Falecimento de Marcel Gotlib terça-feira, dez 6 2016 

Este domingo, dia 4 de Dezembro de 2016, foi um dia triste na França. Ele foi marcado pelo desaparecimento daquele que foi um dos maiores autores de quadrinhos de humor de todos os tempos, Marcel Gotlib.

Eu via as animações com a joaninha no Cartoon Network!

Marcel Gotlib e sua personagem mais famosa, a Joaninha.

A história de vida de Marcel Mordekhaï Gotlieb (seu nome verdadeiro) não sugere que ele um dia se tornaria um grande humorista. Nascido em Paris no dia 14 de Julho (data nacional francesa) de 1934, Gotlib era filho de imigrantes judeus húngaros, o que lhe valeu uma série de infortúnios durante a Segunda Guerra Mundial. Seu pai, que o jovem Gotlib idolatrava, foi preso e deportado em 1942, morrendo no campo do concentração de Buchenwald em 1945. Por ser uma criança judia, Gotlib foi obrigado a usar uma estrela amarela nas roupas e escapou por muito pouco de ter o mesmo destino do seu pai. Sua mãe enviou ele e sua irmã mais nova para uma família de acolhimento no interior da França, que os abrigou durante a maior parte da ocupação nazista. Todo esse sofrimento foi demasiado para a pobre senhora, que ficou com graves sequelas psicológicas. Ao reencontrar a mãe após a guerra, o pequeno Marcel ficou aturdido quando esta não o reconheceu!

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Grandes personagens dos quadrinhos – Spirou e Fantasio domingo, fev 14 2016 

A editora SESI-SP anunciou há poucos dias que publicaria a série Spirou e Fantasio, uma das mais famosas da Bélgica. Mas quem são esses personagens, tão pouco conhecidos dos brasileiros? Bem, a história deles confunde-se com a da revista em quadrinhos Spirou, que é publicada na Bélgica até hoje.

Nem Spip leva Fantasio a sério...

O trio de protagonistas na visão da dupla Tome e Janry. Da esquerda para a direita, Spirou, o esquilo Spip e Fantasio.

No (admitidamente longo) texto abaixo eu vou dar um resumo da história da série, que é a mais importante HQ não-autoral de língua francesa. Não se assustem com o tamanho, que vale a pena a leitura!

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A morte de Jean “Moebius” Giraud segunda-feira, mar 19 2012 

Escrevi este texto no último dia 10 para marcar o falecimento do grande Jean “Moebius” Giraud. Esta é uma versão revista e ampliada para o blog:

Poucas pessoas têm a honra de se tornar uma lenda em seu próprio tempo. Menos ainda podem ser consideradas os nomes mais importantes da sua área. Jean Giraud, o Moebius, falecido hoje cedo na França, era as duas coisas.

Nada mais justo que um desenho de Enki Bilal para homenagear Moebius...

Capa do jornal Libération em homenagem a Moebius. Arte de Enki Bilal.

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Fui no lançamento do novo Asterix! quinta-feira, out 22 2009 

Na noite do dia 21 para o dia 22 de Outubro aconteceu o lançamento mundial do novo álbum de Asterix, O aniversário de Asterix e Obelix, o livro de ouro.

A bela capa do novo álbum de Asterix

A bela capa do novo álbum de Asterix

O evento foi celebrado nos dezoito países em que o álbum foi publicado simultaneamente, com a impressionante tiragem total de 3,5 milhões de exemplares. Portugal é um deles (a tiragem lusa é de 60 mil exemplares, número bastante alto para o país). Fã incondicional da série, decidi desbravar a chuva forte que caía sobre Lisboa para participar do lançamento do álbum. O que eu não faço por um Asterix!

Ao chegar ao local do lançamento (a livraria FNAC do Centro Comercial Colombo, para os curiosos), notava-se logo a decoração temática, com direito até à presença dos próprios Asterix e Obelix (atores fantasiados, claro). Nada menos que duas emissoras de TV estavam cobrindo o evento, a estatal RTP e a privada TVI! Curiosamente no mesmo local se realizara poucas horas antes um acontecimento que se revelou menos mediático… O lançamento do Windows 7! Melhor sorte da próxima vez, Bill Gates…

Na palestra estavam presentes a editora de quadrinhos da Asa Maria José Magalhães Pereira, o jornalista especializado Carlos Pessoa e o filho do primeiro editor de Asterix (e de Tintim) no país, Adolfo Simões Müller. Este visionário editor (que completaria 100 anos em 2009) foi o responsável por Portugal ter sido o primeiro país do mundo a traduzir Asterix (e, novamente, Tintim!), portanto a presença do seu filho no evento foi bastante simbólica. A palestra centrou-se no tema da tradução dos nomes dos personagens da série, polêmica recorrente em Portugal desde que a prática se iniciou, na passagem da série para a égide editorial da Asa. Algo de  interesse limitado para os leitores deste blog.

Então vamos ao que realmente interessa: O álbum em si!

Esta é, como prometido, uma coleção de histórias curtas e ilustrações, efetivamente recolhendo todo o material “de arquivo” que ainda sobrava do personagem. Há até um divertidíssimo texto de René Goscinny (devidamente ilustrado por Albert Uderzo, que continua um desenhista de talento inquestionável) sobre as férias na Gália, que apesar de seus mais de 40 anos de idade mantém a verve cômica do escritor original da série. Lamentavelmente é o único material dele presente no álbum.

