Disney compra a Marvel domingo, nov 15 2009 

Mickey na visão de um dos "pais" da Marvel, Jack Kirby

Mickey na visão de um dos "pais" da Marvel, Jack Kirby

(Desculpem a demora, mas esta notícia teve tantas ramificações nas últimas semanas que o artigo precisou ser reescrito diversas vezes.)

No que é possivelmente a notícia mais importante (e surpreendente) da indústria de quadrinhos este ano, a multinacional de entretenimento Walt Disney Company adquiriu Marvel Entertainment Inc., que inclui a Marvel Comics, por um valor estimado (baseado no preço a ser pago pelas ações da Marvel, que inclui troca de ações da Marvel por ações da Disney) em cerca de quatro bilhões de dólares!

Um negócio bastante impressionante por vários fatores. O primeiro e mais óbvio é a soma investida. A Disney está pagando o equivalente a metade do seu lucro anual, uma soma impressionante comparável ao Produto Interno Bruto de Ruanda, por uma empresa que no ano passado anunciou um lucro de… 200 milhões de dólares!

Simples aritmética determina que, para recuperar seu investimento (assumindo que o faturamento da Marvel continue o mesmo), a Disney teria de esperar 20 anos! Bem, é óbvio que a companhia fundada por Walt Disney não comprou a Marvel com o objetivo de recuperar seu investimento em 20 anos, seria ridículo pensar isso! Então qual é a motivação dela?

(mais…)

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Grandes revistas em quadrinhos – 2000 AD segunda-feira, abr 30 2007 

Pode parecer estranho depois de minha defesa apaixonada das livrarias como o futuro das HQs, mas eu sou grande apreciador das revistas em quadrinhos de banca. Em particular as antologias em estilo europeu, de formato grande e com várias séries, que sabem aproveitar as poucas páginas que têm (em geral não mais de meia dúzia por edição!) para contar uma história da forma mais direta e enxuta possível.

A Inglaterra tem uma grande tradição em revistas desse tipo, contando até com aquela que é (até onde meu limitado conhecimento chega) a mais antiga revista em quadrinhos do mundo: Dandy, publicada semanalmente desde 4 de Dezembro de 1937! Em comparação, a 2000 AD é muito mais recente (publicada pela primeira vez em 26 de Fevereiro de 1977, ela comemorou seu 30º aniversário apenas há poucos meses), mas sua importância mais do que excede os seus comparativamente poucos anos de existência.

2000 AD foi a herdeira direta da revista Action, uma revista de vida curta criada em 1976. Os criadores da Action foram a célebre dupla Pat Mills e John Wagner, que antes tinham criado o violento gibi de guerra Battle Picture Weekly. O sucesso deste levou Mills e Wagner a criarem uma publicação ainda mais violenta e amoral, a Action. Porém eles haviam passado da conta, a conservadora sociedade inglesa da época (não que hoje esteja muito melhor…) não podia tolerar uma revista assim e a Action foi corrida das bancas poucos meses depois. Ela acabou voltando, em uma versão mais “pasteurizada”, poucas semanas depois, mas essa nova encarnação não agradou os leitores e foi cancelada no ano seguinte.

Nesse meio tempo, Mills e Wagner criaram um segundo semanário, no estilo da Action (tendo aprendido com esta quais os limites que não deveriam ser excedidos…) e usando muitos dos mesmos criadores, mas com uma temática de Ficção Científica e ressuscitando um dos grandes clássicos da FC quadrinística britânica, Dan Dare, antiga estrela da mais famosa revista em quadrinhos inglesa de todos os tempos, a Eagle (1950-1970). Esta encarnação do personagem, porém, não teve grande sucesso, o que colocou as outras HQs da revista em maior evidência.

Capa da primeira edição da 2000 AD

Capa da primeira edição da 2000 AD

Fazendo companhia ao tradicional Dan Dare, uma série de HQs que definitivamente nunca teriam sido publicadas na tradicional Eagle: Invasion (violenta HQ de guerra que mostrava uma Inglaterra ocupada por uma potência estrangeira, o grande diferencial era seu protagonista, o brutal e vingativo Bill Savage), M.A.C.H.1 (mais convencional das séries novas – e maior sucesso da revista até a ascensão do Juiz Dredd – era basicamente uma cópia barata do Homem de seis milhões de dólares), Harlem Heroes (série esportiva futurista descaradamente inspirada nos Harlem Globetrotters) e a alucinada Flesh (mais perturbada das séries originais, partia do conceito de que no futuro a superpopulação acabara com a criação de animais de corte e a única alternativa para vender carne a uma faminta sociedade futurista era voltando no tempo para caçar dinossauros, o que teria sido a verdadeira causa da extinção dos bicharocos!).

