 200 milhões de dólares!

Simples aritmética determina que, para recuperar seu investimento (assumindo que o faturamento da Marvel continue o mesmo), a Disney teria de esperar 20 anos! Bem, é óbvio que a companhia fundada por Walt Disney não comprou a Marvel com o objetivo de recuperar seu investimento em 20 anos, seria ridículo pensar isso! Então qual é a motivação dela?

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Fui no lançamento do novo Asterix! quinta-feira, out 22 2009 

Na noite do dia 21 para o dia 22 de Outubro aconteceu o lançamento mundial do novo álbum de Asterix, O aniversário de Asterix e Obelix, o livro de ouro.

A bela capa do novo álbum de Asterix

A bela capa do novo álbum de Asterix

O evento foi celebrado nos dezoito países em que o álbum foi publicado simultaneamente, com a impressionante tiragem total de 3,5 milhões de exemplares. Portugal é um deles (a tiragem lusa é de 60 mil exemplares, número bastante alto para o país). Fã incondicional da série, decidi desbravar a chuva forte que caía sobre Lisboa para participar do lançamento do álbum. O que eu não faço por um Asterix!

Ao chegar ao local do lançamento (a livraria FNAC do Centro Comercial Colombo, para os curiosos), notava-se logo a decoração temática, com direito até à presença dos próprios Asterix e Obelix (atores fantasiados, claro). Nada menos que duas emissoras de TV estavam cobrindo o evento, a estatal RTP e a privada TVI! Curiosamente no mesmo local se realizara poucas horas antes um acontecimento que se revelou menos mediático… O lançamento do Windows 7! Melhor sorte da próxima vez, Bill Gates…

Na palestra estavam presentes a editora de quadrinhos da Asa Maria José Magalhães Pereira, o jornalista especializado Carlos Pessoa e o filho do primeiro editor de Asterix (e de Tintim) no país, Adolfo Simões Müller. Este visionário editor (que completaria 100 anos em 2009) foi o responsável por Portugal ter sido o primeiro país do mundo a traduzir Asterix (e, novamente, Tintim!), portanto a presença do seu filho no evento foi bastante simbólica. A palestra centrou-se no tema da tradução dos nomes dos personagens da série, polêmica recorrente em Portugal desde que a prática se iniciou, na passagem da série para a égide editorial da Asa. Algo de  interesse limitado para os leitores deste blog.

Então vamos ao que realmente interessa: O álbum em si!

Esta é, como prometido, uma coleção de histórias curtas e ilustrações, efetivamente recolhendo todo o material “de arquivo” que ainda sobrava do personagem. Há até um divertidíssimo texto de René Goscinny (devidamente ilustrado por Albert Uderzo, que continua um desenhista de talento inquestionável) sobre as férias na Gália, que apesar de seus mais de 40 anos de idade mantém a verve cômica do escritor original da série. Lamentavelmente é o único material dele presente no álbum.

Este abre com uma ótima sequência inédita mostrando Asterix e Obelix cinquenta anos mais velhos, em referência ao cinquentenário dos personagens comemorado pelo álbum. A visão dos gauleses envelhecidos é bem mais engraçada do que parece à primeira vista e a sequência termina com uma divertida participação especial do autor Uderzo, que tem um certo tom de despedida.

Tom este também presente nos prefácios assinados por “Asterix” (certamente o próprio Uderzo, um tanto auto-congratulatório demais para o meu gosto) e Anne Goscinny, que derrete-se em elogios ao colega de seu pai e nas sequências de ligação entre as várias histórias do álbum. Que são, por sinal, o seu principal problema.

Ao invés de colocar as histórias separadamente, como em Asterix e a volta às aulas (Asterix e o regresso dos gauleses, na edição portuguesa), Uderzo decidiu ligar as histórias (e até as várias ilustrações, que correspondem a cerca de metade do conteúdo do álbum) com um fio condutor narrativo extremamente tênue. Isso não favorece o material e acaba resultando em um todo inferior à soma das partes. O que é uma pena, porque algumas partes são excelentes.

Vale destacar, por exemplo, uma história curta que mostra Obelix tentando aprender a ler (publicada anteriormente na revista literária francesa Lire), os “erros de gravação” do álbum Asterix e Latraviata (sinceramente bem melhores que o álbum em si…) e até uma série de pinturas de Asterix parodiando obras de arte clássicas, curiosamente similar a uma iniciativa mais antiga de Mauricio de Sousa, História em quadrões! O resultado ficou melhor que o do Mauricio (não há como negar que Uderzo é um desenhista mais habilidoso), mas não soa muito original para quem já viu o trabalho do autor brasileiro.

