Grandes revistas em quadrinhos – 2000 AD segunda-feira, abr 30 2007 

Pode parecer estranho depois de minha defesa apaixonada das livrarias como o futuro das HQs, mas eu sou grande apreciador das revistas em quadrinhos de banca. Em particular as antologias em estilo europeu, de formato grande e com várias séries, que sabem aproveitar as poucas páginas que têm (em geral não mais de meia dúzia por edição!) para contar uma história da forma mais direta e enxuta possível.

A Inglaterra tem uma grande tradição em revistas desse tipo, contando até com aquela que é (até onde meu limitado conhecimento chega) a mais antiga revista em quadrinhos do mundo: Dandy, publicada semanalmente desde 4 de Dezembro de 1937! Em comparação, a 2000 AD é muito mais recente (publicada pela primeira vez em 26 de Fevereiro de 1977, ela comemorou seu 30º aniversário apenas há poucos meses), mas sua importância mais do que excede os seus comparativamente poucos anos de existência.

2000 AD foi a herdeira direta da revista Action, uma revista de vida curta criada em 1976. Os criadores da Action foram a célebre dupla Pat Mills e John Wagner, que antes tinham criado o violento gibi de guerra Battle Picture Weekly. O sucesso deste levou Mills e Wagner a criarem uma publicação ainda mais violenta e amoral, a Action. Porém eles haviam passado da conta, a conservadora sociedade inglesa da época (não que hoje esteja muito melhor…) não podia tolerar uma revista assim e a Action foi corrida das bancas poucos meses depois. Ela acabou voltando, em uma versão mais “pasteurizada”, poucas semanas depois, mas essa nova encarnação não agradou os leitores e foi cancelada no ano seguinte.

Nesse meio tempo, Mills e Wagner criaram um segundo semanário, no estilo da Action (tendo aprendido com esta quais os limites que não deveriam ser excedidos…) e usando muitos dos mesmos criadores, mas com uma temática de Ficção Científica e ressuscitando um dos grandes clássicos da FC quadrinística britânica, Dan Dare, antiga estrela da mais famosa revista em quadrinhos inglesa de todos os tempos, a Eagle (1950-1970). Esta encarnação do personagem, porém, não teve grande sucesso, o que colocou as outras HQs da revista em maior evidência.

Capa da primeira edição da 2000 AD

Capa da primeira edição da 2000 AD

Fazendo companhia ao tradicional Dan Dare, uma série de HQs que definitivamente nunca teriam sido publicadas na tradicional Eagle: Invasion (violenta HQ de guerra que mostrava uma Inglaterra ocupada por uma potência estrangeira, o grande diferencial era seu protagonista, o brutal e vingativo Bill Savage), M.A.C.H.1 (mais convencional das séries novas – e maior sucesso da revista até a ascensão do Juiz Dredd – era basicamente uma cópia barata do Homem de seis milhões de dólares), Harlem Heroes (série esportiva futurista descaradamente inspirada nos Harlem Globetrotters) e a alucinada Flesh (mais perturbada das séries originais, partia do conceito de que no futuro a superpopulação acabara com a criação de animais de corte e a única alternativa para vender carne a uma faminta sociedade futurista era voltando no tempo para caçar dinossauros, o que teria sido a verdadeira causa da extinção dos bicharocos!).

Carne fresca!

A insana série Flesh, arte de Kevin O’Neil

Porém foi no segundo número da 2000 AD que surgiu o personagem que se tornaria o maior sucesso da revista e a imagem que vem à mente da maioria das pessoas quando se fala na revista, o Juiz Dredd!

Vendo esse post em restrospecto anos depois, eu tinha razão. O personagem nunca tinha sido publicado direito no Brasil...

