A editora SESI-SP anunciou há poucos dias que publicaria a série Spirou e Fantasio, uma das mais famosas da Bélgica. Mas quem são esses personagens, tão pouco conhecidos dos brasileiros? Bem, a história deles confunde-se com a da revista em quadrinhos Spirou, que é publicada na Bélgica até hoje.

Nem Spip leva Fantasio a sério...

O trio de protagonistas na visão da dupla Tome e Janry. Da esquerda para a direita, Spirou, o esquilo Spip e Fantasio.

No (admitidamente longo) texto abaixo eu vou dar um resumo da história da série, que é a mais importante HQ não-autoral de língua francesa. Não se assustem com o tamanho, que vale a pena a leitura!

Em 1938, a editora belga Dupuis decidiu juntar-se ao nascente mercado de publicação de quadrinhos com a criação de uma revista semanal própria, inspirada nos suplementos de quadrinhos dos jornais da época. Combinando material das tiras de jornal norte-americanas (onipresentes na época) com criações locais, a revista resultante foi batizada de Spirou (palavra valã que significa tanto “travesso” quanto “esquilo”).

Não sei porque ele está correndo há tanto tempo...

A evolução de Spirou ao longo dos seus principais desenhistas.

Para estrelar a publicação, o desenhista francês Rob-Vel (pseudonimo de Robert Velter) criou um personagem homônimo, um camareiro de hotel cujo visual foi inspirado no uniforme usado pelos camareiros dos navios de cruzeiro nos quais o próprio Rob-Vel havia trabalhado anos antes.

Quando eu crescer quero ter essa pinta.

Rob-Vel, criador de Spirou, em foto muito posterior.

Quando da sua criação, Spirou era apenas isso, um empregado de hotel que infernizava a vida das pessoas ao seu redor. Cada número da revista trazia logo na primeira página (a revista não tinha uma capa propriamente dita naquele tempo) uma gag autocontida do personagem. Assim continuou por alguns meses, até que Rob-Vel decidiu modificar o formato criando uma continuidade narrativa, com cada página semanal do Spirou sendo parte de uma aventura mais longa. No processo criou as bases da série, com aventuras imaginativas e bem humoradas, revelou as qualidades heróicas de Spirou (coragem, bondade, capacidade de improvisação) e introduziu também o primeiro coadjuvante recorrente da série, o esquilinho Spip (obviamente inspirado pelo outro significado do nome do personagem), que acompanha Spirou até hoje.

Sim, Spirou é literalmente um desenho que ganhou vida!

A raríssima primeira edição de Spirou, com a primeira aparição do personagem, desenhada por Rob-Vel (e, possivelmente, seu assistente Luc Lafnet).

Rob-Vel, na altura um autor de quadrinhos bastante requisitado, não se dedicava especialmente à série, delegando boa parte do trabalho para sua esposa Blanche Dumoulin (que foi provavelmente a principal argumentista da série durante o período) e os seus assistentes. Isso se tornou bem mais patente em 1939 quando a França declarou guerra à Alemanha nazista e o desenhista foi convocado. Sua esposa e assistentes continuaram a série aos trancos e barrancos até o momento em que os alemães invadiram a Bélgica (1940) e o fluxo de páginas para a editora foi cortado.

O baixinho de monóculo no meio de vários personagens de quadrinhos famosos da época americanos e europeus é M. Subito, a criação favorita do próprio Rob-Vel.

Bonita capa de Rob-Vel para uma republicação posterior das suas HQs de Spirou.

Isso se tornou um problema bastante sério para a Dupuis, já que a revista não poderia sair sem o seu carro-chefe! Em desespero, a editora colocou o desenhista belga Jijé (pseudônimo de Joseph Gillain) na série até a ocupação alemã da Bélgica (e da França) se consolidar de vez, a comunicação entre os dois países ser normalizada e Rob-Vel, que tinha sido feito prisioneiro pelos alemães, ser libertado e poder reassumir o trabalho (1941).

Tudo isso é fome, Jijé?

Foto de Jijé em 1968.