Curiosamente o álbum fecha com uma história curta que mostra a única piada escatológica dos cinquenta anos da série. Penso que Asterix poderia ter ficado sem isso, mas se for verdade que Christophe Arleston será realmente o sucessor de Uderzo nos argumentos, isso é algo com que os leitores terão de se acostumar…

No final, Uderzo até agradece a seus assistentes Régis Grébent e os irmãos Frédéric e Thierry Mébarki (os mesmos que nomeou como sucessores em uma entrevista recente para o Journal du Dimanche), algo bastante raro entre autores de quadrinhos. Uma iniciativa louvável!

Enfim, como eu disse o resultado é inferior à soma das partes. Eu considero que o álbum vale a compra, é certamente superior ao muito criticado volume anterior e possui várias gemas escondidas entre suas páginas, mas é um álbum de altos e baixo, prejudicado pela tentativa de Uderzo de “amarrar” tudo à força. O que, de certa forma, faz dele o final apropriado para o período “solo” de Uderzo na série.

Estamos de volta! quinta-feira, set 3 2009 

Estou vivo! VIVOOOOOO!!!!

Estou vivo! VIVOOOOOO!!!!

Quem é vivo sempre aparece!

Ainda não pude criar um novo blog, mas uma série de eventos abalou o mercado de quadrinhos mundial nos últimos dias e seria inconcebível que eu não os comentasse por aqui, portanto estou tirando a poeira do velho blog para tentar ajudar a mostrar as consequências desses eventos para o público.

Os eventos em questão foram:

A anunciada aquisição da Marvel Comics pela Walt Disney Company

A entrada das editoras japonesas Shueisha e Shogakukan no mercado europeu através da Viz Europe

A criação da Kodansha Comics nos EUA, colocando a terceira grande editora japonesa no mercado de quadrinhos americano

Todos são eventos significativos que provocarão enormes mudanças no mercado de quadrinhos mundial nos meses e anos que virão. Nos próximos dias eu dedicarei um artigo a cada uma delas explicando o mais detalhadamente possível como cada um desses eventos afetará o mercado de quadrinhos e quais as consequências para o mercado brasileiro.

É bom estar de volta, espero que meus leitores (sobrou algum?) pensem o mesmo.

O futuro deste blog (ou O blog não morreu, apenas hiberna) quinta-feira, mar 27 2008 

Muita gente tem me perguntado se eu não pretendo continuar este blog, acho que os devo um esclarecimento.

Eu comecei este blog porque queria (e quero) divulgar quadrinhos de origem européia para o público brasileiro, que infelizmente ainda tem um conhecimento muito restrito da enorme gama de material disponível no Velho Continente. Além disso, queria um lugar para colocar meus escritos sobre quadrinhos, que geralmente ficam esquecidos em fórums ou listas de mensagens, onde eu pudesse ter algum controle sobre meus textos e garantia de que eles não seriam apagados, de que eu pudesse efetuar correções e atualizações, etc.

Tudo muito belo, a questão é que desde então eu comecei a fazer alguns trabalhos escritos PAGOS, traduções e a desenvolver o meu livro sobre o Tintim (que ainda está beeeeeem no início, caso estejam se perguntando), atividades que reduziram meu tempo livre, já bastante escasso devido a meu emprego regular (que, infelizmente, não tem nada a ver com HQs), quase a zero. Nessa situação, eu poderia deixar de lado minha leitura de quadrinhos ou o trabalho não remunerado, ou seja, este blog. A escolha é óbvia.

Mas esse não é o fim! Eu ainda POSSO transformar minha atividade no blog em algo remunerado (ainda que pouco) utilizando anúncios! Ou poderia SE o WordPress me deixasse, o que não é o caso. Para colocar anúncios eu tenho de hospedar meu blog em outro provedor, o que não posso fazer no momento.

No momento? Sim, porque eu devo mudar de residência em pouco tempo (um mês ou coisa assim) e, no processo, mudar para um outro provedor de Internet, que VAI me fornecer um espaço onde posso colocar um blog com quantos anúncios eu bem entender! eu vou poder transformar isso em uma atividade (moderadamente) remunerada e justificar o tempo que eu gasto escrevendo estes artigos.