O Juiz Dredd em todo seu explendor

Homem da lei de uma sociedade fascista futurista, Dredd é juiz, júri e executor, tendo autoridade para decidir (e executar) as penalidades judiciárias sobre todo aquele que quebrar uma das muitas leis que governam a cidade. Conceito genial, que permite contar um sem número de histórias, desde simples thrillers de ação, passando por sátiras político-sociais, até sofisticadas críticas ao totalitarismo, o personagem criado pelo escritor John Wagner e o desenhista espanhol Carlos Ezquerra (que ainda hoje trabalham na série!) logo se tornou o personagem mais popular da revista, posição que mantém até hoje. Seu sucesso determinou ainda a criação de uma revista mensal dedicada, a Judge Dredd Megazine, publicada até hoje, e diversas outras publicações de vida mais curta. Inúmeras outras séries ambientadas no universo de Dredd surgem regularmente na 2000 AD e na Judge Dredd Megazine, algumas fazendo bastante sucesso!

The Pit, grande história. Um dia consigo que a publiquem no Brasil!

Explosiva sequência de Dredd assinada por seu co-criador Carlos Ezquerra

Para além de Wagner e Ezquerra, diversos criadores se destacaram na criação das aventuras de Dredd, em particular o desenhista Brian Bolland, que deve boa parte de seu sucesso ao magnífico trabalho que fez no personagem. Hoje ele raramente faz trabalhos para a revista, fora ocasionais capas.

A deposição de Robert L. Booth

Magnífica capa de Brian Bolland

Apesar de diversas tentativas de publicação, Dredd nunca conseguiu se tornar popular no Brasil. Como é que uma alegoria para justiça a todo custo não consegue se estabelecer em um país em que boa parte das pessoas gostaria de ver a lei reprimindo o crime com a brutalidade de um Juiz Dredd é algo incompreensível, mas eu atribuo isso à falta de visão das editoras que o publicaram. Praticamente apenas as histórias curtas de Dredd saíram no Brasil, e quase todas elas têm um tom de paródia mais acentuado. Mas o personagem se tornou popular em seu país de origem devido às megasagas de centenas de páginas que se desenrolavam por meses na 2000 AD. Nessas tramas mais complexas é possível constatar que o personagem é muito mais do que a sátira uni-dimensional que pode parecer àqueles que conhecem apenas as histórias curtas! Juiz Dredd tem continuidade – e uma bastante rica até! Eu acho que a próxima editora a tentar publicá-lo no Brasil (vai acontecer algum dia, é inevitável…) deveria tentar traduzir alguma das sagas mais longas, ao invés de ficar só no material curto. É mais arriscado, eu sei, mas é a melhor chance do personagem emplacar!

Seis anos depois deste post, eu ajudaria a publicar essa saga no Brasil - com sucesso!

Capa do TPB de Total War, uma das melhores megasagas recentes de Juiz Dredd

Mas 2000 AD não é só Dredd! Diversos outros personagens e séries marcaram as páginas da revista ao longo dos anos. Eis alguns destaques:

Rogue Trooper é uma série de guerra futurista ambientada em Nu Earth (corruptela de New Earth – “Nova Terra”) um planeta destruído pelo interminável conflito entre duas facções, os Nortistas e os Sulistas. Fruto de uma experiência genética sulista, Rogue é um G.I. (Genetic Infantryman – “Infante Genético”), um entre vários humanóides artificiais criados em laboratório para sobreviver ao ambiente hostil do planeta arrasado. Porém a traição de um general corrupto levou à morte de seus companheiros. Foragido e considerado traidor por seus compatriotas, Rogue carrega a consciência de seus falecidos amigos em biochips especiais inseridos em sua arma, mochila e capacete, percorrendo o terreno inóspito de Nu Earth em sua infindável busca pelo general traidor, enquanto é caçado por ambos os lados!

Eu traduzi a série como Renegado sete anos depois...

Rogue Trooper

Criação do veterano escritor Gerry Finley-Day e do desenhista Dave Gibbons (que ganhou fama por seu trabalho na série), Rogue Trooper era uma eficiente crítica à guerra e ao belicismo. Sua caça ao “general traidor” cativou os leitores durante anos a fio, com Finley-Day e seus diversos artistas desfilando uma série de reviravoltas a cada passo do caminho, chegando até a ser mais popular do que Dredd!

