Mickey na visão de um dos "pais" da Marvel, Jack Kirby

Mickey na visão de um dos "pais" da Marvel, Jack Kirby

(Desculpem a demora, mas esta notícia teve tantas ramificações nas últimas semanas que o artigo precisou ser reescrito diversas vezes.)

No que é possivelmente a notícia mais importante (e surpreendente) da indústria de quadrinhos este ano, a multinacional de entretenimento Walt Disney Company adquiriu Marvel Entertainment Inc., que inclui a Marvel Comics, por um valor estimado (baseado no preço a ser pago pelas ações da Marvel, que inclui troca de ações da Marvel por ações da Disney) em cerca de quatro bilhões de dólares!

Um negócio bastante impressionante por vários fatores. O primeiro e mais óbvio é a soma investida. A Disney está pagando o equivalente a metade do seu lucro anual, uma soma impressionante comparável ao Produto Interno Bruto de Ruanda, por uma empresa que no ano passado anunciou um lucro de… 200 milhões de dólares!

Simples aritmética determina que, para recuperar seu investimento (assumindo que o faturamento da Marvel continue o mesmo), a Disney teria de esperar 20 anos! Bem, é óbvio que a companhia fundada por Walt Disney não comprou a Marvel com o objetivo de recuperar seu investimento em 20 anos, seria ridículo pensar isso! Então qual é a motivação dela?

Uma possível resposta está nos recentes resultados dos filmes produzidos por ambas as produtoras. Enquanto a Marvel conseguiu transformar um personagem pouco conhecido (e com poucos fãs…) dos quadrinhos em um sucesso internacional (Homem de Ferro) e “ressuscitar” no cinema um personagem que parecia ter poucas chances de sucesso após um filme anterior absolutamente medíocre (Hulk), a Disney tem visto seus célebres longas de animação mostrarem resultados extremamente insatisfatórios nos últimos anos. A única exceção são as produções da Pixar, companhia que a Disney foi forçada a adquirir para evitar que se tornasse uma concorrente potencialmente destruidora. Essa transação, feita exclusivamente por troca de ações, custou quase o dobro da aquisição da Marvel e ainda transformou o antigo dono da Pixar Steve Jobs no maior acionista individual da Disney, com 7% das ações (a título de comparação, o próprio Roy Disney detém apenas cerca de 1% das ações da companhia que leva o nome do seu tio). A compra da Pixar foi necessária, já que sem ela a Disney provavelmente perderia a liderança mundial na produção de animações em longa metragem para o cinema, que ela detém desde o nascimento dessa arte. Mas e a Marvel?

Na conferência de imprensa em que foi anunciado o negócio, que pode ser ouvida aqui ou lida aqui (ambos os links em inglês), os executivos da Disney mencionam repetidamente sua admiração pelo filme do Homem de Ferro, pela capacidade da Marvel em transformar esse personagem obscuro e de poucos admiradores em um grande sucesso e, mais importante, que esperam poder utilizar essa capacidade em processos similares!

Trocando em miúdos, o que a Disney quer mesmo é o pessoal que foi capaz de transformar o praticamente desconhecido Homem de Ferro em um filme de grande sucesso – e utilizá-lo para tentar tirar as produções não-Pixar da Disney do marasmo. Igualmente importante é retirar um concorrente do jogo.

Sim, a Marvel, tal como a Pixar no passado, era uma perigosa concorrente em potencial para a Disney! Devido à sua rápida expansão nas áreas em que esta exerce a maior parte de suas atividades (licenciamento e produção de filmes) e grande potencial de crescimento futuro, a Marvel era uma “mini-Disney” em incubação, a quarta maior empresa de licenciamento do mundo (Disney é a primeira…), e poderia a longo prazo se tornar um gigante do entretenimento capaz de ameaçar a própria Disney! E é sempre mais fácil comprar um competidor do que simplesmente tentar superá-lo em criatividade…

A “biblioteca de 5 mil personagens” da Marvel (dos quais menos de uma centena são realmente interessantes…) e seu potencial para licenciamento e adaptação para cinema também influenciaram na decisão, lógico. Ninguém em seu juízo perfeito (bem, exceto Steve Ditko…) abriria a mão de um Homem-Aranha! Mas no momento as jóias da coroa da Marvel estão comprometidas.

Como assim comprometidas? Bem, no afã de conseguir sair do vermelho no final da década de 90, a Marvel licenciou boa parte de seus personagens, aí incluindo Homem-Aranha, X-Men, Quarteto Fantástico e outros personagens envolvidos nas primeiras produções cinematográficas estreladas pelos heróis Marvel, para uma variedade de estúdios através de contratos extremamente desfavoráveis. Não apenas um sucesso do porte de um Homem-Aranha rende pouco à Marvel (até o dinheiro dos sublicenciamentos baseados no filme vai para os bolsos do estúdio!), como os contratos continuam válidos enquanto os estúdios produzirem filmes desses personagens! Quer dizer, uma franquia de sucesso como o Homem-Aranha pode ficar nas mãos da Sony por tempo indeterminado, gerando filmes extremamente lucrativos pelos quais a Marvel só recebe uma quantia mínima! Esse será um dilema que a Disney terá de enfrentar durante um bom tempo: Ver os personagens que ela pagou caro para adquirir estrelarem produções de estúdios rivais sem poder fazer nada para impedir. Por outro lado, isto também significa que a Disney tem planos para a Marvel de (muito!) longo prazo…

(Isso para não falar no potencialmente devastador processo movido pelos herdeiros de Jack Kirby contra a Marvel, visando recuperar os direitos dos personagens criados por aquele autor. Mas eu falarei sobre isso mais detalhadamente em um artigo vindouro.)