Claro que isso não é para agora. Mudar de casa não é uma coisa facil e eu ainda terei de conciliar isso com minhas outras atividades (relacionadas acima), o que deve adiar o lançamento da versão 2.0 do blog. Mas ela virá, acreditem em mim!

Afinal, vocês não vão se livrar de mim assim tão facilmente…

Mike Wieringo 1963-2007 segunda-feira, ago 13 2007 

Ontem, dia 12 de agosto, faleceu subitamente o desenhista Mike Wieringo, vítima de um ataque cardíaco fulminante. Ele tinha apenas 44 anos de idade.

Mike Wieringo fazendo o que gostava mais, desenhar!

Nascido em Veneza, Itália, mas um cidadão norte-americano, Wieringo, como a maior parte dos artistas de quadrinhos de seu país, ganhou fama trabalhando em quadrinhos de super-herói, começando com a série do Flash - onde foi o criador visual do personagem Impulso, que ironicamente foi “morto” nas páginas de sua revista poucas semanas atrás – e seguindo depois para personagens como o Super-Homem, o Homem-Aranha (no qual trabalhou em parceria com seu melhor amigo, o escritor Todd DeZago) e o Quarteto Fantástico. Aliás seu último trabalho é exatamente uma mini-série com um encontro entre o Quarteto e o Aranha, escrita pelo jovem e talentoso escritor Jeff Parker.

Capa da encadernação do último trabalho de Wieringo, cujo lançamento está previsto para outubro nos EUA

Capa da encadernação do último trabalho de Wieringo, cujo lançamento está previsto para outubro nos EUA

Dono de um estilo energético e caricatural, Wieringo trabalhava em uma indústria de quadrinhos completamente inadequada para seus talentos. Seu estilo não fora talhado para retratar os rompantes de violência e a atitude exageradamente séria dos quadrinhos de super-herói modernos. Embora os outros artistas e os leitores mais iluminados admirassem seu óbvio talento, boa parte dos fãs criticava sua “falta de realismo” e “excessos caricaturais” (obviamente, personagens que voam por aí usando a cueca por cima da calça precisam ser mostrados da forma mais realista possível…). Esse paradoxo fez com que os períodos de Wieringo em títulos de ponta de super-heróis fossem relativamente curtos e espaçados.

Espetacular GIF animada mostrando os vários uniformes do Homem-Aranha desenhados por Mike Wieringo!

Em um dos intervalos, ele e seu amigo DeZago decidiram escapar do círculo vicioso dos super-heróis e criar uma série de fantasia para a Image Comics, Tellos. E é sobre este trabalho, ainda inédito em português, que eu falarei.

Uma das capas de Wieringo para a série original de Tellos

Uma das capas de Wieringo para a série original de Tellos

Tellos era, na aparência, uma série de fantasia perfeitamente convencional. Passada no mundo ficcional de Tellos (um mundo de fantasia clássico, com criaturas estranhas, navios voadores e tecnologia medieval), mostrava as aventuras de um garoto e seus amigos, um híbrido de tigre e humano e uma capitã pirata, que encontram um amuleto contendo um poderoso gênio. Porém esse amuleto é cobiçado por vilões inescrupulosos, que vão atrás dos heróis para se apoderar do referido amuleto.

Quadrinho da edição francesa de Tellos. Ironicamente, essa HQ fez muito mais sucesso na França do que em seu país de origem!

Quadrinho da edição francesa de Tellos. Ironicamente, essa HQ fez muito mais sucesso na França do que em seu país de origem!

Dito assim, parece a mais estereotipada série de fantasia possível (não que existam muitas dessas – ou mesmo UMA que seja! – no mercado de quadrinhos americano…), mas uma reviravolta inesperada próximo do final da série original recoloca toda a história em uma perspectiva diferente. Não entrarei em detalhes, claro, mas a série revela-se bem mais interessante do que parece a princípio! Toda a série original desenhada por Wieringo foi recentemente compilada nos EUA em um grande volume em capa dura, que porém ainda não fora posto à venda antes da morte do artista. Fica meu conselho para aqueles que não conhecem esse trabalho o adquirirem quando estiver disponível.