Primeira e mais clássica capa de Gibbons para Rogue Trooper

Primeira e mais clássica capa de Gibbons para Rogue Trooper

Porém, logo após Rogue encontrar o general traidor, Finley-Day, um dos últimos escritores “profissionais” dos quadrinhos (ou seja, um escritor que trabalhava em HQs não por ser fã da mídia em si, mas por não ter encontrado outro trabalho) se aposentou, deixando sua criação órfã. Com sua trama principal resolvida, a série ficou sem direção e acabou deixando de publicada durante um bom tempo, até que o jovem escritor Gordon Rennie (uma das novas estrelas da 2000 AD) “ressuscitou”o personagem, criando novas aventuras ambientadas durante a caçada original ao general traidor.

Não foi a primeira vez que a 2000 AD voltou a publicar histórias de um personagem considerado finalizado usando o bastante óbvio expediente de ambientá-las no passado. A primeira vez fora com outra criação de Wagner e Ezquerra, Strontium Dog.

Ainda não consegui que esse personagem saísse no Brasil...

O caçador de recompensas Johnny Alpha, astro de Strontium Dog

Criado para a revista Starlord, uma das várias revistas de FC de vida curta criadas após a 2000 AD na tentativa de atingir o mesmo público, Strontium Dog se passava em um futuro após um conflito nuclear que contaminou a Terra com uma infinidade de elementos radioativos, entre eles o Estrôncio (Strontium), gerando uma série de mutações nos seres humanos. Esses mutantes foram segregados pelo resto da humanidade, tendo que sobreviver como criminosos ou caçadores de recompensas. Johnny Alpha é um deles, um mutante com olhos que emitem “ondas alfa” que o permitem ver através de paredes e manipular objetos, entre outros superpoderes. Um homem honrado em um ambiente corrupto, Johnny e seu parceiro Wulf Sternhammer são apenas dois entre os caçadores de recompensas conhecidos como os “Strontium Dogs”.

Johnny Alpha desenhado por Ezquerra

Johnny Alpha desenhado por Ezquerra

A popularidade do personagem permitiu que ele sobrevivesse ao cancelamento da Starlord e passasse para o elenco da 2000 AD, onde eventualmente se tornou o segundo personagem mais popular depois do Juiz Dredd. John Wagner e Alan Grant se alternam nos roteiros até hoje, com o incansável Carlos Ezquerra como principal artista (quando não está desenhando Dredd!). Curiosamente, tal e qual Rogue Trooper, a série “acabou” uns anos atrás e as aventuras atuais são “flashbacks” do período de caçador de recompensas de Johnny Alpha! Outro exemplo de como o final de uma série não significa necessariamente o fim de novas histórias (as HQs americanas fariam bem em aprender essa lição!). Como Juiz Dredd, Strontium Dog também gerou diversas outras séries estreladas por personagens do mesmo universo.

Durham Red, coadjuvante de Strontium Dog e estrela de uma série spinoff

Durham Red, coadjuvante de Strontium Dog e estrela de uma série spinoff

Outra HQ que fez a transição da Starlord para a 2000 AD foi Ro-Busters, série humorística criada por Pat Mills e estrelada por dois robôs de segunda mão, Ro-Jaws e Hammerstein (os nomes são “homenagem” à dupla de compositores britânicos Rogers e Hammerstein), que são salvos do desmanche para fazerem parte de uma equipe especializada em resgate, os Ro-Busters. Essa série teve sucesso mediano, mas quando Mills trocou o foco das aventuras para o tempo em que a dupla era parte de um grupo especial de soldados-robôs, os A.B.C. Warriors, a série rapidamente se tornou um dos hits da revista.

No filme do Dredd que existia quando eu escrevi isto, bem entendido!

Hammerstein, o protagonista de A.B.C. Warriors. Sim, ele aparece no filme do Juiz Dredd!