Este abre com uma ótima sequência inédita mostrando Asterix e Obelix cinquenta anos mais velhos, em referência ao cinquentenário dos personagens comemorado pelo álbum. A visão dos gauleses envelhecidos é bem mais engraçada do que parece à primeira vista e a sequência termina com uma divertida participação especial do autor Uderzo, que tem um certo tom de despedida.

Tom este também presente nos prefácios assinados por “Asterix” (certamente o próprio Uderzo, um tanto auto-congratulatório demais para o meu gosto) e Anne Goscinny, que derrete-se em elogios ao colega de seu pai e nas sequências de ligação entre as várias histórias do álbum. Que são, por sinal, o seu principal problema.

Ao invés de colocar as histórias separadamente, como em Asterix e a volta às aulas (Asterix e o regresso dos gauleses, na edição portuguesa), Uderzo decidiu ligar as histórias (e até as várias ilustrações, que correspondem a cerca de metade do conteúdo do álbum) com um fio condutor narrativo extremamente tênue. Isso não favorece o material e acaba resultando em um todo inferior à soma das partes. O que é uma pena, porque algumas partes são excelentes.

Vale destacar, por exemplo, uma história curta que mostra Obelix tentando aprender a ler (publicada anteriormente na revista literária francesa Lire), os “erros de gravação” do álbum Asterix e Latraviata (sinceramente bem melhores que o álbum em si…) e até uma série de pinturas de Asterix parodiando obras de arte clássicas, curiosamente similar a uma iniciativa mais antiga de Mauricio de Sousa, História em quadrões! O resultado ficou melhor que o do Mauricio (não há como negar que Uderzo é um desenhista mais habilidoso), mas não soa muito original para quem já viu o trabalho do autor brasileiro.

Curiosamente o álbum fecha com uma história curta que mostra a única piada escatológica dos cinquenta anos da série. Penso que Asterix poderia ter ficado sem isso, mas se for verdade que Christophe Arleston será realmente o sucessor de Uderzo nos argumentos, isso é algo com que os leitores terão de se acostumar…

No final, Uderzo até agradece a seus assistentes Régis Grébent e os irmãos Frédéric e Thierry Mébarki (os mesmos que nomeou como sucessores em uma entrevista recente para o Journal du Dimanche), algo bastante raro entre autores de quadrinhos. Uma iniciativa louvável!

Enfim, como eu disse o resultado é inferior à soma das partes. Eu considero que o álbum vale a compra, é certamente superior ao muito criticado volume anterior e possui várias gemas escondidas entre suas páginas, mas é um álbum de altos e baixo, prejudicado pela tentativa de Uderzo de “amarrar” tudo à força. O que, de certa forma, faz dele o final apropriado para o período “solo” de Uderzo na série.

Tintim no País do Racismo? terça-feira, jul 17 2007 

É, as atualizações deste blog continuam raras. Mea culpa! Porém uma notícia recente arrancou-me do meu imobilismo. O velho álbum Tintim no Congo* (Tintim na África na antiga edição brasileira da Record) foi alvo de uma virulenta crítica pela CRE (Comission for Racial Equality – Comissão pela Igualdade Racial do Reino Unido), instituição pública inglesa que combate a discriminação racial. O comunicado diz que a HQ contém “imagens e textos de horrendo preconceito racial” e que ela não deveria ser vendida e sim “ser exposta em um museu, com um grande cartaz dizendo ‘velho lixo racista'”. A CRE afirma que o comunicado foi emitido a pedido de um homem que vira o álbum à venda em uma livraria e teria ficado profundamente ofendido com ele.

Eu adquiri posteriormente essa edição britânica e ela vem com uma página de aviso sobre o conteúdo e é envolta por uma faixa vermelha com os mesmos avisos. Não é falta de aviso!

Capa do álbum que gerou toda a polêmica

O comunicado gerou dois resultados: A cadeia de livrarias onde estava sendo vendido o álbum em questão, Borders, o transferiu da seção infantil onde estava para a de material adulto e as vendas do álbum dispararam por todo o Reino Unido, subindo cerca de 3.800%!

Os Studios Hergé, donos dos direitos do personagem, responderam usando a argumentação tradicional, de que o álbum é um produto de seu tempo, que Hergé admitia ser fruto de sua mentalidade da época, mas o mantinha quase inalterado para servir como “testemunho de sua época”. Pierre Assouline, biógrafo de Hergé, também defendeu o álbum em seu blog no jornal Le Monde, com uma argumentação similar.

A polêmica envolvendo a HQ é bastante antiga. Ela foi a segunda aventura de Tintim, publicada entre 5 de junho de 1930 e 11 de junho de 1931 no semanário belga Le Petit Vingtième, de ideologia católica fortemente conservadora. Curiosamente, o autor Hergé não queria mandar seu personagem para uma aventura africana e sim para os EUA (o que faria na aventura seguinte), mas foi obrigado a isso pelo diretor do semanário, o abade Wallez, que desejava convencer os jovens leitores da validade da colonização belga do país africano.

Nunca tendo saído da Bélgica, Hergé procurou documentação para retratar o Congo. Porém, tal como no álbum anterior e no seguinte, suas fontes não foram particularmente boas, pois o resultado foi uma visão demasiado estereotipada da África. Hergé mais tarde admitiria que sua visão dos africanos fora influenciada pela crença corrente na época de que os negros eram como crianças ingênuas, que precisavam da “sabedoria” dos brancos. Esse paternalismo está por todo o álbum que, ao considerar os africanos como ingênuos, revela-se ele próprio fruto de uma visão bastante ingênua, que era a de Hergé na época.