Capa da encadernação gigante de Tellos

Infelizmente, a revista não teve muita sorte. Durante sua publicação, DeZago e Wieringo resolveram se juntar a um grupo de autores capitaneado por Kurt Busiek e Mark Waid, que tinham decidido criar seu próprio selo de quadrinhos (um pouco nos moldes da Image original e dos extintos selos Legend da Dark Horse e Bravura da Malibu Comics) , o Gorilla Comics, lançado com grande fanfarra em 2000. Porém, os autores esperavam um financiamento externo que nunca veio e seu pesado investimento inicial em publicidade teve de ser pago pelos próprios autores. Tellos, até entao uma HQ lucrativa, entrou no vermelho e os dois criadores precisaram fechar a série inicial e correr atrás de trabalhos na Marvel e DC para pagar o prejuízo! Eventualmente ela retornou, novamente pela Image, mas o envolvimento de Wieringo foi reduzido a ocasionais capas e histórias curtas. A série, porém, era uma favorita do artista, que nunca escondeu sua vontade de voltar a trabalhar nela. Foi exatamente um desenho de Tellos o último trabalho que ele colocou em seu blog, dois dias antes de sua morte.

O último desenho do blog de Wieringo, retratando o protagonista de Tellos.

Apesar de fulgurante, a carreira de Wieringo foi demasiado curta. Seu primeiro trabalho profissional data de 1991, fazendo dele um dos raros desenhistas de quadrinhos a iniciar sua carreira depois dos 25 anos. Apesar disso, existe um excelente livro em inglês a respeito do artista, que detalha toda sua carreira em uma longa entrevista, ricamente ilustrada com muitos dos seus melhores desenhos. É o 9º volume da série Modern Masters, da sensacional editora norte-americana TwoMorrows Publishing, minha recomendação pessoal para os apreciadores deste artista de carreira tão brilhante quanto fugaz.

Capa da edição dedicada a Mike Wieringo

Descanse em paz, Mike Wieringo.

Tintim no País do Racismo? terça-feira, jul 17 2007 

É, as atualizações deste blog continuam raras. Mea culpa! Porém uma notícia recente arrancou-me do meu imobilismo. O velho álbum Tintim no Congo* (Tintim na África na antiga edição brasileira da Record) foi alvo de uma virulenta crítica pela CRE (Comission for Racial Equality – Comissão pela Igualdade Racial do Reino Unido), instituição pública inglesa que combate a discriminação racial. O comunicado diz que a HQ contém “imagens e textos de horrendo preconceito racial” e que ela não deveria ser vendida e sim “ser exposta em um museu, com um grande cartaz dizendo ‘velho lixo racista'”. A CRE afirma que o comunicado foi emitido a pedido de um homem que vira o álbum à venda em uma livraria e teria ficado profundamente ofendido com ele.

Eu adquiri posteriormente essa edição britânica e ela vem com uma página de aviso sobre o conteúdo e é envolta por uma faixa vermelha com os mesmos avisos. Não é falta de aviso!

Capa do álbum que gerou toda a polêmica

O comunicado gerou dois resultados: A cadeia de livrarias onde estava sendo vendido o álbum em questão, Borders, o transferiu da seção infantil onde estava para a de material adulto e as vendas do álbum dispararam por todo o Reino Unido, subindo cerca de 3.800%!

Os Studios Hergé, donos dos direitos do personagem, responderam usando a argumentação tradicional, de que o álbum é um produto de seu tempo, que Hergé admitia ser fruto de sua mentalidade da época, mas o mantinha quase inalterado para servir como “testemunho de sua época”. Pierre Assouline, biógrafo de Hergé, também defendeu o álbum em seu blog no jornal Le Monde, com uma argumentação similar.

A polêmica envolvendo a HQ é bastante antiga. Ela foi a segunda aventura de Tintim, publicada entre 5 de junho de 1930 e 11 de junho de 1931 no semanário belga Le Petit Vingtième, de ideologia católica fortemente conservadora. Curiosamente, o autor Hergé não queria mandar seu personagem para uma aventura africana e sim para os EUA (o que faria na aventura seguinte), mas foi obrigado a isso pelo diretor do semanário, o abade Wallez, que desejava convencer os jovens leitores da validade da colonização belga do país africano.