A situação, porém não se normalizou. Começava a faltar papel na Europa ocupada e os estoques eram cuidadosamente regulados pelos nazistas. Uma revista em quadrinhos infantil como Spirou não era prioritária e além disso a família Dupuis recusava-se a publicar propaganda nazista nas suas páginas, então o seu fornecimento de papel foi cortado. A Dupuis tentou contornar o problema substituindo-a por uma publicação mensal em 1943. No processo ela também comprou os direitos da série de Rob-Vel e colocou Jijé no comando do personagem. Mas a nova revista durou apenas um número e a Dupuis a substituiu logo em seguida por um almanaque anual, sempre incluindo histórias de Spirou desenhadas por Jijé, mas não era possível continuar sem papel e sob a censura alemã.

Com um título como esse, não tinha como dar certo...

O único número da tentativa de fazer um título mensal de Spirou durante a Segunda Guerra Mundial, desenho de Jijé.

Na história publicada nesses dois volumes, Jijé incorporou à série um personagem que já “assinava” alguns dos artigos da revista (na verdade escritos pelo próprio redator-chefe Jean Doisy), Fantasio, um jornalista simpático e atrapalhado que logo virou o co-protagonista da série. Fantasio era o personagem favorito de Jijé, que o usava para criar mil e uma situações absurdas.

Eu quero um robe com naipes de espadas igual ao que o Fantasio usa nessa história!

Capa do raríssimo álbum de 1948 que republicou as histórias de Jijé criadas durante a guerra, inclusive a primeira aparição de Fantasio. Arte de Jijé.

No entanto, a Bélgica foi libertada pelos aliados em 1944 e a revista Spirou voltou imediatamente a ser publicada, novamente com o seu personagem-título desenhado por Jijé. A saga que se seguiu à Libertação e durou até o final da guerra foi a mais ambiciosa do autor na série e colocou Spirou e Fantasio viajando no tempo para o passado e o futuro (onde encontraram até mesmo um Jijé muito idoso e completamente senil!). Esse material foi republicado em 1948 num álbum raríssimo (o primeiro da série!) que não faz parte da série de álbuns atual. Depois disso, porém, Jijé se desinteressou da série e a passou para o seu discípulo André Franquin em 1946.

Não, ele não é o pai do Sidney Gusman!

Foto do gênio dos quadrinhos André Franquin.

Franquin, que trabalhara em animação durante a guerra e no final de conflito se juntara a Jijé, Morris (criador do Lucky Luke) e Will em um estúdio improvisado na própria casa de Jijé em Waterloo, começou criando histórias curtas, eventualmente publicadas em outro raro álbum da época (mais tarde republicado em dois álbuns fora da série regular) e nos volumes 1 e 3 da série regular. Ao longo dessas histórias ficou nítida uma constante melhoria na qualidade do seu trabalho, embora o próprio Franquin não tivesse grande interesse pelo personagem e chegasse mesmo a abandoná-lo um punhado de vezes (Jijé reassumiu a série em ambos os casos, as histórias que fez nesse período estão também no 3º álbum da série).

Que pernas fininhas que tem o Jijé!

O “Bando dos Quatro” que criou a “escola” de desenho de Marcinelle, o famoso estilo átomo. Arte de Morris.

A situação mudou em 1950 quando o irmão de Jijé Henri Gillain criou para Franquin, com falta de ideias, uma aventura em que Spirou e Fantasio vão para a cidadezinha de Champignac e encontram lá uma misteriosa figura apelidada O Feiticeiro de Champignac. Trata-se do cientista e inventor Pacôme Hégésippe Adélard Ladislas, o Conde de Champignac, que viraria uma personagem recorrente e, com suas descobertas e invenções – geralmente baseadas no estudo dos cogumelos (champignons em francês) que dão nome a Champignac – seria uma das principais fontes de aventuras da série daí em diante. Aliás, toda a aldeia de Champignac e suas figuras de destaque se tornariam uma parte essencial da HQ.

Vila Nova de Milfungos é um nome simplesmente genial!

A rara capa da primeira edição portuguesa d’O Feiticeiro de Champignac. Arte de Franquin.