Vale dizer que o álbum pode ser paternalista, mas não é realmente racista. Em nenhum momento o álbum (ou o personagem) demonstra ódio contra os nativos! Ele os mostra em geral como figuras simpáticas, ainda que algo dependentes de Tintim. O que, na verdade, não é muito diferente dos personagens dos outros álbuns da série, uma vez que Tintim, herói perfeito por natureza, tendia sempre a ajudar aqueles que encontrava pela frente. Se isso é uma visão racista, então Tintim é racista com todo o mundo que encontra!

A forma com que os negros são retratados, com as feições exageradas das caricaturas da época e falando um francês capenga, também é similar à forma como eles eram retratados nos quadrinhos daquele tempo. Por exemplo, nas primeiras tiras de jornal do Mickey, escritas pelo próprio Walt Disney, o famoso camundongo vai parar em uma ilha distante habitada por canibais que eram retratados da mesmíssima maneira. A única diferença é que Hergé nunca teve o mau gosto de retratar negros como canibais…

Por que Walt Disney não é chamado de racista?

Também vale notar que Hergé desenhava todos os seus personagens, independentemente da origem, de forma caricatural.

Na sua versão original em preto e branco, a HQ era sim fortemente colonialista. Mas em 1946, quando Hergé redesenhou a aventura para a nova versão a cores (que é a mais conhecida hoje em dia), ele retirou boa parte das referências coloniais. Porém não “pasteurizou” o álbum, mantendo o paternalismo e a violência contra os animais presentes na versão original.

Na versão original, Tintim mostra a seus alunos nativos sua “pátria”, a Bélgica. Na versão colorida, a cena foi “suavizada” para uma simples lição de aritmética.

Por sinal, essa violência contra animais presente por todo o álbum é muito mais chocante que o paternalismo de Tintim. Ou pelo menos o foi para mim quando li a HQ pela primeira vez na infância. Tintim mata indiscriminadamente macacos, elefantes e, em uma cena inspirada em um livro de André Maurois, toda uma manada de antílopes! A associações de defesa dos animais têm muito mais do que se queixar deste álbum do que as de combate ao racismo!

Tintim pratica tiro ao alvo com um crocodilo em uma das cenas menos violentas do álbum

Ele chega ao requinte de explodir um rinoceronte com dinamite! Sério! Isso foi demais para a editora Egmont, que publica o personagem na Escandinávia e no Reino Unido e pediu para Hergé fazer uma versão menos violenta do encontro com o animal, que está presente nas edições desses países (todas as de língua portuguesa até hoje mantiveram a cena original).

Tomado por um inexplicável furor terrorista, Tintim explode um pobre rinoceronte inocente, que nunca soube o que lhe atingiu!

Toda a polêmica que gira em torno do álbum há anos fez com que sua publicação em francês fosse interrompida em finais dos anos 50. Durante mais de 10 anos o álbum juntou-se ao então lendário Tintim no País dos Sovietes no limbo dos quadrinhos. Ironicamente, ele voltou a ser publicado por iniciativa de uma revista… Do próprio Congo** (já independente, na altura chamado Zaire)! Esta fez diversos elogios à obra em suas páginas no início dos anos 70, estimulando a republicação do álbum por todo o mundo.

Artesanato congolês inspirado em Tintim

Artesanato congolês inspirado em Tintim

Todo? Não! Uma pequena aldeia inglesa continuou resistindo! Os ingleses ainda rejeitaram uma edição britânica do álbum por muitos anos, até finalmente cederem em 1991 (!), curiosamente publicando um fac-símile da edição original em P&B do álbum, ainda com todo seu ranço colonialista intacto.

Capa da primeira edição inglesa, em P&B

Somente em 2005 a editora inglesa Egmont cedeu ao apelo dos fãs e aceitou publicar a edição colorida, que recebeu uma cautelosa introdução de autoria dos tradutores explicando o contexto do álbum para evitar polêmicas racistas. Infelizmente não parece ter resultado. Ainda assim, a primeira tiragem de 30 mil exemplares foi vendida rapidamente, mais uma vez confirmando o duradouro sucesso do personagem com o público!

Ironicamente, o ataque do CRE parece ter apenas aumentado ainda mais o interesse deste pelo álbum. Nos poucos dias passados desde a emissão do comunicado, a instituição recebeu críticas por todos os lados, enquanto o álbum foi defendido como um clássico da literatura que exprime o pensamento de sua época, por mais equivocado que fosse. O que é um tipo de valorização que Tintim nunca tivera antes em um país de língua inglesa! Os detratores da série podem ter conseguido então o que os esforços de décadas de Hergé e seus sucessores nunca conseguiram: Popularizar Tintim nos países anglo-saxônicos!

Uma crítica muito mais eficiente à história foi feita recentemente por Joann Sfar. No quinto álbum de sua famosa série O Gato do Rabino (editada no Brasil pela Jorge Zahar, atualmente no segundo volume), Jerusalém da África, Sfar inclui uma aparição relâmpago do jornalista belga, mostrado como um chatíssimo branco com mania de dar lições de moral para todas as pessoas que vê pela frente e atirar em todos os animais que se mexem. A hilária sequência é muito mais devastadora para essa aventura de Tintim do que a censura de uma instituição pública que acaba se revelando muito mais paternalista que a obra que pretende criticar.