Carne fresca!

A insana série Flesh, arte de Kevin O’Neil

Porém foi no segundo número da 2000 AD que surgiu o personagem que se tornaria o maior sucesso da revista e a imagem que vem à mente da maioria das pessoas quando se fala na revista, o Juiz Dredd!

Vendo esse post em restrospecto anos depois, eu tinha razão. O personagem nunca tinha sido publicado direito no Brasil...

O Juiz Dredd em todo seu explendor

Homem da lei de uma sociedade fascista futurista, Dredd é juiz, júri e executor, tendo autoridade para decidir (e executar) as penalidades judiciárias sobre todo aquele que quebrar uma das muitas leis que governam a cidade. Conceito genial, que permite contar um sem número de histórias, desde simples thrillers de ação, passando por sátiras político-sociais, até sofisticadas críticas ao totalitarismo, o personagem criado pelo escritor John Wagner e o desenhista espanhol Carlos Ezquerra (que ainda hoje trabalham na série!) logo se tornou o personagem mais popular da revista, posição que mantém até hoje. Seu sucesso determinou ainda a criação de uma revista mensal dedicada, a Judge Dredd Megazine, publicada até hoje, e diversas outras publicações de vida mais curta. Inúmeras outras séries ambientadas no universo de Dredd surgem regularmente na 2000 AD e na Judge Dredd Megazine, algumas fazendo bastante sucesso!

The Pit, grande história. Um dia consigo que a publiquem no Brasil!

Explosiva sequência de Dredd assinada por seu co-criador Carlos Ezquerra

Para além de Wagner e Ezquerra, diversos criadores se destacaram na criação das aventuras de Dredd, em particular o desenhista Brian Bolland, que deve boa parte de seu sucesso ao magnífico trabalho que fez no personagem. Hoje ele raramente faz trabalhos para a revista, fora ocasionais capas.

A deposição de Robert L. Booth

Magnífica capa de Brian Bolland

Apesar de diversas tentativas de publicação, Dredd nunca conseguiu se tornar popular no Brasil. Como é que uma alegoria para justiça a todo custo não consegue se estabelecer em um país em que boa parte das pessoas gostaria de ver a lei reprimindo o crime com a brutalidade de um Juiz Dredd é algo incompreensível, mas eu atribuo isso à falta de visão das editoras que o publicaram. Praticamente apenas as histórias curtas de Dredd saíram no Brasil, e quase todas elas têm um tom de paródia mais acentuado. Mas o personagem se tornou popular em seu país de origem devido às megasagas de centenas de páginas que se desenrolavam por meses na 2000 AD. Nessas tramas mais complexas é possível constatar que o personagem é muito mais do que a sátira uni-dimensional que pode parecer àqueles que conhecem apenas as histórias curtas! Juiz Dredd tem continuidade – e uma bastante rica até! Eu acho que a próxima editora a tentar publicá-lo no Brasil (vai acontecer algum dia, é inevitável…) deveria tentar traduzir alguma das sagas mais longas, ao invés de ficar só no material curto. É mais arriscado, eu sei, mas é a melhor chance do personagem emplacar!

Seis anos depois deste post, eu ajudaria a publicar essa saga no Brasil - com sucesso!

Capa do TPB de Total War, uma das melhores megasagas recentes de Juiz Dredd

Mas 2000 AD não é só Dredd! Diversos outros personagens e séries marcaram as páginas da revista ao longo dos anos. Eis alguns destaques:

Rogue Trooper é uma série de guerra futurista ambientada em Nu Earth (corruptela de New Earth – “Nova Terra”) um planeta destruído pelo interminável conflito entre duas facções, os Nortistas e os Sulistas. Fruto de uma experiência genética sulista, Rogue é um G.I. (Genetic Infantryman – “Infante Genético”), um entre vários humanóides artificiais criados em laboratório para sobreviver ao ambiente hostil do planeta arrasado. Porém a traição de um general corrupto levou à morte de seus companheiros. Foragido e considerado traidor por seus compatriotas, Rogue carrega a consciência de seus falecidos amigos em biochips especiais inseridos em sua arma, mochila e capacete, percorrendo o terreno inóspito de Nu Earth em sua infindável busca pelo general traidor, enquanto é caçado por ambos os lados!