Essa história reavivou o interesse de Franquin na série e o autor daí em diante faria muitas vezes uso de outros argumentistas no título, particularmente Maurice Rosy e Michel Greg (pseudônimo de Michel Louis Albert Regnier), com quem Franquin fez as melhores aventuras de Spirou.

Esse é babaca!

Primeira aparição de Zantafio, o primo canalha de Fantasio, na arte de Franquin.

Mas Franquin não precisou de ajuda para criar duas outras personagens importantes na sua história seguinte (Spirou e os Herdeiros, de 1951-52): Zantafio, o primo mau caráter de Fantasio, que viraria um vilão recorrente, e o Marsupilami, animal fantástico com uma cauda comprida multifuncional, que se tornaria um enorme sucesso por si só e ganharia histórias solo, desenhos animados e até um filme em longa metragem com atores na França!

Esse é rabudo!

Marsupilami e a sua cauda multifuncional na arte de Franquin.

Também foi em 1950 que surgiram os primeiros álbuns da série regular, republicando as histórias de Franquin (os períodos de Rob-Vel e Jijé foram ignorados e só seriam republicados na íntegra muito mais tarde). Esses álbuns serão a base da série que o SESI pretende publicar.

Entendo decidirem publicar a série desde o primeiro volume, mas que leitor moderno vai comprar uma HQ com uma capa como essa?

Capa do primeiro álbum de Spirou na vindoura edição do SESI-SP. Arte de Franquin.

Ao longo da longa e excelente fase de Franquin apareceriam outros coadjuvantes memoráveis, como a enxerida jornalista Seccotine (1952), rival de Fantasio, e o cientista maluco Zorglub (1959), arquirrival do Conde de Champignac e talvez o personagem mais memorável de toda a série. Franquin também criaria paralelamente o caótico office boy Gaston, que infernizaria a vida de Fantasio na redação da Spirou e faria aparições esporádicas nas aventuras dos personagens, embora fosse o protagonista da sua própria série de gags.

Não conheço esse desenhista, mas a arte é TÃO legal que eu tinha que postar aqui!

Seccotine desenhada por Thierry “LenOar” Fagot.

O sucesso de Gaston acabaria de vez com o interesse de Franquin por Spirou. Ele continuou na série por vários anos, mas seus periódicos acessos de depressão o afastariam de uma vez por todas do personagem em 1968.

Não faz nada direito, mas se veste bem pacas!

O cientista maluco Zorglub na arte de Franquin.

Nessa altura Spirou já era um grande sucesso. Além de astro da sua revista, ele também tinha uma muito bem sucedida série de álbuns republicando as suas aventuras (no tempo em que isso era bem raro no quadrinho franco-belga, vale lembrar). Portanto o autor que assumisse a série depois de Franquin estaria conquistando uma posição muito privilegiada – e de muita responsabilidade!

Essa é uma das HQs mais engraçadas do mundo, sem exagero!

O atrapalhado Gaston Lagaffe desenhado pelo seu criador André Franquin.

O escolhido, pelo próprio Franquin, foi o jovem Jean-Claude Fournier (na altura com apenas 24 anos!), francês criado na região da Bretanha, que tinha pouca experiência e nenhum trabalho de sucesso, o que despertou algumas animosidades no seio da redação da Dupuis.

No fim do ano ele sobe em um trenó e começa a distribuir presentes pelo mundo.

Foto recente de Fournier na sua mesa de trabalho.

Fournier não teve uma tarefa fácil pela frente. Além de precisar seguir os passos de um gigante dos quadrinhos, ele teve de enfrentar a hostilidade dos colegas e dos leitores. Além disso, como Franquin era, segundo a lei belga e europeia, dono das personagens que criara, ele decidiu conservar Gaston e o Marsupilami para si. O Marsupilami, em particular, era uma das principais atrações da série e sua remoção a prejudicou bastante. Franquin ainda permitiu que Fournier usasse o bichinho (desenhado pelo próprio Franquin) na sua primeira aventura, publicada em 1969, mas ele desapareceu a seguir sem maiores explicações.

Nunca tinha reparado como o Fournier usa sombras na sua arte.

Página de Spirou e Fantasio de Fournier, com o Marsupilami desenhado por Franquin!