Nunca tendo saído da Bélgica, Hergé procurou documentação para retratar o Congo. Porém, tal como no álbum anterior e no seguinte, suas fontes não foram particularmente boas, pois o resultado foi uma visão demasiado estereotipada da África. Hergé mais tarde admitiria que sua visão dos africanos fora influenciada pela crença corrente na época de que os negros eram como crianças ingênuas, que precisavam da “sabedoria” dos brancos. Esse paternalismo está por todo o álbum que, ao considerar os africanos como ingênuos, revela-se ele próprio fruto de uma visão bastante ingênua, que era a de Hergé na época.

Vale dizer que o álbum pode ser paternalista, mas não é realmente racista. Em nenhum momento o álbum (ou o personagem) demonstra ódio contra os nativos! Ele os mostra em geral como figuras simpáticas, ainda que algo dependentes de Tintim. O que, na verdade, não é muito diferente dos personagens dos outros álbuns da série, uma vez que Tintim, herói perfeito por natureza, tendia sempre a ajudar aqueles que encontrava pela frente. Se isso é uma visão racista, então Tintim é racista com todo o mundo que encontra!

A forma com que os negros são retratados, com as feições exageradas das caricaturas da época e falando um francês capenga, também é similar à forma como eles eram retratados nos quadrinhos daquele tempo. Por exemplo, nas primeiras tiras de jornal do Mickey, escritas pelo próprio Walt Disney, o famoso camundongo vai parar em uma ilha distante habitada por canibais que eram retratados da mesmíssima maneira. A única diferença é que Hergé nunca teve o mau gosto de retratar negros como canibais…

Por que Walt Disney não é chamado de racista?

Também vale notar que Hergé desenhava todos os seus personagens, independentemente da origem, de forma caricatural.

Na sua versão original em preto e branco, a HQ era sim fortemente colonialista. Mas em 1946, quando Hergé redesenhou a aventura para a nova versão a cores (que é a mais conhecida hoje em dia), ele retirou boa parte das referências coloniais. Porém não “pasteurizou” o álbum, mantendo o paternalismo e a violência contra os animais presentes na versão original.

Na versão original, Tintim mostra a seus alunos nativos sua “pátria”, a Bélgica. Na versão colorida, a cena foi “suavizada” para uma simples lição de aritmética.

Por sinal, essa violência contra animais presente por todo o álbum é muito mais chocante que o paternalismo de Tintim. Ou pelo menos o foi para mim quando li a HQ pela primeira vez na infância. Tintim mata indiscriminadamente macacos, elefantes e, em uma cena inspirada em um livro de André Maurois, toda uma manada de antílopes! A associações de defesa dos animais têm muito mais do que se queixar deste álbum do que as de combate ao racismo!

Tintim pratica tiro ao alvo com um crocodilo em uma das cenas menos violentas do álbum

Ele chega ao requinte de explodir um rinoceronte com dinamite! Sério! Isso foi demais para a editora Egmont, que publica o personagem na Escandinávia e no Reino Unido e pediu para Hergé fazer uma versão menos violenta do encontro com o animal, que está presente nas edições desses países (todas as de língua portuguesa até hoje mantiveram a cena original).

Tomado por um inexplicável furor terrorista, Tintim explode um pobre rinoceronte inocente, que nunca soube o que lhe atingiu!

Toda a polêmica que gira em torno do álbum há anos fez com que sua publicação em francês fosse interrompida em finais dos anos 50. Durante mais de 10 anos o álbum juntou-se ao então lendário Tintim no País dos Sovietes no limbo dos quadrinhos. Ironicamente, ele voltou a ser publicado por iniciativa de uma revista… Do próprio Congo** (já independente, na altura chamado Zaire)! Esta fez diversos elogios à obra em suas páginas no início dos anos 70, estimulando a republicação do álbum por todo o mundo.

Artesanato congolês inspirado em Tintim

Artesanato congolês inspirado em Tintim

Todo? Não! Uma pequena aldeia inglesa continuou resistindo! Os ingleses ainda rejeitaram uma edição britânica do álbum por muitos anos, até finalmente cederem em 1991 (!), curiosamente publicando um fac-símile da edição original em P&B do álbum, ainda com todo seu ranço colonialista intacto.

Capa da primeira edição inglesa, em P&B

Somente em 2005 a editora inglesa Egmont cedeu ao apelo dos fãs e aceitou publicar a edição colorida, que recebeu uma cautelosa introdução de autoria dos tradutores explicando o contexto do álbum para evitar polêmicas racistas. Infelizmente não parece ter resultado. Ainda assim, a primeira tiragem de 30 mil exemplares foi vendida rapidamente, mais uma vez confirmando o duradouro sucesso do personagem com o público!

