Este domingo, dia 4 de Dezembro de 2016, foi um dia triste na França. Ele foi marcado pelo desaparecimento daquele que foi um dos maiores autores de quadrinhos de humor de todos os tempos, Marcel Gotlib.

Eu via as animações com a joaninha no Cartoon Network!

Marcel Gotlib e sua personagem mais famosa, a Joaninha.

A história de vida de Marcel Mordekhaï Gotlieb (seu nome verdadeiro) não sugere que ele um dia se tornaria um grande humorista. Nascido em Paris no dia 14 de Julho (data nacional francesa) de 1934, Gotlib era filho de imigrantes judeus húngaros, o que lhe valeu uma série de infortúnios durante a Segunda Guerra Mundial. Seu pai, que o jovem Gotlib idolatrava, foi preso e deportado em 1942, morrendo no campo do concentração de Buchenwald em 1945. Por ser uma criança judia, Gotlib foi obrigado a usar uma estrela amarela nas roupas e escapou por muito pouco de ter o mesmo destino do seu pai. Sua mãe enviou ele e sua irmã mais nova para uma família de acolhimento no interior da França, que os abrigou durante a maior parte da ocupação nazista. Todo esse sofrimento foi demasiado para a pobre senhora, que ficou com graves sequelas psicológicas. Ao reencontrar a mãe após a guerra, o pequeno Marcel ficou aturdido quando esta não o reconheceu!

O casal teria um destino trágico.

O pequeno Gotlib e seus pais em uma foto de antes da guerra.

Enviado para o orfanato do Château des Groux em Verneuil-sur-Seine, Gotlib passou lá anos muito felizes. Com o fechamento do orfanato, voltou a Paris para continuar os estudos. Lá conheceu Jacques Diament, que se tornaria seu melhor amigo e futuro sócio.

Ele foi o desenhista da série Blanche Épiphanie, lembram?

Georges Pichard, o professor de Gotlib.

Sua paixão pelos desenhos vem da infância, ainda antes da guerra, das tiras de jornal e desenhos animados de Walt Disney. Ele foi aluno do desenhista Georges Pichard na Escola Superior de Artes Duperré de Paris. Em 1954, começa sua carreira nas HQs como letrista da Opéra Mundi/Edi-Mundi de Paul Winkler, que fazia a distribuição das tiras americanas na França. Lá conheceria a colorista Claudie Liégeois, sua futura esposa, com quem permaneceria o resto da vida. Em 1958, deixa a Opéra Mundi e torna-se ilustrador freelance.

Não é uma obra particularmente interessante...

Exemplo da série Nanar et Jujube (que virou Nanar, Jujube et Piette com a adição da menina Piette), primeiro trabalho de Gotlib.

Ele retorna aos quadrinhos em 1962, na revista em quadrinhos Vaillant, ligada ao Partido Comunista Francês. Lá publicou sua primeira série de quadrinhos, Nanar et Jujube, sobre um menino e uma raposa, que poucos anos depois é monopolizada por um personagem secundário, o cão Gai-Luron, claramente inspirado pelo Droopy de Tex Avery, seu primeiro personagem de sucesso.

A influência de Droopy não é tão visível aqui.

Gai Luron, personagem secundário que roubou a cena.

Sua vida mudaria após ingressar na revista Pilote em 1965. Lá ele conhece aquele que se tornaria a sua segunda figura paterna, o redator-chefe René Goscinny. Os dois compartilhavam as origens judaicas e a admiração pela revista Mad de Harvey Kurtzman (cujas histórias Gotlib eventualmente traduziria e publicaria em francês). Embora fosse apenas oito anos mais velho, Goscinny torna-se um modelo e mentor para Gotlib. A dupla começa a produzir para a Pilote uma série de HQs no mesmo espírito, Les Dingodossiers, que obtém um grande sucesso.

A figura no fundo é ninguém menos do que Jean-Michel Charlier, o criador de Blueberry!

Amostra de Les Dingodossiers, com um pouco do processo de criação da série.

Cheio de trabalho, Goscinny deixa Gotlib trabalhar solo na série Rubrique-à-brac, onde este alcança a maturidade do seu humor anárquico e surreal. Animais, filmes, personagens de quadrinhos, a sociedade, até a própria revista Pilote – todos viram alvos da afiada sátira de Gotlib, que é abrilhantada por sua arte cheia de energia e movimento. Embora normalmente sem personagens fixos, a HQ conta com figuras recorrentes como Isaac Newton (que inevitavelmente leva com uma maçã na cabeça) e uma joaninha que aparece no fundo dos quadrinhos (para disfarçar a falta de cenários, que Gotlib nunca gostou de desenhar) e acabou tornando-se a marca registrada do artista. Anos mais tarde a joaninha, que nunca chegou a ter um nome, protagonizou uma série de curtas de animação parodiando obras de arte clássicas. Algumas das histórias de Rubrique-à-brac foram publicadas no Brasil pela revista Piauí.

Infelizmente o público parece não ter gostado.

Amostra de Rubrique-à-brac na versão em português da revistas Piauí, com aparições de Isaac Newton e da joaninha.