Isso e a inegavelmente fraca qualidade dos primeiros trabalhos de Fournier lhe valeram uma enxurrada de críticas. Mas o autor perseverou e já na sua quarta aventura, Tora Torapa (1972-73), fez um trabalho que não devia nada ao de Franquin. Fournier tinha um talento especial para fazer humor com o esquilo Spip, por exemplo. Durante o seu período na série, Fournier criou também personagens memoráveis como o ilusionista japonês Itoh Kata (1970) e a bela polinésia Ororéa (1972). A qualidade e periodicidade do seu trabalho eram, porém, irregulares – e foi esta última que determinou o seu afastamento da série.

Não, eu também não sei o que ele está segurando.

O mágico Itoh Kata desenhado por Fournier.

Desde que Franquin começou a ter problemas de depressão, no início dos anos 60, Spirou deixara de ser uma presença constante em todos os números da revista, que nessa altura já se virava muito bem com as outras séries nos períodos de “intervalo” das histórias de Spirou e Fantasio. Mas no final dos anos 70, com as revistas em quadrinhos tradicionais franco-belgas entrando em crise, bastante gente na editora, em particular o novo consultor criativo da Dupuis, José Dutillieu, considerava que a presença do personagem era fundamental para a revista que, afinal, tinha o seu nome. Só que o tempo em que o personagem ocupava apenas a primeira página da revista já passara e as aventuras de Spirou e Fantasio agora eram serializadas em blocos de quatro ou mais páginas ao longo de vários números. Nenhum desenhista individual franco-belga poderia fazer isso todas as semanas, então a solução pensada por Dutillieu foi colocar uma grande equipe criativa trabalhando com o personagem, nos moldes do que se faz em animação (de onde Dutillieu viera).

Infelizmente a personagem foi esquecida depois que Fournier deixou a série.

Desenho de Ororéa no estilo atual de Fournier.

Fournier era redundante para uma operação desse tipo e Dutillieu quis afastá-lo da série. Só que a revista Spirou tinha um redator-chefe, Alain de Kuyssche, que considerou que a formação de uma nova equipe de criação não implicava necessariamente na demissão de Fournier e não quis demiti-lo. Dutillieu então demitiu Fournier por iniciativa própria em 1980. Dutillieu já não era muito apreciado na redação e isso transformou a série Spirou no centro de uma grande disputa entre ele e a equipe editorial da revista.

Curiosidade: Ele é o mais antigo redator da Spirou ainda vivo.

Foto recente de Alain de Kuyssche, redator-chefe da revista Spirou no início dos anos 80.

Dutillieu tinha um nome favorito para substituir Fournier, Nic Broca, que não tinha experiência em quadrinhos, mas era o animador favorito de Dutillieu no tempo em que ambos trabalhavam na produtora de animação belga Belvision. Nic também era extremamente leal a Dutillieu, que o havia “descoberto” quando era apenas um barman com talento para o desenho. Para tentar satisfazer de Kuyssche, Dutillieu pediu que o próprio redator-chefe escrevesse as duas primeiras HQs curtas de Spirou desenhadas por Nic (publicadas em 1980 e 1981), o que este fez de má vontade, mas recusou-se a virar o argumentista regular da série porque isso iria entrar em conflito com o seu trabalho editorial.

Curiosidade: Nic foi o criador dos Snorks, aqueles clones subaquáticos dos Smurfs. Eles apareceram pela primeira vez em uma HQ publicada na Spirou, quando ainda eram chamados de Diskies!

Foto de Nic Broca, animador e desenhista de Spirou.

Entrementes, de Kuyssche encontrara, depois de muita procura, a sua própria equipe criativa, a dupla Philippe Tome (argumentista) e Janry (pseudônimo de Jean-Richard Geurts, desenhista), dois jovens assistentes do desenhista Dupa (pseudônimo de Luc Dupanloup), que trabalhava na revista rival Tintin. Eles tinham visitado a redação da Spirou para entregar um trabalho que Dupa fizera para a revista e souberam que a série Spirou estava sem equipe criativa. Criaram então, por iniciativa própria, uma HQ curta da personagem e a submeteram a de Kuyssche, que adorou o resultado e publicou a aventura na revista em Junho de 1981. O desafio estava lançado!