Ironicamente, o ataque do CRE parece ter apenas aumentado ainda mais o interesse deste pelo álbum. Nos poucos dias passados desde a emissão do comunicado, a instituição recebeu críticas por todos os lados, enquanto o álbum foi defendido como um clássico da literatura que exprime o pensamento de sua época, por mais equivocado que fosse. O que é um tipo de valorização que Tintim nunca tivera antes em um país de língua inglesa! Os detratores da série podem ter conseguido então o que os esforços de décadas de Hergé e seus sucessores nunca conseguiram: Popularizar Tintim nos países anglo-saxônicos!

Uma crítica muito mais eficiente à história foi feita recentemente por Joann Sfar. No quinto álbum de sua famosa série O Gato do Rabino (editada no Brasil pela Jorge Zahar, atualmente no segundo volume), Jerusalém da África, Sfar inclui uma aparição relâmpago do jornalista belga, mostrado como um chatíssimo branco com mania de dar lições de moral para todas as pessoas que vê pela frente e atirar em todos os animais que se mexem. A hilária sequência é muito mais devastadora para essa aventura de Tintim do que a censura de uma instituição pública que acaba se revelando muito mais paternalista que a obra que pretende criticar.

* Convém mencionar que a Companhia das Letras, atual editora da série no Brasil, já anunciou que sua nova edição do álbum utilizará realmente o título Tintim no Congo, tradução literal do título original, ao invés da mais tradicional tradução brasileira Tintim na África, utilizada na antiga edição da Record. A história também já foi conhecida pelo título Tim-Tim em Angola quando de sua primeira publicação em língua portuguesa, na revista lusa O Papagaio, nos anos 30, que mostrava “Tim-Tim” como um repórter lusitano, apropriadamente visitando a então colônia portuguesa de Angola.

** Para desespero dos intelectuais europeus, este álbum em particular é de longe o mais popular e apreciado do personagem na própria África. Os africanos demonstrando possuir muito mais senso de humor que seus “defensores”…

Palestra com David B. quinta-feira, jun 7 2007 

Novamente a falta de tempo me fez negligenciar o blog por um período demasiado longo. Tentarei compensar nos próximos dias.

Todo esse tempo de ausência fez com que eu não comentasse uma palestra do artista David B. (pseudônimo de Pierre-François Beauchard) que eu assisti mês passado no Instituto Franco-Português de Lisboa. O autor fora convidado para o Festival Internacional de BD de Beja e o Instituto, sabiamente, aproveitou sua curta passagem por Lisboa para convidá-lo a dar lá uma palestra.

Foto do autor. Infelizmente eu não tirei fotos da palestra.

Foto do autor. Infelizmente eu não tirei fotos da palestra.

David B. foi, junto com outros seis autores, um dos fundadores da célebre editora francesa L’Association em 1990. A editora revolucionou o mercado francês, introduzindo uma série de formatos e temáticas antes impensáveis na então altamente conservadora indústria de quadrinhos franco-belga.

Dono de um estilo enganadoramente simples, mas capaz de desenhar páginas de composição arrojada e possuidor de um excelente domínio das técnicas do chiaroscuro, o autor virou uma lenda entre os autores de quadrinhos “alternativos” ao criar a série L’Ascension du Haut Mal (que está para ser publicada no Brasil com o título de “Epiléptico”, pela editora Conrad), publicada pela L’Association entre 1996 e 2003, que aborda a relação entre o autor e seu irmão, vítima de epilepsia, de uma forma inovadora, quase onírica. A série foi bastante premiada e traduzida em diversas línguas.

Exemplo das belas composições de página de David B.
De lá para cá, David B. participou de muitos outros projetos, sozinho ou em parceria com outros autores, como Christophe Blain(de Isaac o Pirata) e Joann Sfar(O Gato do Rabino). Em 2005 deixou a editora que ajudara a fundar e passou a publicar primordialmente pela nova encarnação da editora Futuropolis, onde ainda se encontra.

Apesar de ter ficado famoso por seus trabalhos autobiográficos, David B. já fez uma infinidade de quadrinhos sobre outros temas, em particular falando de seus sonhos surreais, uma grande influência em toda sua obra.