Eu traduzi a série como Renegado sete anos depois...

Rogue Trooper

Criação do veterano escritor Gerry Finley-Day e do desenhista Dave Gibbons (que ganhou fama por seu trabalho na série), Rogue Trooper era uma eficiente crítica à guerra e ao belicismo. Sua caça ao “general traidor” cativou os leitores durante anos a fio, com Finley-Day e seus diversos artistas desfilando uma série de reviravoltas a cada passo do caminho, chegando até a ser mais popular do que Dredd!

Primeira e mais clássica capa de Gibbons para Rogue Trooper

Primeira e mais clássica capa de Gibbons para Rogue Trooper

Porém, logo após Rogue encontrar o general traidor, Finley-Day, um dos últimos escritores “profissionais” dos quadrinhos (ou seja, um escritor que trabalhava em HQs não por ser fã da mídia em si, mas por não ter encontrado outro trabalho) se aposentou, deixando sua criação órfã. Com sua trama principal resolvida, a série ficou sem direção e acabou deixando de publicada durante um bom tempo, até que o jovem escritor Gordon Rennie (uma das novas estrelas da 2000 AD) “ressuscitou”o personagem, criando novas aventuras ambientadas durante a caçada original ao general traidor.

Não foi a primeira vez que a 2000 AD voltou a publicar histórias de um personagem considerado finalizado usando o bastante óbvio expediente de ambientá-las no passado. A primeira vez fora com outra criação de Wagner e Ezquerra, Strontium Dog.

Ainda não consegui que esse personagem saísse no Brasil...

O caçador de recompensas Johnny Alpha, astro de Strontium Dog

Criado para a revista Starlord, uma das várias revistas de FC de vida curta criadas após a 2000 AD na tentativa de atingir o mesmo público, Strontium Dog se passava em um futuro após um conflito nuclear que contaminou a Terra com uma infinidade de elementos radioativos, entre eles o Estrôncio (Strontium), gerando uma série de mutações nos seres humanos. Esses mutantes foram segregados pelo resto da humanidade, tendo que sobreviver como criminosos ou caçadores de recompensas. Johnny Alpha é um deles, um mutante com olhos que emitem “ondas alfa” que o permitem ver através de paredes e manipular objetos, entre outros superpoderes. Um homem honrado em um ambiente corrupto, Johnny e seu parceiro Wulf Sternhammer são apenas dois entre os caçadores de recompensas conhecidos como os “Strontium Dogs”.

Johnny Alpha desenhado por Ezquerra

Johnny Alpha desenhado por Ezquerra

A popularidade do personagem permitiu que ele sobrevivesse ao cancelamento da Starlord e passasse para o elenco da 2000 AD, onde eventualmente se tornou o segundo personagem mais popular depois do Juiz Dredd. John Wagner e Alan Grant se alternam nos roteiros até hoje, com o incansável Carlos Ezquerra como principal artista (quando não está desenhando Dredd!). Curiosamente, tal e qual Rogue Trooper, a série “acabou” uns anos atrás e as aventuras atuais são “flashbacks” do período de caçador de recompensas de Johnny Alpha! Outro exemplo de como o final de uma série não significa necessariamente o fim de novas histórias (as HQs americanas fariam bem em aprender essa lição!). Como Juiz Dredd, Strontium Dog também gerou diversas outras séries estreladas por personagens do mesmo universo.

Durham Red, coadjuvante de Strontium Dog e estrela de uma série spinoff

Durham Red, coadjuvante de Strontium Dog e estrela de uma série spinoff

Outra HQ que fez a transição da Starlord para a 2000 AD foi Ro-Busters, série humorística criada por Pat Mills e estrelada por dois robôs de segunda mão, Ro-Jaws e Hammerstein (os nomes são “homenagem” à dupla de compositores britânicos Rogers e Hammerstein), que são salvos do desmanche para fazerem parte de uma equipe especializada em resgate, os Ro-Busters. Essa série teve sucesso mediano, mas quando Mills trocou o foco das aventuras para o tempo em que a dupla era parte de um grupo especial de soldados-robôs, os A.B.C. Warriors, a série rapidamente se tornou um dos hits da revista.

No filme do Dredd que existia quando eu escrevi isto, bem entendido!

Hammerstein, o protagonista de A.B.C. Warriors. Sim, ele aparece no filme do Juiz Dredd!

