Fui no lançamento do novo Asterix! quinta-feira, out 22 2009 

Na noite do dia 21 para o dia 22 de Outubro aconteceu o lançamento mundial do novo álbum de Asterix, O aniversário de Asterix e Obelix, o livro de ouro.

A bela capa do novo álbum de Asterix

A bela capa do novo álbum de Asterix

O evento foi celebrado nos dezoito países em que o álbum foi publicado simultaneamente, com a impressionante tiragem total de 3,5 milhões de exemplares. Portugal é um deles (a tiragem lusa é de 60 mil exemplares, número bastante alto para o país). Fã incondicional da série, decidi desbravar a chuva forte que caía sobre Lisboa para participar do lançamento do álbum. O que eu não faço por um Asterix!

Ao chegar ao local do lançamento (a livraria FNAC do Centro Comercial Colombo, para os curiosos), notava-se logo a decoração temática, com direito até à presença dos próprios Asterix e Obelix (atores fantasiados, claro). Nada menos que duas emissoras de TV estavam cobrindo o evento, a estatal RTP e a privada TVI! Curiosamente no mesmo local se realizara poucas horas antes um acontecimento que se revelou menos mediático… O lançamento do Windows 7! Melhor sorte da próxima vez, Bill Gates…

Na palestra estavam presentes a editora de quadrinhos da Asa Maria José Magalhães Pereira, o jornalista especializado Carlos Pessoa e o filho do primeiro editor de Asterix (e de Tintim) no país, Adolfo Simões Müller. Este visionário editor (que completaria 100 anos em 2009) foi o responsável por Portugal ter sido o primeiro país do mundo a traduzir Asterix (e, novamente, Tintim!), portanto a presença do seu filho no evento foi bastante simbólica. A palestra centrou-se no tema da tradução dos nomes dos personagens da série, polêmica recorrente em Portugal desde que a prática se iniciou, na passagem da série para a égide editorial da Asa. Algo de  interesse limitado para os leitores deste blog.

Então vamos ao que realmente interessa: O álbum em si!

Esta é, como prometido, uma coleção de histórias curtas e ilustrações, efetivamente recolhendo todo o material “de arquivo” que ainda sobrava do personagem. Há até um divertidíssimo texto de René Goscinny (devidamente ilustrado por Albert Uderzo, que continua um desenhista de talento inquestionável) sobre as férias na Gália, que apesar de seus mais de 40 anos de idade mantém a verve cômica do escritor original da série. Lamentavelmente é o único material dele presente no álbum.

Este abre com uma ótima sequência inédita mostrando Asterix e Obelix cinquenta anos mais velhos, em referência ao cinquentenário dos personagens comemorado pelo álbum. A visão dos gauleses envelhecidos é bem mais engraçada do que parece à primeira vista e a sequência termina com uma divertida participação especial do autor Uderzo, que tem um certo tom de despedida.

Tom este também presente nos prefácios assinados por “Asterix” (certamente o próprio Uderzo, um tanto auto-congratulatório demais para o meu gosto) e Anne Goscinny, que derrete-se em elogios ao colega de seu pai e nas sequências de ligação entre as várias histórias do álbum. Que são, por sinal, o seu principal problema.

Ao invés de colocar as histórias separadamente, como em Asterix e a volta às aulas (Asterix e o regresso dos gauleses, na edição portuguesa), Uderzo decidiu ligar as histórias (e até as várias ilustrações, que correspondem a cerca de metade do conteúdo do álbum) com um fio condutor narrativo extremamente tênue. Isso não favorece o material e acaba resultando em um todo inferior à soma das partes. O que é uma pena, porque algumas partes são excelentes.

Vale destacar, por exemplo, uma história curta que mostra Obelix tentando aprender a ler (publicada anteriormente na revista literária francesa Lire), os “erros de gravação” do álbum Asterix e Latraviata (sinceramente bem melhores que o álbum em si…) e até uma série de pinturas de Asterix parodiando obras de arte clássicas, curiosamente similar a uma iniciativa mais antiga de Mauricio de Sousa, História em quadrões! O resultado ficou melhor que o do Mauricio (não há como negar que Uderzo é um desenhista mais habilidoso), mas não soa muito original para quem já viu o trabalho do autor brasileiro.

Curiosamente o álbum fecha com uma história curta que mostra a única piada escatológica dos cinquenta anos da série. Penso que Asterix poderia ter ficado sem isso, mas se for verdade que Christophe Arleston será realmente o sucessor de Uderzo nos argumentos, isso é algo com que os leitores terão de se acostumar…

No final, Uderzo até agradece a seus assistentes Régis Grébent e os irmãos Frédéric e Thierry Mébarki (os mesmos que nomeou como sucessores em uma entrevista recente para o Journal du Dimanche), algo bastante raro entre autores de quadrinhos. Uma iniciativa louvável!