Tome é o careca.

Foto da dupla Tome e Janry em uma sessão de autógrafos na Finlândia.

Tome e Janry logo conseguiram um aliado de peso, André Franquin! O veterano autor deu apoio incondicional à dupla, o que lhes valeu não apenas o apoio dos outros autores da Dupuis como a atenção do próprio Charles Dupuis, o diretor (e um dos proprietários) da editora, que tinha confiança absoluta na opinião de Franquin.

Scanlation em inglês de material franco-belga? Agora eu já vi de tudo...

Exemplo do trabalho de Tome e Janry em Spirou.

Acuado, Dutillieu lançou mão do seu principal trunfo, pediu ao argumentista Raoul Cauvin (da série Os Túnicas Azuis, entre muitas outras) para fazer parceria com Nic em Spirou. Cauvin era o argumentista mais importante da editora na altura (e continuou a ser por vários anos) e estava no auge da carreira. Porém ele foi notificado pelo próprio Charles Dupuis de que deveria criar um novo universo de personagens secundários para a série, sem poder usar nenhuma das criações de Franquin (ou mesmo de Fournier), uma violenta limitação que, porém, não se aplicava a Tome e Janry. Trabalhando com tais limitações, as aventuras longas de Cauvin e Broca se mostraram bastante inferiores às de Tome e Janry, com quem se alternavam na revista no início dos anos 80.

Vocês podem não conhecer esse homem, mas ele já vendeu mais de 50 milhões de HQs no mundo!

Raoul Cauvin e o seu indefectível bigode.

Para complicar ainda mais a situação, de Kuyssche convidou um terceiro autor para a série em 1982. Ninguém menos que o maior talento daquela geração de autores franco-belgas, o jovem mestre da linha clara Yves Chaland. Fã de Spirou desde a infância, Chaland era atípico por ter uma preferência distinta pela fase de Jijé na série, na contramão da esmagadora maioria dos leitores, que preferem o período Franquin, e fez um Spirou retrô calcado no de Jijé, trabalhando portanto sob limitações similares às de Cauvin e Broca, mas com um resultado nitidamente superior. Ele também era publicado de forma diferente dos outros, fornecendo meia página (duas tiras) em preto e branco por número, em um estilo de serialização similar ao das páginas dominicais de quadrinhos dos jornais americanas. O resultado foi impressionante e um testemunho ao talento de Chaland.

Curiosidade: O casal foi quem coloriu originalmente a clássica série Incal de Moebius e Jodorowsky.

Yves Chaland e sua esposa Isabelle Beaumenay-Joannet.

Sob fogo cerrado de todos os lados, Cauvin e Nic foram repentinamente afastados da série enquanto trabalhavam na sua terceira aventura longa (Les Faiseurs de silence, inédita em português, de 1982-83). O final da história foi realizado nessas condições altamente desfavoráveis e foi tão mal recebido que teve de ser alterado para a edição em álbum (o novo final é o que está no terceiro e último álbum de Cauvin e Broca na série). Broca voltou para a animação (ele faleceu em 1993) e Cauvin continuou na revista, embora considere essa até hoje a sua pior experiência nos quadrinhos.

Quarenta baleias suicidas e Spirou batendo em Fantasio? Não entendo por que quiseram mudar esse final...

O polêmico final original de Les Faiseurs de Silence.

Chaland também foi afastado na mesma altura (final de 1982), deixando a sua aventura pela metade. Com ajuda do seu parceiro habitual, o argumentista Yann Lepennetier, Chaland acabou terminando a história em outra editora usando um expediente original (contando a história não em quadrinhos, mas no formato de texto ilustrado e se referindo a Spirou e Fantasio apenas por pseudônimos). Ele e Yann fizeram numerosos outros projetos para o personagem, mas nenhum deles foi adiante e a morte prematura do autor em um acidente de carro em 1990 encerrou de vez a sua ligação com o personagem. Yann, porém, manteve os projetos e os reviveu recentemente com o seu atual parceiro, o desenhista “chalandiano” Olivier Schwartz, em diversos “One-Shots“.