Parte do sucesso se deveu sem dúvida à arte da série, assinada por talentos do calibre de Kevin O’Neil, Brendan McCarthy, Simon Bisley e outros talentos, que complementaram habilmente os roteiros afiados de Mills. Atualmente a sérieé desenhada por Clint Langley, que faz uma espetacular combinação de montagens fotográficas com desenhos que dá à arte um realismo inesperado nesse tipo de trabalho, sem sacrificar o dinamismo essencial para uma boa HQ.

Hammerstein por Clint Langley. Sim, arte interior também é assim!

Hammerstein por Clint Langley. Sim, arte interior também é assim!

Outra criação de Mills é o celta Sláine. Uma das raras séries de fantasia da 2000 AD, Slaine é estrelada pelo guerreiro celta Sláine Mac Roth, uma espécie de Conan ambientado na mitologia celta. Desenhado originalmente por Angie Kincaid (ex-esposa de Mills), o celta foi depois desenhado por uma constelação de grandes artista, entre eles Glenn Fabry, Bryan Talbot e especialmente Simon Bisley, que desenhou sua história mais popular, The Horned God (já publicada no Brasil).

Slaine desenhado por Bisley

Slaine desenhado por Bisley

A série continua até hoje, apesar de ter perdido popularidade durante os anos 90, criticada pelo “excesso de misticismo barato”. O artista atual da série é novamente Clint Langley.

De lá para cá, o desenhista de Sláine passou a ser o igualmente talentoso Simon Davis

Capa de Langley para Sláine

Por fim, temos minha favorita pessoal entre as séries mais recentes, Nikolai Dante. Ambientada em uma Rússia czarista futurista, a série é protagonizada por um malandro charmoso e descolado, que se envolve nas intrigas políticas da corte czarista ao tomar posse inadvertidamente de uma arma simbiótica alienígena, que lhe dá, entre outras coisas, o poder de produzir lâminas cyberorgânicas no corpo. Mas o que ele quer mesmo é diversão, bebida e mulheres!

Nikolai Dante na bela arte de Simon Fraser

Nikolai Dante na bela arte de Simon Fraser

Criado pelo escritor Robbie Morrison e o talentoso artista Simon Fraser, Dante obteve um sucesso inesperado devido à sua combinação de humor escrachado, intriga sofisticada e drama pessoal com doses de erotismo e sensualidade raramente vistas na revista.

Espetacular capa de Fraser para um dos TPBs de Nikolai Dante

Espetacular capa de Fraser para um dos TPBs de Nikolai Dante

Certamente a mais “europeia” (continental, no caso) das HQs da 2000 AD, a série ainda é desenhada por Fraser até hoje, alternando com o mais tradicional John Burns, um dos últimos representantes da arte tradicional dos quadrinhos britânicos.

Exemplo da arte mais tradicional de John Burns em Nikolai Dante

Exemplo da arte mais tradicional de John Burns em Nikolai Dante

Apesar de um rol de personagens incrível como este (e eu citei apenas uns poucos exemplos, há muitos mais de onde estes vieram!), a 2000 AD teve a mesma carreira atribulada de outras revistas britânicas. Particularmente após o espetacular fracasso do filme do Juiz Dredd, que criou uma imagem errônea do personagem na mente do público, a 2000 AD atravessou um sério período de crise nos anos 90. Boa parte dos criadores originais, incluindo a insubstituível dupla Pat Mills e John Wagner, se afastara da revista e seus substitutos (Garth Ennis, Mark Millar e outros autores de segunda categoria que eventualmente fariam sucesso nos EUA após fracassarem no mercado britânico) não se mostraram à altura. Porém a aquisição da revista pela empresa de videogames Rebellion deu novo gás à publicação, promovendo o regresso dos autores clássicos e o surgimento de uma nova geração de criadores, que substituiu aqueles que fracassaram nos anos 90. A recente publicação de numerosas encadernações republicando séries de sucesso da revista também ajudou, levando o material da 2000 AD até o público das livrarias e lojas de quadrinhos.

Apesar de seu ano de batismo já ter passado há um bom tempo, a 2000 AD continua em frente. Ela é publicada toda semana na Inglaterra (exceto por três semanas de Dezembro, quando uma edição anual gigante a substitui nas bancas), tem 32 páginas em formato magazine e papel razoável (o LWC mais simples que se pode imaginar, usado até na capa!), com impressão apenas decente o bastante para reproduzir nesse papel as séries pintadas mais complexa. A revista é colorida, embora haja quase sempre alguma série P&B sendo serializada nela. Cada edição contém em média 5 histórias de 5-6 páginas cada. Custa razoáveis £ 1,75. Há também duas revistas derivadas, a Judge Dredd Megazine (mensal, com mais páginas e histórias mais longas, ambientadas geralmente no universo do Juiz Dredd) e a 2000 AD Extreme (bimestral, republica histórias antigas que ainda não saíram em encadernações, geralmente material mais obscuro).