Enfim, como eu disse o resultado é inferior à soma das partes. Eu considero que o álbum vale a compra, é certamente superior ao muito criticado volume anterior e possui várias gemas escondidas entre suas páginas, mas é um álbum de altos e baixo, prejudicado pela tentativa de Uderzo de “amarrar” tudo à força. O que, de certa forma, faz dele o final apropriado para o período “solo” de Uderzo na série.

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José Aguiar no Centro de Cultura França-Alemanha de Niterói quarta-feira, maio 9 2007 

Andei muito ocupado esses últimos dias para poder atualizar o blog. Mea culpa, vou tentar compensar o melhor que puder. Primeiro divulgando um evento que está rolando na cidade de Niterói (RJ).

Bom amigo meu e artista de grande talento, o curitibano José Aguiar é um dos raros artistas brasileiros de quadrinhos trabalhando no exigente mercado europeu. Depois de ter feito diversos trabalhos para o mercado brasileiro (incluindo uma participação na “reformulação” do super-herói curitibano O Gralha), Aguiar, em parceria com o também brasileiro Wander Antunes, publicou pela editora suiça Paquet dois álbuns da série policial Ernie Adams.

Capas dos dois álbuns de Ernie Adams

A série não foi um grande sucesso (é complicado uma série de uma editora pequena se destacar em um mercado com mais de 3000 lançamentos de quadrinhos por ano…), mas foi o bastante para Aguiar, na altura morando na Alemanha, fazer uma pequena turnê de lançamento por França e Suiça.

Aguiar autografando seus trabalhos em uma loja de quadrinhos suiça

Durante a turnê, ele aproveitou para colocar no papel suas impressões do Velho Continente, prática bastante comum para os artistas europeus em viagem pelo mundo, que Aguiar “inverteu” fazendo ele próprio uma série de ilustrações da pitoresca Europa.

Aguiar junto à antiga residência de Rodolphe Töpffer, o “inventor” dos quadrinhos!

De volta ao Brasil, fez a exposição Reisetagebuch – Uma Viagem Ilustrada pela Alemanha, na qual exibiu suas ilustrações, e uma HQ autobiográfica publicada na revista Omelete, do website homônimo, do qual nós dois somos colaboradores de longa data.

Página da HQ de Aguiar no Omelete, mostrando as peripécias do casal Aguiar em Paris

(Incidentalmente, seu Aguiar, quase todos os parisienses sabem inglês, apenas se recusam a falar nessa língua! Mas eles falam em inglês se você tentar falar com eles em francês e não conseguir, por estranho que pareça. Esses franceses são loucos!)

O plano de Aguiar é fazer um livro misturando suas ilustrações, quadrinhos e textos falando sobre suas experiências na Europa, um tipo de trabalho muito difundido no Velho Continente, mas praticamente inexistente no Brasil, ao menos na vertente de quadrinhos.

A exposição Viajando em Quadrinhos pela França e Alemanha, que reune esses trabalhos com páginas produzidas para Ernie Adams, abre hoje no Centro de Cultura França Alemanha, em Niterói, com a presença do autor. O Centro de Cultura fica na Estrada Francisco da Cruz Nunes, 6266, Oásis Shopping Center, Piratininga, Niterói-RJ, e abre de segunda a sexta-feira, das 13h às 21 horas e sábados das 8h às 12 horas. Vão lá e digam que Hunter os mandou, que vão poder entrar sem pagar! Bem, na verdade vão poder entrar de graça até sem falar nada, porque a entrada é franca…

Dinâmica página de Ernie Adams, t�pica das que estarão na exposição

A exposição fica até o fim do mês. Se estiverem nas proximidades, visitem-na!

Página de teste de Aguiar com Dylan Dog. Não tem nada a ver com a exposição, mas eu não podia deixar de postar isso!

Enquanto ninguém se anima a publicar esse projeto no Brasil (e se você é um editor de quadrinhos, está lendo isso e ainda não entrou em contato com o Aguiar para publicá-lo, qual é o seu problema afinal?), Aguiar continua seu trabalho para a Paquet, desta vez colaborando na coletânea Flying Doctors, um álbum coletivo em homenagem à ONG AMREF, que presta ajuda médica a comunidades africanas isoladas utilizando aviões. O álbum será publicado na coleção Cockpit da editora, dedicada a histórias de aviação, e será escrito por Régis Hautière, com arte de 10 artistas de diversas nacionalidades, entre eles Aguiar. O título do álbum será Un jour de mai (“Um dia de maio”).

Página de Un jour de mai de autoria de Aguiar, que mostra sua habilidade como desenhista “técnico”

É uma pena que alguém como José Aguiar precise ir até a Europa para conseguir publicar seus trabalhos. Resta esperar que um dia o mercado brasileiro esteja sólido o suficiente para que talentos como ele possam publicar no próprio país!