* Convém mencionar que a Companhia das Letras, atual editora da série no Brasil, já anunciou que sua nova edição do álbum utilizará realmente o título Tintim no Congo, tradução literal do título original, ao invés da mais tradicional tradução brasileira Tintim na África, utilizada na antiga edição da Record. A história também já foi conhecida pelo título Tim-Tim em Angola quando de sua primeira publicação em língua portuguesa, na revista lusa O Papagaio, nos anos 30, que mostrava “Tim-Tim” como um repórter lusitano, apropriadamente visitando a então colônia portuguesa de Angola.

** Para desespero dos intelectuais europeus, este álbum em particular é de longe o mais popular e apreciado do personagem na própria África. Os africanos demonstrando possuir muito mais senso de humor que seus “defensores”…

Palestra com David B. quinta-feira, jun 7 2007 

Novamente a falta de tempo me fez negligenciar o blog por um período demasiado longo. Tentarei compensar nos próximos dias.

Todo esse tempo de ausência fez com que eu não comentasse uma palestra do artista David B. (pseudônimo de Pierre-François Beauchard) que eu assisti mês passado no Instituto Franco-Português de Lisboa. O autor fora convidado para o Festival Internacional de BD de Beja e o Instituto, sabiamente, aproveitou sua curta passagem por Lisboa para convidá-lo a dar lá uma palestra.

Foto do autor. Infelizmente eu não tirei fotos da palestra.

Foto do autor. Infelizmente eu não tirei fotos da palestra.

David B. foi, junto com outros seis autores, um dos fundadores da célebre editora francesa L’Association em 1990. A editora revolucionou o mercado francês, introduzindo uma série de formatos e temáticas antes impensáveis na então altamente conservadora indústria de quadrinhos franco-belga.

Dono de um estilo enganadoramente simples, mas capaz de desenhar páginas de composição arrojada e possuidor de um excelente domínio das técnicas do chiaroscuro, o autor virou uma lenda entre os autores de quadrinhos “alternativos” ao criar a série L’Ascension du Haut Mal (que está para ser publicada no Brasil com o título de “Epiléptico”, pela editora Conrad), publicada pela L’Association entre 1996 e 2003, que aborda a relação entre o autor e seu irmão, vítima de epilepsia, de uma forma inovadora, quase onírica. A série foi bastante premiada e traduzida em diversas línguas.

Exemplo das belas composições de página de David B.
De lá para cá, David B. participou de muitos outros projetos, sozinho ou em parceria com outros autores, como Christophe Blain(de Isaac o Pirata) e Joann Sfar(O Gato do Rabino). Em 2005 deixou a editora que ajudara a fundar e passou a publicar primordialmente pela nova encarnação da editora Futuropolis, onde ainda se encontra.

Apesar de ter ficado famoso por seus trabalhos autobiográficos, David B. já fez uma infinidade de quadrinhos sobre outros temas, em particular falando de seus sonhos surreais, uma grande influência em toda sua obra.

Na palestra, falada em francês, David B. falou sobre todos esses assuntos e diversos outros. Explicou as razões que o levaram a deixar a L’Association (essencialmente ele rompeu com o cacique da editora, Jean-Christophe Menu), falou sobre sua vida e seus projetos. Não vou escrever aqui tudo o que ele falou, mas devo dizer que foi uma palestra assaz interessante.

Vale também adicionar que, caso único entre todas as vezes em que eu assisti palestras de autores de quadrinhos estrangeiros, fosse em festivais ou em eventos pontuais como este, a livraria do Instituto teve o cuidado de trazer e colocar à venda todos os trabalhos do autor disponíveis na França! Uma medida aparentemente óbvia, mas que eu nunca vira antes posta em prática! Certamente valeu a pena, já que quase todos os que assistiram a palestra (pouco mais de uma dúzia de pessoas) saíram de lá com um ou mais álbuns recém-comprados nas mãos (eu inclusive). Ouso dizer que esse tipo de boa visão comercial é uma das razões da prosperidade do mercado francês…

Entre o material que adquiri estão as duas mais recentes obras do autor, publicadas pela Futuropolis, que eu comentarei a seguir:

Capa de Le jardin armé et autres histoires

Capa de Le jardin armé et autres histoires

Le jardin armé et autres histoires é uma coleção de três histórias (duas delas serializadas na antiga revista Lapin da L’Association), que abordam temas ligados à religião e os conflitos criados pelo fanatismo, mas dentro de uma ambientação fantástica e sobrenatural.

Na primeira história, Le prophète voilé (“O profeta velado”), um homem tem o rosto coberto por uma misteriosa faixa de tecido e transforma-se no profeta velado, um poderoso conquistador e líder religioso que eventualmente desperta a atenção do famoso califa Harun al-Rashid, que por sua vez precisa descobrir uma forma de destruir este oponente sobrenatural. A segunda história, Le jardin armé (“O jardim armado”), mostra um ferreiro da Praga medieval que crê ter visões que o levarão até o Jardim do Éden, rapidamente ele atrai um exército de fanáticos a seu redor e começa a espalhar o caos e a violência pela região. Por fim, na última história, Le tambor amoureux (“O tambor apaixonado”), o líder hussita Jan Zizka, que aparecera na história anterior, morre e seus seguidores criam com sua pele um tambor, cujo toque permite a seu exército vencer todas as batalhas, mas o tambor cai nas mãos de uma jovem, por quem o espírito de Zizka se apaixona.

