Soube com algum atraso da nobre iniciativa do Tezuka Day. Ora, como fã incondicional de Osamu Tezuka, eu nunca poderia deixar essa data passar em branco! E decidi reavivar o meu blog só para homenagear aquele que foi o maior autor de mangá (e quiçá de quadrinhos como um todo) de todos os tempos!

Mas sobre o que escrever? Como muitas das principais obras dele já estavam sendo comentadas por outros, era preciso que fosse um material bastante obscuro. Então eu fui atrás daquela que deve ser a obra mais obscura do autor: Tonkaradani Monogatari!

Castiga o pandeiro aí! Ziriguidum, telecoteco, balacobaco!

Capa da edição francesa de Tonkaradani, que referencia a adaptação de Mignon

Tonka o quê?

Tonkara é uma referência a um pássaro da família Paridae, conhecido como Chapim em português, dani significa vale e monogatari, história. Portanto é “História (ou Conto) do Vale do Chapim”. No site da Tezuka Productions em inglês, a obra é chamada de “Tonkara Valley Story”, mas não tem página própria desde a mal pensada reformulação do site há uns anos. Uma pena.

Agora, por que seria esse o mangá mais obscuro do autor? O motivo é simples. Quando foi publicada a Osamu Tezuka Complete Manga Works da editora Kodansha, as obras nela contidas não foram publicadas em ordem cronológica! Como era hábito do autor (e é por isso que não existe nenhuma edição dos mangás de Astro Boy ou Black Jack em que as histórias estejam ordenadas cronologicamente), as histórias foram publicadas em ordem de popularidade (ou, mais precisamente, de demanda do público), para garantir o sucesso da coleção. Então os primeiros volumes foram dedicados a Kimba e A Princesa e o Cavaleiro, séries famosas que, naquele momento, estavam fora de linha há algum tempo.

Os últimos 100 volumes da coleção foram publicados após a morte do autor e são, em sua maioria obras do final de sua carreira ou, no caso dos últimos 18 volumes, livros de ensaios (não mangás). No entanto, o ultimo volume de mangá, número 382, não é uma obra de final de carreira, é Tonkaradani, que foi publicada em 1955! O mangá era tão obscuro que foi o último a ser publicado na coleção, muito embora fosse um mangá  já bastante antigo!

Volume 382 da coleção Osamu Tezuka Complete Manga Works, quase ficou de fora!

Capa da edição de Tonkaradani Monogatari na coleção Osamu Tezuka Complete Manga Works

E como foi que eu arrumei esse material? Ora, isso tem a ver com uma das minhas máximas: “Todo quadrinho do mundo é eventualmente traduzido em francês e publicado na França!” Tonkaradani foi publicado em 2007 na França pelas Éditions Milan em uma edição de boa qualidade.

Mas do que se trata? Bem, a minha edição francesa, que suponho seja igual à japonesa da Kodansha (exceto pela capa), contém a história Tonkaradani Monogatari propriamente dita, publicada originalmente entre Janeiro de 1955 e Março de 1956 nas páginas da revista mensal Nakayoshi, uma das pioneiras do mangá shojo (para meninas), criada em Dezembro de 1954. Como mostram as datas, Tonkaradani foi uma de suas primeiras séries.

A história em si mostra as peripécias do esquilo Jiro. Jiro era apenas um filhote quando seu pai (que era o “rei” dos esquilos do vale Tonkara) e o resto da sua família foram expulsos da floresta pelo usurpador Trapézio (que é desenhado por Tezuka como um esquilo com o físico de Arnold Schwarzenegger!). Em uma sequência digna do melhor da teledramaturgia mexicana, ele é lançado a um rio quando seu pai sacrifica a vida para salvá-lo de uma raposa faminta, resgatado por uma menina, Sanae, que é imediatamente cegada por um gavião faminto que estava tentando devorá-lo (!), levado para a casa da menina em Tóquio, que é logo a seguir arrasada por um terremoto, com a morte dos pais dela (Jiro consegue salvar a si mesmo e a Sanae por ter logo antes vencido um rato em combate e devorado a cauda dele, que lhe deu os “superpoderes” de um rato, inclusive a habilidade de prever terremotos. Sério!). Não contente com isso, a menina perde o trem que ia levá-la com sua família adotiva para sua nova casa no vale Tonkara, quase é raptada por dois maus elementos (nossos amigo Ham Egg e “Lâmpada de Acetileno”, duas das figuras mais conhecidas do Star System de Tezuka, que aqui parecem estar no papel de tarados pedófilos) e acaba perdida na floresta, onde eventualmente é resgatada e adotada por um caçador eremita!