Os outros desenhistas queriam ter um décimo desse talento!

A primeira tira de Spirou desenhada por Chaland.

Tome e Janry estavam agora à vontade para trabalhar com o personagem e iniciaram uma sequência de álbuns excelentes, que rivalizam com os de Franquin como os melhores da série. As vendas de álbuns dos personagens também chegaram no seu auge durante esse período. Entre os personagens que criaram está o mafioso Don Vito Cortizona (1987).

Não preciso dizer em quem ele foi inspirado, né?

Don Vito Cortizona na arte de Janry.

Uma das criações da dupla foi A Juventude de Spirou (1983), uma história curta (depois republicada em álbum com outras curtas dos mesmos autores) que mostrava a infância do personagem. Os dois gostaram tanto de trabalhar com essa versão do personagem que logo criaram uma nova série humorística chamada O Pequeno Spirou, que mostrava as desventuras de um Spirou criança. A série, ainda em publicação, tornou-se um fenômeno de vendas e logo superou a sua versão adulta.

Limpando o salão antes da festa.

O pequeno Spirou desenhado por Janry.

Tal como acontecera com Franquin e Gaston, Tome e Janry ficaram muito mais motivados para trabalhar no seu novo personagem do que no vetusto Spirou e as aventuras deste começaram a ser publicadas em intervalos cada vez maiores. Até que em 1998 eles decidiram fazer uma mudança radical na série com a aventura A Máquina que Sonha.

Sim, é o Spirou na capa. Sério!

Capa do álbum A Máquina que Sonha. Desenho de Janry.

Essa história mostrava uma versão radicalmente diferente das aventuras de Spirou e Fantasio. Os personagens eram desenhados em um estilo menos cartunesco, quase realista, a trama era mais sofisticada e quase totalmente desprovida de humor. Esse “Ultimate Spirou” dividiu opiniões, não apenas entre os leitores, mas também na própria editora. Tome e Janry deixaram de ser a unanimidade que eram no passado e passaram a ser fortemente criticados. O ritmo de produção extremamente lento que tinham adotado também não ajudava a sua posição e após vários anos de discussão acabaram sendo afastados da série, deixando uma segunda história no estilo d’A Máquina que Sonha incompleta (as páginas terminadas foram publicadas na revista muitos anos depois).

Os desenhos são bons e tal, mas esses não são Spirou e Fantasio!

Spirou e Fantasio em A Máquina que Sonha, arte de Janry.

Como das outras vezes, surgiu a questão de quem deveria continuar a série. Autores talentosos não faltavam e poucos desdenhariam a oportunidade de assumir um título com vendas altíssimas. Após muita especulação, a escolha caiu no argumentista Jean-David Morvan e no desenhista José Luis Munuera, ambos autores modernos e com uma grande gama de influências. Morvan, em particular, é muito influenciado pelos comics americanos e pelo mangá, tendo até morado no Japão durante alguns anos. A ideia é que eles seriam capazes de renovar a série para o novo milênio.

Pena que os argumentos não estavam à altura...

A dinâmica arte de Munuera no Spirou.

Infelizmente, as coisas não correram como previsto. A primeira história da dupla, Paris Submersa! (2004), era inegavelmente divertida e dinâmica, mas talvez dinâmica até demais. As 44 páginas do álbum lêem-se em minutos e a trama termina de forma abrupta e muito pouco conclusiva. Não foi nenhum desastre, mas após anos de expectativa e com a responsabilidade de substituir uma equipe criativa tão amada pelos leitores como Tome e Janry, o resultado foi no mínimo frustrante.

A arte é uma beleza. História? Que história?

Spirou e Fantasio no Centro Georges Pompidou, em Paris. Arte de Munuera.

Depois da recepção fria do primeiro álbum, Morvan e Munuera voltaram à carga com um segundo em 2005, dessa vez bem mais tradicional. Recuperando vários temas “franquinianos”, O Homem que Não Queria Morrer foi provavelmente o melhor álbum da dupla na série, agradando tanto aos fãs tradicionalistas, por recuperar vários conceitos do período áureo da série, quanto aos partidários da inovação, que apreciaram o desenho moderno de Munuera e a trama inovadora de Morvan. Parecia que a dupla encontrara a sua fórmula.