Na palestra, falada em francês, David B. falou sobre todos esses assuntos e diversos outros. Explicou as razões que o levaram a deixar a L’Association (essencialmente ele rompeu com o cacique da editora, Jean-Christophe Menu), falou sobre sua vida e seus projetos. Não vou escrever aqui tudo o que ele falou, mas devo dizer que foi uma palestra assaz interessante.

Vale também adicionar que, caso único entre todas as vezes em que eu assisti palestras de autores de quadrinhos estrangeiros, fosse em festivais ou em eventos pontuais como este, a livraria do Instituto teve o cuidado de trazer e colocar à venda todos os trabalhos do autor disponíveis na França! Uma medida aparentemente óbvia, mas que eu nunca vira antes posta em prática! Certamente valeu a pena, já que quase todos os que assistiram a palestra (pouco mais de uma dúzia de pessoas) saíram de lá com um ou mais álbuns recém-comprados nas mãos (eu inclusive). Ouso dizer que esse tipo de boa visão comercial é uma das razões da prosperidade do mercado francês…

Entre o material que adquiri estão as duas mais recentes obras do autor, publicadas pela Futuropolis, que eu comentarei a seguir:

Capa de Le jardin armé et autres histoires

Capa de Le jardin armé et autres histoires

Le jardin armé et autres histoires é uma coleção de três histórias (duas delas serializadas na antiga revista Lapin da L’Association), que abordam temas ligados à religião e os conflitos criados pelo fanatismo, mas dentro de uma ambientação fantástica e sobrenatural.

Na primeira história, Le prophète voilé (“O profeta velado”), um homem tem o rosto coberto por uma misteriosa faixa de tecido e transforma-se no profeta velado, um poderoso conquistador e líder religioso que eventualmente desperta a atenção do famoso califa Harun al-Rashid, que por sua vez precisa descobrir uma forma de destruir este oponente sobrenatural. A segunda história, Le jardin armé (“O jardim armado”), mostra um ferreiro da Praga medieval que crê ter visões que o levarão até o Jardim do Éden, rapidamente ele atrai um exército de fanáticos a seu redor e começa a espalhar o caos e a violência pela região. Por fim, na última história, Le tambor amoureux (“O tambor apaixonado”), o líder hussita Jan Zizka, que aparecera na história anterior, morre e seus seguidores criam com sua pele um tambor, cujo toque permite a seu exército vencer todas as batalhas, mas o tambor cai nas mãos de uma jovem, por quem o espírito de Zizka se apaixona.

Página de Le prophète voilé
As três histórias são excepcionalmente criativas e cativantes, ajudadas pela bela arte de David B., que retrata com perfeição a magia de seus personagens. Mais que uma história em quadrinhos, este álbum é uma entrada para um mundo onde violência, magia e religião andam de braços dados. E uma das melhores HQs que eu li nos últimos meses.

Capa do primeiro volume de Par les chemins noirs
Par les chemins noirs (“Por caminhos obscuros”) é o título da mais recente série de David B., cujo primeiro álbum, entitulado Les Prologues (“Os prólogos”) foi recentemente editado na França. Como o título diz, é uma série de “prólogos” da saga que o autor pretende contar, ambientada na então cidade iugoslava de Fiume (hoje Rijeka, na Croácia) em 1920, quando a cidade, de maioria italiana, foi ocupada militarmente pelo escritor e aventureiro italiano Gabriele d’Annunzio, que tentou criar lá um “estado livre”. O álbum mostra a vida de uma série de personagens exóticos (entre eles o próprio poeta), cujos caminhos se cruzam em meio ao caos criado pela ocupação do “brancaleonesco” exército de D’Annunzio.

Página de Par les chemins noirs
Necessariamente menos exótico e surreal que as outras obras mencionadas acima, o álbum chama a atenção pela eficiente caracterização dos personagens e o bom humor com que retrata a inusitada situação em que se encontram. Apesar das limitações em trabalhar com uma temática mais realista, a arte de David B. continua bastante eficiente, exibindo ocasionalmente (mas sempre em contexto!) as composições surrealistas que fizeram a fama do autor. Um início promissor para uma série ambiciosa como esta.

Para aqueles que ainda não conhecem o autor e não têm o privilégio de saber francês ou poder assistir uma palestra com ele, eu recomendo adquirirem a edição brasileira de “Epiléptico”, que está prestes a ser lançada pela Conrad.

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