Página de Le prophète voilé
As três histórias são excepcionalmente criativas e cativantes, ajudadas pela bela arte de David B., que retrata com perfeição a magia de seus personagens. Mais que uma história em quadrinhos, este álbum é uma entrada para um mundo onde violência, magia e religião andam de braços dados. E uma das melhores HQs que eu li nos últimos meses.

Capa do primeiro volume de Par les chemins noirs
Par les chemins noirs (“Por caminhos obscuros”) é o título da mais recente série de David B., cujo primeiro álbum, entitulado Les Prologues (“Os prólogos”) foi recentemente editado na França. Como o título diz, é uma série de “prólogos” da saga que o autor pretende contar, ambientada na então cidade iugoslava de Fiume (hoje Rijeka, na Croácia) em 1920, quando a cidade, de maioria italiana, foi ocupada militarmente pelo escritor e aventureiro italiano Gabriele d’Annunzio, que tentou criar lá um “estado livre”. O álbum mostra a vida de uma série de personagens exóticos (entre eles o próprio poeta), cujos caminhos se cruzam em meio ao caos criado pela ocupação do “brancaleonesco” exército de D’Annunzio.

Página de Par les chemins noirs
Necessariamente menos exótico e surreal que as outras obras mencionadas acima, o álbum chama a atenção pela eficiente caracterização dos personagens e o bom humor com que retrata a inusitada situação em que se encontram. Apesar das limitações em trabalhar com uma temática mais realista, a arte de David B. continua bastante eficiente, exibindo ocasionalmente (mas sempre em contexto!) as composições surrealistas que fizeram a fama do autor. Um início promissor para uma série ambiciosa como esta.

Para aqueles que ainda não conhecem o autor e não têm o privilégio de saber francês ou poder assistir uma palestra com ele, eu recomendo adquirirem a edição brasileira de “Epiléptico”, que está prestes a ser lançada pela Conrad.

HQs e política na França – Conclusão domingo, maio 13 2007 

A eleição presidencial francesa já passou e, como se esperava, Nicolas Sarkozy é o novo presidente da República Francesa, assumindo o cargo na próxima quarta-feira (16 de maio). Hora das editoras lançarem seus últimos trabalhos sobre o assunto e medirem os resultados.

Edição espanhola da bem sucedida paródia de Sarkozy

Edição espanhola da bem sucedida paródia de Sarkozy

O grande sucesso da turma foi, sem dúvida, La face kärchée de Sarkozy, que eu mencionei em meu artigo anterior, que vendeu mais de 200 mil cópias em sua edição francesa, para não falar em uma tradução espanhola que parece ter tido um desempenho razoável. O que impulsionou os autores a escreverem uma continuação, Sarko 1er, que cobre o período eleitoral e será publicada dia 15 de maio, véspera da posse do novo presidente. Para poder terminar o álbum ainda antes da posse, os autores chegaram a fazer duas versões diferentes da capa, para cada um dos candidatos do segundo turno do escrutínio eleitoral gaulês.

Capa do novo álbum parodiando Sarkozy

Outras HQs publicadas para aproveitar o interesse do público na eleição tiveram um desempenho mais modesto. A dupla Tout sur Sarko/Ségo, que eu igualmente mencionei em meu artigo, vendeu “apenas” cerca de 20 mil exemplares cada um (ainda muito acima das vendas médias de um álbum na França, estimadas em 7 mil exemplares).

Capa prevista para caso Ségolène vencesse a eleição presidencial

Todo esse furor de criação de HQs oportunistas sobre a eleição presidencial despertou a curiosidade de muita gente, com algumas reportagens televisivas sobre o assunto chegando até às redes de televisão americanas, que raramente falam sobre quadrinhos! A revista francesa especializada em quadrinhos BoDoï também fez uma reportagem sobre o assunto, com direito a uma curta entrevista com o autor e jornalista Pierre Christin (Valerian, A Caçada, Falanges da Ordem Negra), um dos poucos argumentistas franceses com tradição em escrever sobre assuntos políticos.

Eu e Pierre Christin no último Festival de Angoulême. Não ia perder a chance de mostrar esta foto!

Christin afirmou que há pouca gente escrevendo HQs políticas “de verdade” e gente demais trabalhando nessas sátiras a Sarkozy e Ségolène. Ele fala com conhecimento de causa, já que alguns de seus trabalhos mais políticos (como A Caçada, obra de ficção ambientada nos bastidores do regime soviético) são bem vendidos até hoje, décadas depois de sua publicação.

Capa de A Caçada, arte de Enki Bilal

Uma HQ política nova seria o primeiro volume da série Élysée République, de autoria da dupla Rémy Le Gall, que, de acordo com a editora, é lobista da indústria de armamentos e antigo alto funcionário do executivo francês, e Frisco, que consta ser o pseudônimo de um artista já estabelecido dos quadrinhos franceses.

Capa do primeiro álbum da série Élysée République

Prevista como uma série de cinco álbuns (o primeiro foi publicado em fevereiro), Élysée République segue a trajetória de Constant Kérel, honesto deputado francês que quer ser o próximo presidente do país. No primeiro álbum ele descobre um segredo que pode ser fatal para o atual presidente, seu adversário político. Nos álbuns seguintes, o autor pretende acompanhar a caminhada do protagonista rumo à ambicionada presidência. Conseguirá ele manter sua integridade ou terá de abrir mão de seus princípios para poder chegar ao poder?