Portanto é quase certo que o preço inflacionado pago pela Disney foi menos pelo valor intrínseco da Marvel do que pelo interesse da Disney em absorver a qualquer custo uma concorrente em sua própria estrutura. Sem dúvida o administrador e principal acionista da Marvel, o hábil executivo Isaac Perlmutter, deve ter sido um fator importante na determinação desse valor, já que ele lutou durante anos com os outros acionistas da Marvel para obter o controle desta e não abriria mão dela tão facilmente. Aparentemente a negociação deve lhe render a impressionante soma de um bilhão e meio de dólares, o bastante para lhe colocar na cobiçada lista de bilionários da Revista Forbes, e ele ainda manterá o cargo de administrador da Marvel! Sem dúvida o melhor negócio de sua vida!

Mas e os quadrinhos nisso tudo?

Vocês devem ter percebido que até agora eu ainda não falei uma linha sobre o assunto que realmente interessa a maior parte dos leitores deste blog: Os quadrinhos da Marvel. Foi intencional! Embora estejam na origem da Marvel, os quadrinhos são hoje uma atividade secundária na empresa, menos rentável que licenciamento ou produção de filmes. Vejam a conferência da Disney que eu postei acima. Embora os executivos da Disney tenham passado cerca de uma hora respondendo questões de acionistas e interessados a respeito da fusão, apenas uma delas foi sobre quadrinhos! E o gaguejar do executivo que a respondeu indica claramente que ele não fazia a menor ideia do que dizer (e essencialmente falou apenas a resposta padrão de que eles estavam “estudando as possibilidades”). É mais do que óbvio que o pessoal da Disney não tem o mínimo interesse no assunto.

O que pode ser bom, já que significa que o departamento de publicações da Marvel pode não chamar muito a atenção e assim evitar ser sumariamente fechado.

Mas por que a Disney fecharia o departamento de quadrinhos da Marvel? A própria Disney não publica uma grande quantidade de HQs?

Bem, o que pouca gente sabe é que a Disney não publica uma única HQ nos EUA ou na maior parte do mundo. Durante quase toda a existência dos quadrinhos Disney  estes foram produzidos de forma terceirizada, por editoras licenciadas como a Western Publishing (onde trabalhava o grande Carl Barks), Gladstone (onde Don Rosa publicou suas primeiras histórias) e uma variedade de outras editoras, tanto americanas como estrangeiras. Nos EUA, fora as tiras de jornal (produzidas pela Disney mas distribuídas pela King Features) a Disney só publicou quadrinhos por um curto período de tempo (entre 1990 e 1993), com resultados desastrosos! Depois disso ela parece ter desistido de publicar diretamente. Hoje em dia seus personagens são publicados primariamente pela pequena editora Boom Studios, embora outras editoras publiquem uma ou outra coisa de quando em quando.

E o que isso significa? Significa que a Disney pode simplesmente fechar o departamento editorial da Marvel e licenciar os personagens para outra editora publicar! A Disney teria lucro do mesmo jeito, sem toda a dor de cabeça envolvida na criação do material. É uma possibilidade bastante forte  e não deve ser desprezada! Segundo diz Jim Shooter nesta entrevista, a Warner chegou a cogitar fazer isso com a DC Comics no início dos anos 80. Para uma Disney, que faz isso com seus próprios personagens, não seria particularmente difícil…

As consequências seriam uma redução brutal no volume de títulos da Marvel no mercado. Todo mundo gostaria de publicar Homem-Aranha ou X-Men, mas séries de pouco sucesso como Cavaleiro da Lua ou Hércules dificilmente veriam a luz do dia. Para quem acha que a Marvel é mais do que Homem-Aranha/X-Men/Vingadores (e eu considero que as melhores séries da Marvel são as de fora dessas linhas), isso seria uma desgraça.

Mas também é possível que, ignorando a crise (tanto a mundial quanto a dos quadrinhos) e os custos de manter um departamento editorial, a Disney decida manter a redação Marvel como está agora, talvez até trazendo seus próprios personagens (Mickey, Donald e cia.) para a égide editorial da Marvel. Afinal, a Disney é capaz de publicar quadrinhos quando vê nisso uma atividade lucrativa.

(E não custa recordar que o atual presidente da Disney Bob Iger é sobrinho-neto de Jerry Iger, antigo sócio de Will Eisner no estúdio de produção de quadrinhos Eisner & Iger. Vai que ele puxou o seu tio-avô…)

Por exemplo, na Itália após seu licenciador tradicional, a editora Mondadori, ter sido comprado pelo infame Silvio Berlusconi em 1988, a Disney passou a publicar diretamente suas HQs – e mantém-se com sucesso no negócio até hoje. Sinal de que é possível para a velha multinacional publicar quadrinhos de forma eficiente.