A revista chegou a ser publicada no Brasil pela Ebal, em edições iguais às inglesas! Alguns dos seus personagens, como Juiz Dredd, Slaine e Zênite, receberam publicações ocasionais no Brasil, mas nunca conseguiram realmente se firmar. Em Portugal, ela é quase completamente desconhecida, embora a edição inglesa possa ser encontrada em alguns pontos de venda. Considerando a quantidade de HQs norte-americanas publicadas em português, é incompreensível que a maior parte do material da 2000 AD nunca tenha sido traduzido até hoje! Vale notar que foi de lá que saíram muitos dos autores que eventualmente fizeram sucesso nos comics americanos, como Alan Moore, Dave Gibbons, Grant Morrison, Kevin O’Neil, Brian Bolland e muitos, muitos outros!

Resenha: The Hedge Knight HC segunda-feira, abr 23 2007 

Apesar do nome do blog, eu não me proponho somente a falar dos quadrinhos europeus (embora sejam o assunto principal). Também pretendo falar de HQs de outras procedências, já que eu leio quadrinhos de tudo quanto é lugar, sem preconceitos.

The Hedge Knight é uma adaptação de um conto do escritor norte-americano George R. R. Martin (também criador da série de livros Wild Cards, que inclusive já teve uma versão em quadrinhos publicada no Brasil pela Editora Globo). Ele foi publicado originalmente na antologia Legends, editada por Robert Silverberg. A ideia dessa antologia era publicar contos de autores de séries de fantasia consagradas passados nos mesmos universos dessas séries. Assim seria possível, ao menos em teoria, divulgar os trabalhos de todos autores aos leitores de cada um deles. Com nomes de peso do gênero como Stephen King, Robert Jordan e até, no segundo Legends, Neil Gaiman envolvidos, o sucesso comercial também parecia inevitável. Porém as antologias não tiveram tanto sucesso assim e acabaram se tornando mais uma curiosidade para os leitores desses autores procurarem do que uma forma de divulgação eficiente. Um desses contos era The Hedge Knight, de autoria de Martin e passado no mesmo universo de sua consagrada série A Song of Ice and Fire, embora ambientado muitos anos antes dos eventos desta.

Enquanto isso, os irmãos Ernst, Lester, Pascal e David Dabel fundaram um pequeno estúdio de produção de quadrinhos. Os assim chamados Dabel Brothers logo começaram a publicar suas HQs, primeiro em parceria com a Image Comics, depois com a pequena e ambiciosa editora Alias, do polêmico artista Mike S. Miller. Tentando descobrir uma forma de sobreviver no impiedoso mercado norte-americano, eles decidiram tentar uma ambiciosa adaptação para quadrinhos da série de livros A Song of Ice and Fire.

Porém Martin prudentemente achou que um estúdio de pequeno porte como o dos Dabel não teria capacidade de executar a titânica tarefa de adaptar a série (que conta atualmente com três livros de mais de 800 páginas cada – muito maior que O Senhor dos Anéis!) para quadrinhos e sugeriu que ao invés disso eles adaptassem Hedge Knight, uma história muito mais curta.

Justiça seja feita, os irmãos lançaram-se nessa adaptação sem dar qualquer sinal de ressetimento por terem sido forçados a trabalhar em um “prêmio de consolação”. Rapidamente montaram uma talentosa equipe, com Ben Avery no argumento, o próprio Mike Miller na arte e um grande número de autores de fantasia de peso nas capas (Boris Vallejo, os irmãos Hildebrant, Mike Kaluta, etc.), e publicaram uma mini-série em 6 edições que foi o maior sucesso da pequena editora. A encadernação que se seguiu obteve um sucesso ainda maior nas livrarias americanas, sem dúvida impulsionada pelo nome de Martin.

O sucesso do lançamento abriu as portas para os irmãos publicarem outras adaptações de autores de fantasia (em particular daqueles presentes em Legends) e, eventualmente, fazerem uma parceria com a poderosa Marvel Comics, que é a atual editora dos Dabel e a responsável pelo livro que eu vou (finalmente!) resenhar.

