Grandes personagens dos quadrinhos – Spirou e Fantasio domingo, fev 14 2016 

A editora SESI-SP anunciou há poucos dias que publicaria a série Spirou e Fantasio, uma das mais famosas da Bélgica. Mas quem são esses personagens, tão pouco conhecidos dos brasileiros? Bem, a história deles confunde-se com a da revista em quadrinhos Spirou, que é publicada na Bélgica até hoje.

Nem Spip leva Fantasio a sério...

O trio de protagonistas na visão da dupla Tome e Janry. Da esquerda para a direita, Spirou, o esquilo Spip e Fantasio.

No (admitidamente longo) texto abaixo eu vou dar um resumo da história da série, que é a mais importante HQ não-autoral de língua francesa. Não se assustem com o tamanho, que vale a pena a leitura!

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Grandes personagens dos quadrinhos – Asterix quarta-feira, abr 25 2007 

Hoje é aniversário do desenhista Albert Uderzo, que completa 80 anos de vida (e mais de 50 de quadrinhos!). Nada mais justo então do que falar do personagem que ele criou em parceria com o roteirista René Goscinny (já falecido) e se tornou um dos personagens de quadrinhos mais famosos do mundo: Asterix, o Gaulês!

Asterix, o Gaulês

Asterix, o Gaulês

Segundo os autores, Asterix teria sido criado pela dupla em uma tarde de verão de 1959 no quitinete onde morava Uderzo, no subúrbio parisiense de Bobigny. Eles precisavam criar uma série humorística para o semanário Pilote, que lançariam dentro de poucos meses. Primeiro eles pensaram em fazer uma adaptação em quadrinhos do Le Roman de Renart, célebre série de contos satíricos da França medieval, mas depois descobriram que já existia um projeto similar em produção. Ainda à procura de uma sátira histórica, eles acabaram decidindo se fixar no período gaulês.

A inspiração foi rápida. Em poucos minutos, Goscinny se inspirou no nome do chefe gaulês Vercingétorix para decidir batizar seus personagens gauleses com nomes terminados em “ix”. Seu protagonista seria um baixinho chamado Asterix (derivado de “asterisco”), por ser tão imperceptível quanto um sinal de pontuação. A temática da aldeia gaulesa irredutível resistindo ao invasor romano inspirou-se certamente tanto na resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial (ainda fresca na memória dos franceses naquela altura) quanto no Gaullismo então corrente (Charles de Gaulle acabara de assumir a presidência da França), algo que certamente contribuiu para a rápida popularidade do personagem. Também naquele momento surgiu a ideia da poção mágica criada por um druida como explicação para essa resistência. Tudo antes mesmo do personagem ser desenhado! Eventualmente outros personagens marcantes, entre eles seu inseparável companheiro Obelix, se juntariam à série.

Asterix e seu inseparável companheiro Obelix

Asterix e seu inseparável companheiro Obelix

Asterix surge então no primeiro número da Pilote, publicado em 29 de Outubro de 1959. Rapidamente torna-se o personagem mais popular da revista e, com o decorrer dos anos, do quadrinho franco-belga, destronando o até então imbatível Tintim. Simbolicamente também alterando o balanço de poder dentro do quadrinho franco-belga, que até o surgimento da Pilote tinha sido dominado pelas HQs de origem belga. O pequeno gaulês triunfara não apenas contra os romanos como contra os belgas!

Asterix logo se tornou um dos símbolos do orgulho nacional francês. Quando a França lançou seu primeiro satélite ao espaço, em 1965, este foi batizado de “Asterix”! Porém isso não o impediu de ganhar popularidade no exterior. Começando por Portugal (em 1961), Asterix passou a ser publicado em uma infinidade de países não-francófonos, obtendo particular sucesso na Alemanha (onde seus álbuns vendem quase tanto quanto na França!) e até na Inglaterra, país onde as HQs franco-belgas não costumam ter muita penetração. A popularidade do personagem chegou a tal ponto que cada álbum novo passou a ter uma tiragem inicial superior a um milhão de exemplares (a tiragem inicial do mais recente foi de 7 milhões de exemplares, dos quais 3 em língua francesa!). O número de álbuns vendidos até hoje é superior a 300 milhões, o que faz dele um dos personagens de quadrinhos mais populares de todos os tempos (se não o mais!).

Para toda essa popularidade contribuiu bastante a genialidade de seus criadores, tanto a incomparável visão satírica de Goscinny quanto a fenomenal arte de Uderzo, que se complementam com uma perfeição raras vezes vista na história dos quadrinhos. Aliás, pode-se argumentar até que a dupla é a melhor equipe criativa da história da HQ mundial, já que a maior parte dos outros quadrinhos de qualidade comparável costumam ser o trabalho de criadores individuais.