(Convém mencionar aqui que a Disney não impediu a publicação de seus quadrinhos na Itália durante o governo fascista de Benito Mussolini! Ou seja, pode-se dizer que a Disney preferia até Mussolini a Berlusconi…)

A filial italiana da Disney também parece ter iniciado uma interessante operação para portar suas HQs para o formato eletrônico, inclusive em inglês para os EUA! Sinal de que a Disney (italiana, pelo menos) acredita no futuro dos quadrinhos.

A Marvel teria uma estrutura de publicação muito mais adequada para os personagens Disney do que a Boom. Por exemplo, sua experiência na área de republicações de material antigo a permitiriam criar coleções de HQs Disney clássicas de autores como Carl Barks e Floyd Gottfredson, algo que uma editora modesta como a Boom teria dificuldade para realizar.

E vale dizer que a Disney possui um potencial inexplorado na área das HQs. Alguns anos atrás ela adquiriu os direitos dos personagens da finada CrossGen Comics, uma promissora editora de quadrinhos americana surgida no final dos anos 90 que tinha diversos conceitos interessantes mas apostou alto demais e acabou indo à falência. Embora parte do material antigo dessa editora seja hoje republicado pela pequena Checker Publishing, nenhum material novo em quadrinhos com esses personagens tem sido produzido.  O máximo que a Disney fez foi adaptar a série Abadazad de John Marc DeMatteis como livros infantis, com escasso sucesso. Ora, a Marvel emprega boa parte dos autores que trabalharam na CrossGen (por exemplo o desenhista de Guerra Civil Steve McNiven, que começou sua carreira naquela editora) e poderia “ressuscitar” boa parte desse material com facilidade. É algo que a Disney deveria levar em consideração.

Em suma, embora passar a publicar quadrinhos diretamente seja uma empreitada mais arriscada que o licenciamento puro e simples, tem um potencial de sucesso bem maior. Há até quem diga que isso poderia colocar os quadrinhos americanos de volta no gosto popular! Mas isso, obviamente, teria consequências ulteriores.

E quanto aos licenciantes já existentes?

Essa é a questão mais interessante. Fora dos EUA a Marvel na prática é controlada por sua licenciante internacional, a italiana Panini Comics, devido a contratos bastante favoráveis à empresa italiana feitos quando esta era ainda uma divisão da própria Marvel (entre 1994 e 1999). Por inércia a Marvel tem mantido esse status quo, já que a editora americana não parece ter muito interesse no que se passa fora das fronteiras do seu país. A Panini soube explorar muito bem esse trunfo, expandindo-se para uma série de países e dominando o mercado de quadrinhos em alguns deles, o Brasil por exemplo.

A Disney, por outro lado, toma bastante cuidado com seu licenciamento internacional – uma de suas grandes fontes de lucros! No caso dos quadrinhos, ela trabalha, geralmente há muitas décadas, com gigantes editoriais bem maiores que a Panini (como a Abril no Brasil, a Hachette na França e a Egmont na maior parte do norte da Europa). E na Itália, talvez o melhor cliente internacional tanto para as HQs Disney quanto as da Marvel, ela compete diretamente com a Panini!

Claramente isso não deve continuar assim por muito tempo.

Boa parte dos licenciantes internacionais das HQs Disney não se incomodaria de publicar também o material da Marvel, nem que fosse para anular a própria Panini, uma concorrente perigosa em vários desses mercados. A Disney italiana com certeza adoraria remover essa concorrente incômoda de uma vez por todas – e isso seria bastante simples, bastaria não renovar o contrato de licenciamento da Marvel quando este vencesse. As consequências seriam terríveis para a editora italiana!

(Vale adicionar aqui que os personagens da DC Comics, que a Panini também licencia – ainda que não exclusivamente como a Marvel – em boa parte do mundo, costumam vender muito menos que os da Marvel em todos os países, sem exceções. Os fãs que me desculpem, mas eles não seriam a tábua de salvação da Panini…)

Por outro lado isso poderia ser positivo para o quadrinho brasileiro, já que sem a Marvel a Panini poderia tentar competir com a Disney em escala mundial usando… A Turma da Mônica! Seria essa a única esperança para a editora italiana se ela fosse realmente privada dos personagens Marvel? Difícil dizer, mas seria muito interessante de se ver.

A falta de material também poderia impelir a editora italiana a licenciar – ou até produzir – mais quadrinhos, inclusive europeus (que afinal são o principal tema deste blog!), o que ajudaria a dinamizar o mercado de quadrinhos no ocidente, sempre algo positivo.

Em suma, embora seja cedo para dizer quais serão as reais consequências desse negócio (ou mesmo se ele será fechado, o que ainda não é uma certeza absoluta) para a indústria de quadrinhos, é provável que ele afete consideravelmente os mercados de quadrinhos tanto na Europa quanto no Brasil, o que mais do que justifica esta análise detalhada.

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