ESSE álbum foi legal! Por que Morvan não acertou nos outros?

Capa d’O Homem que Não Queria Morrer, arte de Munuera.

Morvan decidiu aproveitar para levar Spirou a Tóquio na aventura seguinte (publicada em 2006), que foi planejada como plataforma para a criação de um verdadeiro Spirou em estilo mangá, que seria desenhado pelo japonês Hiroyuki Ooshima, um dos desenhistas que Morvan conhecera no Japão. A história de Tóquio em si era boa, mas nem a ideia de um Spirou em mangá nem as páginas divulgadas (na revista e em um álbum especial) da versão mangá foram bem recebidas, o que prejudicou a aventura indiretamente.

Não sei quanto a vocês, mas eu achei horroroso.

Spirou em estilo mangá, arte de Hiroyuki Ooshima.

Para agravar a situação, a Dupuis decidira reviver a ideia de colocar múltiplas equipes trabalhando na série, mas desta vez de forma mais organizada, mantendo Morvan e Munuera na série regular e criando uma nova série de One-Shots por equipes diferentes. Isso em teoria tranquilizaria a equipe principal, que não veria a sua posição ser ameaçada, e ao mesmo tempo permitiria a autores que não tinham qualquer interesse em assumir o personagem regularmente desenhar um álbum de Spirou. O primeiro one-shot (Os Gigantes Petrificados) foi criado pela dupla Fabien Vehlmann e Yoann Chivard. A escolha não foi fortuita, Vehlmann fora durante muito tempo um dos argumentistas mais bem cotados para assumir a série após a saída de Tome e Janry, mas ele não desejava trabalhar com um desenhista tradicional de estilo “franquiniano” (o preferido da Dupuis era Fabrice Tarrin, que mais tarde desenharia um one-shot) e impôs como desenhista Yoann, que tinha um estilo bastante diferenciado e original, que a editora não estava disposta a permitir na série regular. O resultado foi muito bem recebido tanto pela editora quanto pelos leitores e o novo álbum saiu poucos meses antes do álbum de Tóquio, que teve vendas inferiores. A posição de Morvan e Munuera ficou seriamente ameaçada, ainda mais que Vehlmann e Yoann eram autores “da casa” e estavam disponíveis para assumir a série regular.

A arte de Yoann é legal, mas o Fantasio não é careca, pô!

A capa do primeiro One-Shot de Spirou, arte de Yoann.

Para agravar, aproximavam-se dois aniversários importantes da série: Os 70 anos da revista Spirou em 2008, que exigiam uma presença forte do personagem na revista, e o 50º álbum da série regular, uma das pouquíssimas séries franco-belgas a atingir tal numeração. Para manter o personagem na revista enquanto se preparava o grande evento, vários one-shots foram publicados, inclusive uma magnífica história comemorativa dos 70 anos de autoria de autoria de Émile Bravo, certamente o melhor Spirou feito no século 21 até o momento, o que mais uma vez colocou um parâmetro de comparação muito desfavorável para o trabalho de Morvan e Munuera.

Essa imagem deve dar pesadelos para Morvan e Munuera até hoje...

O magnífico One-Shot de Spirou e Fantasio de Émile Bravo.

É difícil dizer com precisão o que aconteceu nesse momento. Morvan tinha proposto uma história revivendo os melhores momentos da série (exceto o Marsupilami, que ainda estava nas mãos dos herdeiros de Franquin), com Spirou viajando no tempo para várias aventuras do passado em uma trama que envolvia Zorglub e pretendia fechar finalmente as pontas soltas do primeiro álbum da dupla. Por essa altura a Dupuis já estava insatisfeita com o trabalho do argumentista na série e este queixava-se das constantes intromissões editoriais, ao ponto em que a nova aventura acabou sendo co-escrita pelo já mencionado Yann, que é um grande conhecedor de Spirou, antigo discípulo de Franquin e já tinha escrito um dos one-shots (precisamente o de Fabrice Tarrin, que foi publicado em 2007). A aventura do 50º álbum, porém, acabou virando um saco de gatos que se concluía com nada menos do que o completo apagamento de quase toda a cronologia da série! Sim, se A Máquina que sonha era “Ultimate Spirou“, o novo álbum só podia ser chamado de “Spirou One More Day“.