Capa da edição em capa dura de The Hedge Knight

O livro conta a história de Dunk, escudeiro de limitada inteligência mas boa índole de um envelhecido cavaleiro andante. A repentina morte de seu mestre faz com que ele tome uma decisão ousada: Entrar no torneio de cavalaria para onde seu amo se dirigia e, dessa forma, poder tornar-se também um cavaleiro. Porém um encontro casual com o garoto “Egg” (“Ovo”), que ele adota como seu próprio escudeiro, muda sua vida e acaba por colocá-lo em uma situação em que toda sua vontade de ser cavaleiro é posta em jogo.

Capa alternativa da mesma edição, para quem não gosta que suas HQs parecam HQs...

A história original é, como seria de se esperar do trabalho de um autor literário de talento, absolutamente espetacular, com uma impressionante quantidade de reviravoltas inesperadas, personagens bem construídos e, algo absolutamente inesperado para um trabalho que não se propõe como histórico, uma das melhores representações de um torneio medieval já feitas na ficção! Na minha humilde opinião, superior até ao clássico Ivanhoé de Walter Scott! A adaptação feita por Avery é bastante fiel ao texto original e, algo raro em adaptações, não perde nada em relação ao texto original.

Aliás, pode-se argumentar que até oferece mais do que este, pois é complementada pela bela arte de Miller, que se revela surpreendentemente hábil na complexa tarefa de desenhar armaduras, cavalos, ambientação medieval e o imenso elenco de personagens da história (há pelo menos duas dúzias de personagens “nomeados”!) sem comprometer a qualidade do seu trabalho nem ceder à tentação de fazer uma “fotonovela” das partes mais importantes da história original, um hábito tristemente comum em adaptações para quadrinhos de obras literárias. Sua narrativa e cenas de ação são tão dinâmicas (ainda que ocasionalmente confusas) quanto qualquer HQ de super-herói, mas estão sempre a serviço da história. Apesar de suas posições ideológicas polêmicas e ética pessoal duvidosa, Miller se revela neste trabalho um artista de primeira categoria, a ponto de ter sido chamado para desenhar a adapatação da segunda história dos personagens (que está prestes a ser publicada nos EUA) mesmo após sua ruptura com os Dabel, por exigência do próprio Martin, que ficou bastante impressionado com a arte da HQ. Justificadamente!

Espetacular capa de Mike Miller para a mini-série

Vale mencionar as capas das edições individuais da mini-série. Cada uma delas teve duas capas (política questionável porém comum nos EUA), geralmente uma desenhada por Miller e a outra por algum grande artista de fantasia. Valem mencionar que mesmo aí Miller mostrou talento, produzindo diversas capas que não ficam atrás das que os outros capistas fizeram! Todas elas estão no HC da Marvel, à exceção de uma, assinada pelos irmãos Hildebrant, reproduzida abaixo.

Capa dos irmãos Hildebrant, ausente da edição da Marvel

A edição da Marvel contém também uma curta amostra (meia dúzia de páginas) da próxima mini-série da equipe, que adapta a história de Martin originalmente publicada no segundo Legends. A julgar pela amostra, a segunda adaptação manterá o alto nível de qualidade da primeira!

Por fim, a edição em si tem capa dura e sobrecapa, papel couchê grosso de alta qualidade e impressão excepcional, com valores de produção comparáveis aos melhores álbuns europeus! Algo que seria praticamente impossível de se ver em uma HQ norte-americana de alguns anos atrás, mas parece estar cada dia mais comum. E, ao menos neste caso, o conteúdo está à altura da edição!

Em suma, uma HQ de qualidade excepcional que mais do que merece uma edição em português. Como é publicada pela Marvel, a editora lógica para uma edição em português (seja em Portugal ou no Brasil) seria a Panini, que faria bem em publicar essa história (e outras das adaptaçãoes de fantasia dos Dabel Brothers) ao invés de alguma mini-série descartável de um super-herói qualquer.

Saindo um pouco dos quadrinhos, também recomendo também a leitura dos livros de George R. R. Martin, em particular da série A Song of Ice and Fire, que transcendem a literatura de fantasia normal (geralmente um amealhado de chavões reciclados da obra de J. R. R. Tolkien), sendo inspirados não em O Senhor dos Anéis mas na Guerra das Duas Rosas, e repletos de tramas bizantinas, personagens ambíguos, diálogos memoráveis e ocasionais sequências de ação desenfreada. Leitura altamente recomendada!