Página de Élysée République

Página de Élysée République

Já existem HQ examinando o tema, em particular o mangá Eagle, de Kaiji Kawaguchi, que mostra um candidato nipo-americano tantando chegar à presidência dos Estados Unidos, mas Élysée segue uma linha diferente, a de Largo Winch, mostrando seu protagonista não apenas como um hábil político, mas também como um corajoso homem de ação, tal e qual o herói Largo Winch, cujas tramas misturam ação e os bastidores das altas finanças e inspirou uma infinidade de outros heróis em moldes similares, dos quais Constant Kérel é o mais recente.

Capa da edição francesa do mangá Eagle, uma ficção pol�tica mais convencional

Para além das acrobacias de seu protagonista, a série tem sido muito elogiada por sua representação realista (ou ao menos convincente) das engrenagens do poder na França.

Voltando um pouco ao presidente eleito da França, Sarkozy fez recentemente uma incomum crítica ao chargista político Plantu, que o caricaturou caracterizado como o líder da extrema direita Jean-Marie Le Pen. Aparentemente Sarko não gostou da comparação! A resposta do chargista foi, obviamente, satirizar ainda mais o político.

A caricatura que tirou Sarkozy do sério

A eleição de Sarkozy também provocou um regresso inesperado. Frantico, autor de um polêmico blog em quadrinhos que foi posteriormente transformado em livro, surpreendera o mundo dos quadrinhos francês no ano passado, quando foi revelado que ele seria nada menos que o célebre autor Lewis Trondheim, maior nome do quadrinho “alternativo” francês, trabalhando sob pseudônimo (Trondheim nega, com pouca convicção). Agora “Frantico” está de volta, com um novo blog em que satiriza Sarkozy, retratando-o como “Nico Shark”, retratando-o como o ditatorial diretor de recursos humanos de uma empresa.

(Pessoalmente eu acho crueldade comparar um ser humano com um diretor de recursos humanos…)

Por fim, um acontecimento ainda mais estranho que serve como prova definitiva da ligação entre quadrinhos e política na França: Um autor de quadrinhos, Jean-Luc Coudray, é candidato nas eleições legislativas francesas, a serem realizadas em junho!

Cartaz de propaganda eleitoral de Coudray

Veterano autor de quadrinhos (está no sangue, seu irmão gêmeo Philippe Coudray também trabalha na área!), Jean-Luc Coudray já trabalhou com autores do porte de Trondheim ou Moebius e agora é candidato pelo Parti pour la Decroissance (“Partido do Decrescimento”), que defende o fim da busca obsessiva pelo crescimento econômico, argumentando que isso tem prejudicado a sociedade e o meio ambiente! Não deixa de ser verdade, muito embora eu pense que o fim desse crescimento não resolva necessariamente esses problemas – e crie muitos outros!

Antes de sua carreira política, Coudray trabalhou em diversas HQs de sátira política, como Béret et Casquette (“Boné e Boina”). É de se imaginar que logo ele terá material para muitas outras…

Capa de Béret et Casquette

Grandes personagens dos quadrinhos – Asterix quarta-feira, abr 25 2007 

Hoje é aniversário do desenhista Albert Uderzo, que completa 80 anos de vida (e mais de 50 de quadrinhos!). Nada mais justo então do que falar do personagem que ele criou em parceria com o roteirista René Goscinny (já falecido) e se tornou um dos personagens de quadrinhos mais famosos do mundo: Asterix, o Gaulês!

Asterix, o Gaulês

Asterix, o Gaulês

Segundo os autores, Asterix teria sido criado pela dupla em uma tarde de verão de 1959 no quitinete onde morava Uderzo, no subúrbio parisiense de Bobigny. Eles precisavam criar uma série humorística para o semanário Pilote, que lançariam dentro de poucos meses. Primeiro eles pensaram em fazer uma adaptação em quadrinhos do Le Roman de Renart, célebre série de contos satíricos da França medieval, mas depois descobriram que já existia um projeto similar em produção. Ainda à procura de uma sátira histórica, eles acabaram decidindo se fixar no período gaulês.

A inspiração foi rápida. Em poucos minutos, Goscinny se inspirou no nome do chefe gaulês Vercingétorix para decidir batizar seus personagens gauleses com nomes terminados em “ix”. Seu protagonista seria um baixinho chamado Asterix (derivado de “asterisco”), por ser tão imperceptível quanto um sinal de pontuação. A temática da aldeia gaulesa irredutível resistindo ao invasor romano inspirou-se certamente tanto na resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial (ainda fresca na memória dos franceses naquela altura) quanto no Gaullismo então corrente (Charles de Gaulle acabara de assumir a presidência da França), algo que certamente contribuiu para a rápida popularidade do personagem. Também naquele momento surgiu a ideia da poção mágica criada por um druida como explicação para essa resistência. Tudo antes mesmo do personagem ser desenhado! Eventualmente outros personagens marcantes, entre eles seu inseparável companheiro Obelix, se juntariam à série.