Nessa altura, final dos anos 60, a Pilote é a revista em quadrinhos mais vendida da França (e, provavelmente, do ocidente), mas os seus autores, particularmente os mais jovens, começam a se incomodar com o que vêem como o “autoritarismo” de Goscinny. Durante os eventos de Maio de 1968, alguns deles (não Gotlib!) sublevam-se contra Goscinny e o obrigam a fazer mudanças na revista. O clima dentro da Pilote torna-se tenso daí em diante e estimula vários autores a criar suas próprias publicações. Gotlib é um deles. Em conjunto com seus colegas Claire Bretécher e Nikita Mandryka, ele cria em 1972 a revista L’Écho des Savanes, uma das primeiras publicações de humor adulto da França.

Nunca vi uma foto ou mesmo desenho da Claire Bretécher em que ela estivesse sorrindo...

Os três fundadores da L’Écho des Savanes, na arte de Gotlib.

Na L’Écho, Gotlib pôde finalmente fazer humor com elementos de nudez e sexo. Esse tipo de conquista parece pueril nos dias de hoje, mas nos anos 70 era realmente uma revolução! A revista, de início pouco mais do que um fanzine, logo logrou um enorme sucesso, mas…  também um enorme prejuízo! Os três autores tinham um enorme talento, mas pouca ou nenhuma capacidade de gestão financeira. Isso manteve Gotlib trabalhando na Pilote até 1974, quando Goscinny perdeu o posto de redator-chefe. Por essa altura o relacionamento dos dois tinha azedado porque o autor mais velho não aprovava o tipo de humor da L’Écho. A correspondência de Gotlib prova que ele ainda tinha muito carinho pelo seu antigo mentor, mas os dois não foram capazes de se reconciliar completamente antes do trágico desaparecimento de Goscinny em 1977.

A narrativa do cara é espetacular, fala sério!

Exemplo (relativamente leve) do humor sacana de Gotlib do tempo da L’Écho des Savanes.

Nesse período final na Pilote, Gotlib faz amizade com o jovem desenhista Alexis, que tinha um estilo mais realista e, ao contrário de Gotlib, não se incomodava em desenhar cenários elaborados nas suas HQs. Gotlib aproveita isso para criar a série de paródias cinematográficas Cinémastock em 1970. Mais tarde, em 1972, ele cria, em parceria com o argumentista Jacques Lob, Superdupont, super-herói satírico que encarna o provincianismo e chauvinismo do francês médio. O personagem, depois desenhado por Alexis, alcança um enorme sucesso e segue Gotlib para a L’Écho e mais tarde para a sua revista posterior, a Fluide Glacial.

Esse personagem já foi desenhado por Neal Adams! Sério!

Capa icônica do Superdupont, arte de Gotlib.

A Fluide Glacial surge quando Gotlib decide encerrar sua colaboração com a L’Écho des Savanes (a revista, no entanto, consegue sobreviver aos trancos e barrancos até os dias de hoje). Ele está convencido de que pode criar uma revista de humor viável, mas precisa de um sócio que cuide da parte administrativa. Consegue convencer seu velho amigo Jacques Diament a assumir a tarefa e a dupla funda com Alexis a editora AUDIE, que publica a revista e os álbuns dela derivados. A primeira edição é posta à venda na sugestiva data de 1º de Abril de 1975 e é um enorme sucesso. A revista inicia então uma trajetória de sucesso que dura até hoje.

Esse faquir reapareceria mais tarde, bastante envelhecido, em capas da revista.

Capa do histórico primeiro número da Fluide Glacial.

Embora tivesse uma enorme produtividade nos primeiros anos, inclusive criando um último personagem, o velho tarado Pervers Pépère, Gotlib reduz paulatinamente a sua contribuição artística. Conforme outros autores começam a colaborar com a revista, sua produção de argumentos também se reduz, particularmente após o falecimento prematuro de Alexis, em 1977.  Ao final da década, as contribuições de Gotlib limitam-se aos editoriais e algumas capas ocasionais, que continuariam mesmo após a venda da editora para o grupo Flammarion em 1995. Atualmente a revista pertence à editora Bamboo.

Apesar da pinta, ele é mais brincalhão do que tarado.

Pervers Pépère, a última grande criação de Gotlib.

Embora tenha encerrado sua produção de HQs há muito tempo, Gotlib não ficou inativo. Além de centenas de editoriais para a Fluide, ele também participou de fotonovelas humorísticas na revista, fez capas e ilustrações para as edições em álbuns dos seus muitos trabalhos anteriores e escreveu uma autobiografia em que conta sua infância durante a ocupação nazista. Também fez pontas em diversos filmes e programas de TV.

Acho que foi só usado na França.

Exemplo de trabalho pós-quadrinhos de Gotlib, poster do filme A Vida de Brian.

Gotlib recebeu em vida homenagens à altura do seu talento e importância para os quadrinhos de humor. Ele foi nomeado Oficial das Artes e das Letras em 1990, Cavaleiro da Legião de Honra, a mais alta honraria francesa, em 2000, recebeu o Grande Prêmio St. Michel, o maior dos quadrinhos belgas, em 2007 e o Grande Prêmio de Angoulême, suprema honraria para um autor de quadrinhos, em 1991. Em 2014, no seu 80º aniversário, o Museu de Arte e História do Judaísmo de Paris lhe honrou com uma grande exposição, a qual eu visitei, e um belo catálogo informativo, que serviu de fonte para boa parte deste texto.

Bem diferente das versões mais idealizadas dele próprio que desenhava quando mais novo...

Autoretrato de Gotlib e suas obras.

Gotlib tinha 82 anos e deixa uma viúva, uma filha e dois netos. Ele parte, mas o seu humor ficará para sempre nos corações dos seus milhões de leitores.

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