Parte do sucesso se deveu sem dúvida à arte da série, assinada por talentos do calibre de Kevin O’Neil, Brendan McCarthy, Simon Bisley e outros talentos, que complementaram habilmente os roteiros afiados de Mills. Atualmente a sérieé desenhada por Clint Langley, que faz uma espetacular combinação de montagens fotográficas com desenhos que dá à arte um realismo inesperado nesse tipo de trabalho, sem sacrificar o dinamismo essencial para uma boa HQ.

Hammerstein por Clint Langley. Sim, arte interior também é assim!

Hammerstein por Clint Langley. Sim, arte interior também é assim!

Outra criação de Mills é o celta Sláine. Uma das raras séries de fantasia da 2000 AD, Slaine é estrelada pelo guerreiro celta Sláine Mac Roth, uma espécie de Conan ambientado na mitologia celta. Desenhado originalmente por Angie Kincaid (ex-esposa de Mills), o celta foi depois desenhado por uma constelação de grandes artista, entre eles Glenn Fabry, Bryan Talbot e especialmente Simon Bisley, que desenhou sua história mais popular, The Horned God (já publicada no Brasil).

Slaine desenhado por Bisley

Slaine desenhado por Bisley

A série continua até hoje, apesar de ter perdido popularidade durante os anos 90, criticada pelo “excesso de misticismo barato”. O artista atual da série é novamente Clint Langley.

De lá para cá, o desenhista de Sláine passou a ser o igualmente talentoso Simon Davis

Capa de Langley para Sláine

Por fim, temos minha favorita pessoal entre as séries mais recentes, Nikolai Dante. Ambientada em uma Rússia czarista futurista, a série é protagonizada por um malandro charmoso e descolado, que se envolve nas intrigas políticas da corte czarista ao tomar posse inadvertidamente de uma arma simbiótica alienígena, que lhe dá, entre outras coisas, o poder de produzir lâminas cyberorgânicas no corpo. Mas o que ele quer mesmo é diversão, bebida e mulheres!

Nikolai Dante na bela arte de Simon Fraser

Nikolai Dante na bela arte de Simon Fraser

Criado pelo escritor Robbie Morrison e o talentoso artista Simon Fraser, Dante obteve um sucesso inesperado devido à sua combinação de humor escrachado, intriga sofisticada e drama pessoal com doses de erotismo e sensualidade raramente vistas na revista.

Espetacular capa de Fraser para um dos TPBs de Nikolai Dante

Espetacular capa de Fraser para um dos TPBs de Nikolai Dante

Certamente a mais “europeia” (continental, no caso) das HQs da 2000 AD, a série ainda é desenhada por Fraser até hoje, alternando com o mais tradicional John Burns, um dos últimos representantes da arte tradicional dos quadrinhos britânicos.

Exemplo da arte mais tradicional de John Burns em Nikolai Dante

Exemplo da arte mais tradicional de John Burns em Nikolai Dante

Apesar de um rol de personagens incrível como este (e eu citei apenas uns poucos exemplos, há muitos mais de onde estes vieram!), a 2000 AD teve a mesma carreira atribulada de outras revistas britânicas. Particularmente após o espetacular fracasso do filme do Juiz Dredd, que criou uma imagem errônea do personagem na mente do público, a 2000 AD atravessou um sério período de crise nos anos 90. Boa parte dos criadores originais, incluindo a insubstituível dupla Pat Mills e John Wagner, se afastara da revista e seus substitutos (Garth Ennis, Mark Millar e outros autores de segunda categoria que eventualmente fariam sucesso nos EUA após fracassarem no mercado britânico) não se mostraram à altura. Porém a aquisição da revista pela empresa de videogames Rebellion deu novo gás à publicação, promovendo o regresso dos autores clássicos e o surgimento de uma nova geração de criadores, que substituiu aqueles que fracassaram nos anos 90. A recente publicação de numerosas encadernações republicando séries de sucesso da revista também ajudou, levando o material da 2000 AD até o público das livrarias e lojas de quadrinhos.