Asterix e seu inseparável companheiro Obelix

Asterix e seu inseparável companheiro Obelix

Asterix surge então no primeiro número da Pilote, publicado em 29 de Outubro de 1959. Rapidamente torna-se o personagem mais popular da revista e, com o decorrer dos anos, do quadrinho franco-belga, destronando o até então imbatível Tintim. Simbolicamente também alterando o balanço de poder dentro do quadrinho franco-belga, que até o surgimento da Pilote tinha sido dominado pelas HQs de origem belga. O pequeno gaulês triunfara não apenas contra os romanos como contra os belgas!

Asterix logo se tornou um dos símbolos do orgulho nacional francês. Quando a França lançou seu primeiro satélite ao espaço, em 1965, este foi batizado de “Asterix”! Porém isso não o impediu de ganhar popularidade no exterior. Começando por Portugal (em 1961), Asterix passou a ser publicado em uma infinidade de países não-francófonos, obtendo particular sucesso na Alemanha (onde seus álbuns vendem quase tanto quanto na França!) e até na Inglaterra, país onde as HQs franco-belgas não costumam ter muita penetração. A popularidade do personagem chegou a tal ponto que cada álbum novo passou a ter uma tiragem inicial superior a um milhão de exemplares (a tiragem inicial do mais recente foi de 7 milhões de exemplares, dos quais 3 em língua francesa!). O número de álbuns vendidos até hoje é superior a 300 milhões, o que faz dele um dos personagens de quadrinhos mais populares de todos os tempos (se não o mais!).

Para toda essa popularidade contribuiu bastante a genialidade de seus criadores, tanto a incomparável visão satírica de Goscinny quanto a fenomenal arte de Uderzo, que se complementam com uma perfeição raras vezes vista na história dos quadrinhos. Aliás, pode-se argumentar até que a dupla é a melhor equipe criativa da história da HQ mundial, já que a maior parte dos outros quadrinhos de qualidade comparável costumam ser o trabalho de criadores individuais.

Goscinny e Uderzo refletem a popularidade de seu personagem

Goscinny e Uderzo refletem a popularidade de seu personagem

Infelizmente Goscinny faleceu prematuramente em 1977, quando a série estava no auge. Após o choque inicial, Uderzo decidiu terminar o álbum que Goscinny deixara incompleto (Asterix entre os belgas) e continuar a série por si só. Sua justificativa seria de que nenhum outro escritor poderia substituir seu antigo companheiro. O que não deixa de ser verdade, já que o trabalho de Uderzo como criador único dos álbuns mais recentes tem sido bastante irregular, com alguns álbuns de boa qualidade (como A odisséia de Asterix) e outros bastante fracos. A arte, porém, mantém-se de alto nível. Uderzo já anunciou que, tal qual Hergé, não deseja que a série seja continuada após sua morte, o que faz com que cada novo álbum da série que produz seja potencialmente o derradeiro.

Página do mais recente álbum de Asterix

Apesar disso, Asterix ainda é uma HQ de qualidade e popularidade inquestionáveis, que merece figurar em qualquer estudo sério dos quadrinhos. E parabéns a Uderzo por seu aniversário, que muitos outros o sigam!

Asterix e os irredutíveis gauleses

Asterix e os irredutíveis gauleses

Resenha: Wayne Shelton vols. 1 e 2 quinta-feira, abr 19 2007 

Vamos agora variar um pouco e partir para as resenhas. Comecemos por uma ótima série de espionagem da Dargaud, Wayne Shelton.

Capa de Wayne Shelton 1

Sou grande apreciador do trabalho do roteirista belga Jean Van Hamme, criador de séries como Thorgal, XIII e Largo Winch e escritor de língua francesa mais vendido da atualidade. Nos intervalos entre a publicação das suas séries mais famosas, Van Hamme tem o hábito de escrever trabalhos “menores”, ainda que não necessariamente de menos qualidade, Wayne Shelton é um deles.

Thriller de espionagem no estilo habitual do autor, a série se diferencia por seu protagonista. Depois de criar Largo Winch, um aventureiro milionário jovem, e XIII, um aventureiro adulto no auge da forma, Van Hamme decidiu criar um protagonista que, tal como o próprio autor, já viveu seus melhores anos e começa a sentir o peso da idade, o cinquentão Wayne Shelton. O protagonista, antigo soldado das forças especiais americanas no Vietnã, é um mercenário e contrabandista contratado para cumprir uma missão espinhosa: Libertar da prisão um caminhoneiro francês detido em uma pequena ex-república soviética após matar acidentalmente o ministro da defesa do país! Ora, Shelton não pode fazer um trabalho complicado desses sozinho e decide, no melhor estilo Missão Impossível, recrutar uma equipe especial para ajudá-lo em um plano mirabolante para libertar o prisioneiro.

Página do primeiro álbum. Germânio de novo?

Todo o primeiro álbum mostra esse recrutamento, algo bastante raro no quadrinho franco-belga (que geralmente prefere uma narrativa mais corrida para compensar o relativamente baixo número de páginas), o que permite a Van Hamme desenvolver bastante os personagens. O que é justificável, já que no segundo álbum uma traição vai colocar a missão – e as vidas desses personagens – em risco.

Capa de Wayne Shelton 2
A arte, de Christian Denayer, antigo assistente de Jean Graton (Michel Vaillant) e Tibet (Ric Hochet), é de boa qualidade, na linha habitual dos desenhistas europeus de HQs realistas, mas sem nenhum destaque particular para além da esperada atenção aos detalhes. O ponto mais fraco são mesmo as capas, um pouco genéricas e nada representativas do conteúdo. O próprio Wayne Shelton mal aparece nas duas que estão aqui (é ele quem está no caminhão da primeira capa)! As cores têm a qualidade habitual das HQs franco-belgas.

