Não é de hoje que o mangá faz sucesso na França. De quinze anos para cá os quadrinhos de origem japonesa tiveram um crescimento exponencial no mercado gaulês, passando de meia dúzia de séries a cerca de 40% das HQs publicadas na França!

Não admira portanto que as editoras japonesas, enfrentando uma queda contínua de vendas no mercado doméstico, tenham decidido entrar diretamente no mercado de quadrinhos francês, o segundo maior do mundo a seguir ao nipônico.

A primeira a fazer isto é o Grupo Hitotsubashi, holding que controla as editoras  Shogakukan, Shueisha, Hakushensha e uma infinidade de outras editoras japonesas. Esse poderosíssimo grupo editorial já operava nos EUA (e, desde 2007, também na Europa) através da sua filial Viz Media, mas não publicava diretamente na França, onde seus mangás são licenciados por editoras como Glénat, Kana (divisão de mangás da francesa Dargaud), Pika (subsidiaria do gigantesco grupo editorial Hachette) e Tonkam (filial da Delcourt).

Isso mudou em Agosto do ano passado, quando a Viz Media adquiriu a distribuidora de animes gaulesa Kaze. De um só golpe a Viz ficou dona não apenas da maior distribuidora de animes da França (com filiais em outros países da região, em particular a Alemanha), como também levou “de brinde” a editora de mangás da Kaze, a pequena Asuka, até então destacada apenas por sua publicação das obras do mestre Osamu Tezuka e de material Yaoi. Embora a decisão de adquirir a Kaze pareça ter sido motivada mais pelo sua presença no mercado de animes,  o grupo resolveu não desperdiçar esta oportunidade de atuar também no próspero mercado de mangás francês!

As medidas logo se fizeram notar. A Asuka cancelou (precipitadamente, na minha opinião) parte de sua linha de mangás (e o já moribundo selo mangá da Kaze, o Kami) e passou a se dedicar apenas ao Yaoi. Os mangás “sobreviventes” e as novidades passaram a ser publicados sob o selo Kaze Manga, que estreia com uma interessante linha editorial.

Sem acesso aos principais shonen (mangás para rapazes adolescentes, de onde sai a maioria esmagadora dos campeões de vendas dos mangás), que estão ligados por contrato a editoras como as mencionadas Kana (Naruto, Death Note) e Glénat (One Piece, Bleach), a Kaze decidiu investir no seinen (mangá para homens adultos), gênero em expansão na França, particularmente na sua vertente dirigida aos jovens adultos.

Uma explicação: Embora a terminologia “seinen” seja utilizada para todos os mangás destinados ao publico adulto do sexo masculino, ela não é uma classificação monolítica. Séries como Gantz, Monster e Vagabond não visam as mesmas faixas etárias! Os adultos mais “jovens” (estudantes universitários e jovens prestes a entrar ou recém-incorporados no mercado de trabalho) geralmente lêem as revistas “young seinen” (Young Jump, Young Magazine, etc.), que nada mais são que versões mais cheias de sexo e violência das revistas shonen que esses leitores liam (ou ainda lêem…) quando eram adolescentes.

Portanto, ciente do grande público potencial para esse tipo de material na França, a Kaze inaugurou sua linha Shonen Up! com material expressivo do gênero como Black Lagoon e Embalming. Por outro lado, a editora tem se mostrado tímida no milionário gênero shonen, com sua principal atração sendo o clássico (e já publicado anteriormente na França) Hokuto no Ken (O Guerreiro da Estrela Polar, em português). Mesmo em termos de novidades, apenas o novo (e muito criticado) mangá da autora Rumiko Takahashi, Rinne, está na mira da Kaze. è pouco, ainda mais levando em conta que o novo sucesso dos autores de Death Note, Bakuman, já foi anunciado pela Kana (consequência de algum contrato antigo?).

Obviamente a editora está pensando a longo prazo. Ela não pode tomar as licenças dos mangás de sucesso das suas concorrentes sem se arriscar a levar um destrutivo processo judicial – e já faz algum tempo que o Japão não produz um mangá de sucesso comparável a Naruto ou Dragon Ball. Se fosse uma editora “normal”, a Kaze Manga teria o mesmo destino das antigas iniciativas da Kaze no ramo dos mangás, mas com os bolsos fundos dos japoneses por trás ela pode se dar ao luxo de vender pouco por muitos anos, enquanto espera os sucessos atuais terminarem e serem substituídos por novos, que devem ser publicados pela própria Kaze. Esse pensamento deve tirar o sono dos editores franceses, que já viam os mangás, que eles mesmo editavam em francês, ocuparem um mercado antes totalmente dominado pela produção local e agora correm o risco de ver as próprias editoras japonesas tomarem uma fatia do lucrativo mercado gaulês. Diferente das editoras americanas, porém, que assistiram de braços cruzados os japoneses dominarem seu mercado, as francesas há bastante tempo preparam medidas de combate aos “invasores”, seja na publicação de material em formato mais barato que o tradicional formato álbum (para poder equiparar seus preços aos baratos mangás japoneses), na criação de uma variedade de desenhos animados baseados em HQs franco-belgas (suas versões animadas sendo o outro ponto forte dos mangás) e até na criação de uma variedade de quadrinhos locais em estilo mangá. Até mesmo no “campo de batalha” digital (onde os japoneses têm investido muito), os franceses têm feito avanços consideráveis.

Deve ser a grande disputa editorial do quadrinho mundial nos anos vindouros. Vai ser interessante ver como ela se desenrola.

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