Cadê o Marsupilami que estava aqui? O advogado da Marsu Productions comeu!

Marsupilami censurado em Spirou 50.

Foi, previsivelmente, um desastre completo.

No início a Dupuis nem sequer quis publicar a história, algo nunca antes visto e que causou uma enorme polêmica nos bastidores, ainda mais depois que Morvan revelou a situação na Internet. Pressionada pelos leitores e pela necessidade de se publicar o álbum nº 50 no 70º aniversário da série, a Dupuis acabou publicando o álbum – e aí as críticas passaram a ser contra a equipe criativa. Morvan e Munuera foram rapidamente tirados da série e os planos para o mangá de Spirou arquivados de uma vez por todas. Yann escapou relativamente incólume do desastre e mais tarde escreveu outros One-Shots do personagem que foram bem recebidos.

Todos são baseados nos projetos de Yann com Yves Chaland.

Um dos One-Shots de Spirou e Fantasio assinados por Yann e Olivier Schwartz. Arte de Schwartz.

Quando a poeira baixou, Vehlmann e Yoann foram confirmados como a nova equipe criativa da série regular.

Os novos autores herdaram um Spirou em mau estado. A fase Morvan/Munuera não tinha sido grande coisa e ainda sofrera com a comparação com os one-shots, coisa que nenhuma outra equipe criativa enfrentara antes (bem, talvez Cauvin e Nic pudessem argumentar o contrário, mas as circunstâncias eram diferentes) e deixara como legado um radical e injustificável retcon maciço. Os novos autores sabiamente ignoraram esse material e trouxeram de volta os valores seguros da série, como Champignac e Zorglub. A recepção dos leitores não foi particularmente efusiva, mas Vehlmann e Yoann têm melhorado progressivamente a cada álbum e mantêm a qualidade da série regular em um patamar similar ao dos One-Shots.

Uma das gags recorrentes dessa fase é que ele não consegue se livrar desse uniforme...

O bem-humorado Spirou de Yoann e Vehlmann. Arte de Yoann.

Além disso, eles receberam um reforço importante quando a Dupuis, depois de 40 anos, finalmente comprou de volta as criações de Franquin. Gaston e o Marsupilami já fizeram uma pequena “ponta” no mais recente álbum da série regular, Le Groom de Sniper Alley (publicado em 2014, inédito em português) e o próximo (previsto para este ano) anuncia o retorno triunfal do Marsupilami como personagem da série. Isso deve reforçar consideravelmente a popularidade de Spirou e certamente o ajudará a continuar sendo publicado ainda por muitos anos mais, como o grande ícone dos quadrinhos franco-belgas que ele é!

Adivinhem quem está de volta?

A capa do próximo álbum de Spirou, arte de Yoann.

No Brasil, o Spirou foi publicado a partir de 1975 pela extinta Editora Vecchi, primeiro como revista em formatinho e depois no formato álbum. O personagem foi rebatizado como “Xará” e todas as histórias eram da fase de Franquin, algumas delas grandes clássicos da série. Infelizmente, como as outras publicações franco-belgas da editora, ele não alcançou grande sucesso e teve vida curta.

Dica: Essa história é sensacional!

Capa do primeiro “Xará” da Vecchi, arte de Franquin.

Em 1996, o personagem voltou ao Brasil através da editora Manole, que publicou um único álbum, Luna Fatal, do período final da fase de Tome e Janry. Publicado em uma altura em que as HQs estavam quase completamente ausentes das livrarias, o álbum teve péssima distribuição e pouca gente sequer ficou sabendo que ele tinha sido publicado.

Tremenda injustiça esse álbum não ter tido sucesso.

Capa de Luna Fatal da Manole, arte de Janry.

Vamos esperar que as publicações do SESI-SP tenham melhor sorte!

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