Lápis e arte terminada do volume 2

A história segue o estilo não apenas de Missão Impossível mas da antiga HQ de espionagem Bruno Brazil (com quem compartilha o elenco de personagens exóticos e o destino trágico de vários deles). Porém o dedo do escritor é visível na trama bem elaborada e nos personagens cativantes. Vale mencionar a única mulher da equipe, com o nome “bondiano” de Honesty Goodness, uma sedutora ilusionista com forte personalidade, no estilo das heroínas de Van Hamme.

Honesty Goodness no lápis de Denayer

A única real falha da história é reaproveitar parte da trama do arco de XIII passado em San Miguel, com toda aquela história da empresa inescrupulosa explorando jazidas de germânio. Van Hamme não costuma reciclar ideias assim! É no mínimo curioso que ele não tenha pensado em outro minério raro e valioso que pudesse estar no lugar do agora malhado germânio…

Pensado originalmente como um one-shot em dois volumes (o que é bastante visível durante a leitura dos álbuns), Wayne Shelton mostrou fôlego o bastante para a Dargaud decidir expandi-lo para uma série regular. Sem interesse em continuar a série, Van Hamme passa os roteiros para Thierry Cailleteau (Aquablue) a partir do terceiro álbum. Não sei dizer como ficou a série sob o novo escritor, mas os dois primeiros álbuns são de qualidade e deveriam algum dia ganhar uma edição em língua portuguesa.

Autores, unidos, jamais serão vencidos! quarta-feira, abr 18 2007 

Uma curiosa novidade agitou a indústria de quadrinhos francesa nos últimos dias. Dia 16 de Fevereiro foi oficialmente fundado o Sindicato de Autores de Quadrinhos da França, ligado ao SNAC (Syndicat National des Auteurs et des Compositeurs, Sindicato Nacional dos Autores e Compositores, agremiação sindical francesa que junta autores e outros “trabalhadores criativos” em geral). O objetivo deste sindicato é, como esperado, defender a categoria (que inclui escritores, desenhistas e os frequentemente ignorados coloristas) nas relações com o patronato.

A ideia é bastante antiga, mesmo fora da França. Nos anos 70 nos EUA, Neal Adams defendeu durante bastante tempo a criação de um sindicato para os quadrinhistas de lá, sem sucesso. Na França, onde, ao contrário dos EUA, a norma é os autores serem donos dos personagens, a demanda por um sindicato não costumava ser muito alta. Já existia uma Associação de Autores de Quadrinhos, a ADABD (Association des Auteurs de Bande Dessinée), mas ela não fora criada com objetivos puramente sindicais.

Porém eventos recentes ajudaram a impulsionar a criação do sindicato, em particular o “caso Dupuis”, acontecimento ocorrido pouco após a venda da tradicional editora belga Dupuis para a poderosa holding Média-Participations, também dona das editoras Dargaud e Lombard, quando uma repentina e polêmica mudança administrativa colocou em risco alguns direitos dos autores, que na ocasião se juntaram para pressionar a editora.

Espetacular foto dos autores se manifestando às portas da Dupuis. Em primeiro plano, na cadeira de rodas, o recentemente falecido Yvan Delporte

Depois destes acontecimentos traumáticos, a ideia de um sindicato voltou à mente de vários autores, em particular o então presidente do Festival de Angoulême, Lewis Trondheim, que aproveitou sua posição privilegiada para ajudar a organizar os autores em torno da proposta do sindicato.

Agora ela finalmente foi posta em prática. O sindicato já está atuante e realizou sua primeira intervenção na editora Humanoïdes Associés, que, em crise há alguns meses, anda atrasando os pagamentos aos seus autores. A editora prometeu resolver a situação.

Aos curiosos, o sindicato cobra 79€ ao ano (dedutíveis nos impostos) de contribuição sindical aos seus membros. Ele afirma não ter uma postura “anti-editoras”, pregando apenas uma relação mais equitativa entre autores e editoras. Uma das plataformas do sindicato diz respeito aos direitos de adaptação audiovisuais das obras, que maior parte das editoras exige para elas em seus contratos atuais e que, como os recentes sucessos cinematográficos baseados em HQs provam, podem ser verdadeiras minas de ouro. Conheço pessoalmente casos de rompimento entre autores e editoras na Europa motivados pela ambição daquelas com respeito a esses direitos!

O comitê de direção do sindicato é composto pelos autores Virginie Augustin, Julien Blondel, David Chauvel (Arthur), Kris, Michaël Le Galli, Cyril Pedrosa e Jean Philippe Peyraud. Os membros fundadores são Alfred, Christophe Arleston (Lanfeust de Troy), Virginie Augustin, Alain Ayroles, Denis Bajram (Universal War One), Joseph Béhé (O Decálogo), David Chauvel, Frank Giroud (O Decálogo), Richard Guérineau, Valérie Mangin (O Flagelo de Deus), Cyril Pedrosa, Lewis Trondheim e Fabien Vehlmann. Vale notar que são todos autores relativamente jovens (se você tem menos de 40 anos na indústria de quadrinhos franco-belga você é jovem…), não havendo nenhum autor “tradicional” envolvido.

Reunião do sindicato

Reunião do sindicato

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