Ontem, dia 12 de agosto, faleceu subitamente o desenhista Mike Wieringo, vítima de um ataque cardíaco fulminante. Ele tinha apenas 44 anos de idade.

Mike Wieringo fazendo o que gostava mais, desenhar!

Nascido em Veneza, Itália, mas um cidadão norte-americano, Wieringo, como a maior parte dos artistas de quadrinhos de seu país, ganhou fama trabalhando em quadrinhos de super-herói, começando com a série do Flash – onde foi o criador visual do personagem Impulso, que ironicamente foi “morto” nas páginas de sua revista poucas semanas atrás – e seguindo depois para personagens como o Super-Homem, o Homem-Aranha (no qual trabalhou em parceria com seu melhor amigo, o escritor Todd DeZago) e o Quarteto Fantástico. Aliás seu último trabalho é exatamente uma mini-série com um encontro entre o Quarteto e o Aranha, escrita pelo jovem e talentoso escritor Jeff Parker.

Capa da encadernação do último trabalho de Wieringo, cujo lançamento está previsto para outubro nos EUA

Capa da encadernação do último trabalho de Wieringo, cujo lançamento está previsto para outubro nos EUA

Dono de um estilo energético e caricatural, Wieringo trabalhava em uma indústria de quadrinhos completamente inadequada para seus talentos. Seu estilo não fora talhado para retratar os rompantes de violência e a atitude exageradamente séria dos quadrinhos de super-herói modernos. Embora os outros artistas e os leitores mais iluminados admirassem seu óbvio talento, boa parte dos fãs criticava sua “falta de realismo” e “excessos caricaturais” (obviamente, personagens que voam por aí usando a cueca por cima da calça precisam ser mostrados da forma mais realista possível…). Esse paradoxo fez com que os períodos de Wieringo em títulos de ponta de super-heróis fossem relativamente curtos e espaçados.

Espetacular GIF animada mostrando os vários uniformes do Homem-Aranha desenhados por Mike Wieringo!

Em um dos intervalos, ele e seu amigo DeZago decidiram escapar do círculo vicioso dos super-heróis e criar uma série de fantasia para a Image Comics, Tellos. E é sobre este trabalho, ainda inédito em português, que eu falarei.

Uma das capas de Wieringo para a série original de Tellos

Uma das capas de Wieringo para a série original de Tellos

Tellos era, na aparência, uma série de fantasia perfeitamente convencional. Passada no mundo ficcional de Tellos (um mundo de fantasia clássico, com criaturas estranhas, navios voadores e tecnologia medieval), mostrava as aventuras de um garoto e seus amigos, um híbrido de tigre e humano e uma capitã pirata, que encontram um amuleto contendo um poderoso gênio. Porém esse amuleto é cobiçado por vilões inescrupulosos, que vão atrás dos heróis para se apoderar do referido amuleto.

Quadrinho da edição francesa de Tellos. Ironicamente, essa HQ fez muito mais sucesso na França do que em seu país de origem!

Quadrinho da edição francesa de Tellos. Ironicamente, essa HQ fez muito mais sucesso na França do que em seu país de origem!

Dito assim, parece a mais estereotipada série de fantasia possível (não que existam muitas dessas – ou mesmo UMA que seja! – no mercado de quadrinhos americano…), mas uma reviravolta inesperada próximo do final da série original recoloca toda a história em uma perspectiva diferente. Não entrarei em detalhes, claro, mas a série revela-se bem mais interessante do que parece a princípio! Toda a série original desenhada por Wieringo foi recentemente compilada nos EUA em um grande volume em capa dura, que porém ainda não fora posto à venda antes da morte do artista. Fica meu conselho para aqueles que não conhecem esse trabalho o adquirirem quando estiver disponível.

Capa da encadernação gigante de Tellos

Infelizmente, a revista não teve muita sorte. Durante sua publicação, DeZago e Wieringo resolveram se juntar a um grupo de autores capitaneado por Kurt Busiek e Mark Waid, que tinham decidido criar seu próprio selo de quadrinhos (um pouco nos moldes da Image original e dos extintos selos Legend da Dark Horse e Bravura da Malibu Comics) , o Gorilla Comics, lançado com grande fanfarra em 2000. Porém, os autores esperavam um financiamento externo que nunca veio e seu pesado investimento inicial em publicidade teve de ser pago pelos próprios autores. Tellos, até entao uma HQ lucrativa, entrou no vermelho e os dois criadores precisaram fechar a série inicial e correr atrás de trabalhos na Marvel e DC para pagar o prejuízo! Eventualmente ela retornou, novamente pela Image, mas o envolvimento de Wieringo foi reduzido a ocasionais capas e histórias curtas. A série, porém, era uma favorita do artista, que nunca escondeu sua vontade de voltar a trabalhar nela. Foi exatamente um desenho de Tellos o último trabalho que ele colocou em seu blog, dois dias antes de sua morte.

O último desenho do blog de Wieringo, retratando o protagonista de Tellos.

Apesar de fulgurante, a carreira de Wieringo foi demasiado curta. Seu primeiro trabalho profissional data de 1991, fazendo dele um dos raros desenhistas de quadrinhos a iniciar sua carreira depois dos 25 anos. Apesar disso, existe um excelente livro em inglês a respeito do artista, que detalha toda sua carreira em uma longa entrevista, ricamente ilustrada com muitos dos seus melhores desenhos. É o 9º volume da série Modern Masters, da sensacional editora norte-americana TwoMorrows Publishing, minha recomendação pessoal para os apreciadores deste artista de carreira tão brilhante quanto fugaz.

Capa da edição dedicada a Mike Wieringo

Descanse em paz, Mike Wieringo.