Goscinny e Uderzo refletem a popularidade de seu personagem

Goscinny e Uderzo refletem a popularidade de seu personagem

Infelizmente Goscinny faleceu prematuramente em 1977, quando a série estava no auge. Após o choque inicial, Uderzo decidiu terminar o álbum que Goscinny deixara incompleto (Asterix entre os belgas) e continuar a série por si só. Sua justificativa seria de que nenhum outro escritor poderia substituir seu antigo companheiro. O que não deixa de ser verdade, já que o trabalho de Uderzo como criador único dos álbuns mais recentes tem sido bastante irregular, com alguns álbuns de boa qualidade (como A odisséia de Asterix) e outros bastante fracos. A arte, porém, mantém-se de alto nível. Uderzo já anunciou que, tal qual Hergé, não deseja que a série seja continuada após sua morte, o que faz com que cada novo álbum da série que produz seja potencialmente o derradeiro.

Página do mais recente álbum de Asterix

Apesar disso, Asterix ainda é uma HQ de qualidade e popularidade inquestionáveis, que merece figurar em qualquer estudo sério dos quadrinhos. E parabéns a Uderzo por seu aniversário, que muitos outros o sigam!

Asterix e os irredutíveis gauleses

Asterix e os irredutíveis gauleses

Grandes personagens dos quadrinhos – Tintim segunda-feira, abr 9 2007 

Para começar, falarei de um personagem cujo impacto revolucionou toda uma indústria de quadrinhos – e, indiretamente, uma nação: Tintim!

Tintim e Milu

Tintim e Milu

Tintim foi criado em 1929 para o semanário Le Petit Vingtième (suplemento juvenil do semanário católico conservador belga Le XXème Siècle). Seu autor, Georges Remi (que assinava com o pseudônimo Hergé, tirado de suas iniciais RG), era responsável pelo suplemento e decidiu criar uma HQ própria, inspirada em seu antigo personagem Totor (um escoteiro protagonista de uma HQ que Hergé desenhou quando ele próprio era escoteiro). Tintim seria um repórter do proóprio Petit Vingtième que viajava de um lado para o outro visitando lugares exóticos (geralmente mostrados sob uma ótica bastante preconceituosa, de acordo com a linha política do jornal). O objetivo da série para os editores do jornal era, claro, transmitir às crianças a ideologia supremacista deles próprios. Mas Hergé queria apenas fazer uma boa história em quadrinhos.

Um encontro com o jovem estudante chinês Tchang Tchong-Jen, que ajudou Hergé na pesquisa para criação do álbum O Lótus Azul, mudou a vida de ambos autor e personagem. Tchang fez com que Hergé rejeitasse a visão estereotipada que os europeus tinham das culturas estrangeiras e pesquisasse, com rigor cada vez maior, os lugares que Tintim visitava. A qualidade de seu trabalho (tanto em termos de roteiro quanto de arte) acompanhou essa progressão, bem como a popularidade do personagem. Às vésperas da Segunda Guerra Mundial ele já era um dos personagens de quadrinhos mais popular da Europa, chegando ao topo no pós-guerra, onde se manteve por décadas até o surgimento de Asterix. Ainda hoje, muitos anos após a morte de seu criador (que ordenou que não se fizessem mais aventuras de Tintim após sua morte), ele é bastante popular por todo o mundo, vendendo uma quantidade de HQs que muitos personagens modernos nem sonham em vender.

Mas a importância de Tintim não reside apenas em sua duradoura popularidade. O personagem foi reponsável por muitas das características particulares da indústria de quadrinhos franco-belga. O álbum colorido em formato grande, capa dura e poucas páginas, talvez o elemento mais característico do quadrinho europeu, foi introduzido pela primeira vez nesta série (ironicamente para um formato considerado caro, ele foi criado por razões econômicas, devido à escassez de papel durante a Segunda Guerra). O maior cuidado (tanto em termos de pesquisa quanto na qualidade artística) com que os autores europeus tratam seu trabalho também veio da série, bem como a visão mais “artística” e menos comercial dos quadrinhos. Por fim, a enorme popularidade de Tintim em seu país natal e seu reflexo nas outras HQs fez da Bélgica o país ocidental em que os quadrinhos são mais populares e respeitados, uma relação de um povo com suas HQs que talvez só possua paralelo no Japão. A título de curiosidade, em recente votação popular na Bélgica para escolha do maior belga de todos os tempos, Hergé foi o sétimo colocado entre os votantes de língua francesa e o 24º na Bélgica flamenga (onde ele é bem menos popular devido à profunda divisão cultural entre as duas metades do país).

Mural de Tintim em um prédio da capital belga Bruxelas

Mural de Tintim em um prédio da capital belga Bruxelas

Em suma, Tintim não é apenas um personagem popular e conhecido, ele é também um dos principais responsáveis por toda indústria de quadrinhos franco-belga! E por isso mereceu ser o primeiro dos grandes personagens deste blog!

Tintim e seus amigos

Tintim e seus amigos