E não acaba por aí, qual uma versão roedora de Hamlet, Jiro vinga a morte do seu pai (não com um banho de sangue, claro) e reencontra a sua família, mas a história ainda vai mais longe, culminando com o fim do próprio vale, submerso nas águas da represa de uma hidrelétrica (será a de Belo Monte?) que, ironicamente, fora projetada pelo próprio pai de Sanae.

A história, apesar da ambientação moderna, tem um claro estilo de fábula infantil, o que talvez perdoe alguns de seus absurdos. A história de Jiro tem semelhanças óbvias com a de Kimba, mais antiga, e talvez por isso que haja todo o subtexto da hidrelétrica, para torná-la um pouco diferente. O resultado é, como tudo que Tezuka fez, bem legível, mas não particularmente memorável.

Merecem destaque duas particularidades: A arte e quase toda reproduzida em tons de cinza, o que parece indicar que ela era originalmente em cores! Embora pareça estranho hoje em dia, muitos dos mangás antigos (especialmente naquele tempo, em que eram publicados em revistas mensais com relativamente poucas página) eram coloridos! Tal como Tonkaradani, eles são por norma republicados atualmente em edições P&B (isso quando são republicados, o que é raro…). Mais estranho é que, pelo tamanho dos desenhos, o mangá parece ter sido originalmente publicado em um formato de três tiras por páginas (como outros desse volume, mais sobre isso adiante), mas está reproduzido em páginas com quatro tiras. Economia de espaço? Não sei, mas isso reduz demais a arte e torna alguns quadrinhos difíceis de compreender (e os tons de cinza não ajudam…).

Além dessa história longa, o volume contém uma série de outras histórias curtinhas tiradas de revistas shojo da época, em particular da extinta Shojo Club (onde fora publicada a versão original de A Princesa e o Cavaleiro). Algumas são de pouquíssimas páginas (as menores têm três!) e, tal como Tonkaradani, são publicadas em tons de cinza que indicam que originalmente eram histórias coloridas. Ao contrário de Tonkaradani, algumas estão no formato de três tiras por página – e outras que estão no formato de quatro tiras por vezes terminam no meio de uma página, sinal claro de que foram remontadas!

As histórias seguem todas o estilo “fábula” de Tonkaradani. Muitos animaizinhos, príncipes e princesas e, curiosamente, meninas vestidas de meninos, o que parece ser comum no mangá shojo daquele tempo (vide o próprio A Princesa e o Cavaleiro e o clássico A Rosa de Versalhes). Alguns são adaptações de fábulas de diversos países e um deles de uma história de Goethe (ou mais precisamente da ópera Mignon, essa sim adaptada de um livro do escritor alemão). A mais curiosa é uma história do anjinho Ching, personagem de A Princesa e o Cavaleiro, aqui em uma aventura própria, em que precisa resgatar um ovo de ouro perdido por uma anjinha (anjo tem sexo?). A própria princesa Safiri (aqui em sua fase em que fingia ser um rapaz) faz uma ponta. Essa história foi publicada em sua diagramação original de três tiras por página, mas também ressente a ausência de cores.

O estilo de quase todas é bastante dramático, como era habitual no mangá para meninas daquele tempo. Aliás, o volume é um bom exemplo (talvez o único disponível comercialmente fora do Japão!) de como era o shojo nos anos 50, antes que a entrada de uma grande quantidade de autoras no gênero (a Geração de 1949) o alterasse para sempre.

O que é, provavelmente, o principal interesse da obra…

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