Apesar de seu ano de batismo já ter passado há um bom tempo, a 2000 AD continua em frente. Ela é publicada toda semana na Inglaterra (exceto por três semanas de Dezembro, quando uma edição anual gigante a substitui nas bancas), tem 32 páginas em formato magazine e papel razoável (o LWC mais simples que se pode imaginar, usado até na capa!), com impressão apenas decente o bastante para reproduzir nesse papel as séries pintadas mais complexa. A revista é colorida, embora haja quase sempre alguma série P&B sendo serializada nela. Cada edição contém em média 5 histórias de 5-6 páginas cada. Custa razoáveis £ 1,75. Há também duas revistas derivadas, a Judge Dredd Megazine (mensal, com mais páginas e histórias mais longas, ambientadas geralmente no universo do Juiz Dredd) e a 2000 AD Extreme (bimestral, republica histórias antigas que ainda não saíram em encadernações, geralmente material mais obscuro).

A revista chegou a ser publicada no Brasil pela Ebal, em edições iguais às inglesas! Alguns dos seus personagens, como Juiz Dredd, Slaine e Zênite, receberam publicações ocasionais no Brasil, mas nunca conseguiram realmente se firmar. Em Portugal, ela é quase completamente desconhecida, embora a edição inglesa possa ser encontrada em alguns pontos de venda. Considerando a quantidade de HQs norte-americanas publicadas em português, é incompreensível que a maior parte do material da 2000 AD nunca tenha sido traduzido até hoje! Vale notar que foi de lá que saíram muitos dos autores que eventualmente fizeram sucesso nos comics americanos, como Alan Moore, Dave Gibbons, Grant Morrison, Kevin O’Neil, Brian Bolland e muitos, muitos outros!

Grandes personagens dos quadrinhos – Asterix quarta-feira, abr 25 2007 

Hoje é aniversário do desenhista Albert Uderzo, que completa 80 anos de vida (e mais de 50 de quadrinhos!). Nada mais justo então do que falar do personagem que ele criou em parceria com o roteirista René Goscinny (já falecido) e se tornou um dos personagens de quadrinhos mais famosos do mundo: Asterix, o Gaulês!

Asterix, o Gaulês

Asterix, o Gaulês

Segundo os autores, Asterix teria sido criado pela dupla em uma tarde de verão de 1959 no quitinete onde morava Uderzo, no subúrbio parisiense de Bobigny. Eles precisavam criar uma série humorística para o semanário Pilote, que lançariam dentro de poucos meses. Primeiro eles pensaram em fazer uma adaptação em quadrinhos do Le Roman de Renart, célebre série de contos satíricos da França medieval, mas depois descobriram que já existia um projeto similar em produção. Ainda à procura de uma sátira histórica, eles acabaram decidindo se fixar no período gaulês.

A inspiração foi rápida. Em poucos minutos, Goscinny se inspirou no nome do chefe gaulês Vercingétorix para decidir batizar seus personagens gauleses com nomes terminados em “ix”. Seu protagonista seria um baixinho chamado Asterix (derivado de “asterisco”), por ser tão imperceptível quanto um sinal de pontuação. A temática da aldeia gaulesa irredutível resistindo ao invasor romano inspirou-se certamente tanto na resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial (ainda fresca na memória dos franceses naquela altura) quanto no Gaullismo então corrente (Charles de Gaulle acabara de assumir a presidência da França), algo que certamente contribuiu para a rápida popularidade do personagem. Também naquele momento surgiu a ideia da poção mágica criada por um druida como explicação para essa resistência. Tudo antes mesmo do personagem ser desenhado! Eventualmente outros personagens marcantes, entre eles seu inseparável companheiro Obelix, se juntariam à série.

Asterix e seu inseparável companheiro Obelix

Asterix e seu inseparável companheiro Obelix

Asterix surge então no primeiro número da Pilote, publicado em 29 de Outubro de 1959. Rapidamente torna-se o personagem mais popular da revista e, com o decorrer dos anos, do quadrinho franco-belga, destronando o até então imbatível Tintim. Simbolicamente também alterando o balanço de poder dentro do quadrinho franco-belga, que até o surgimento da Pilote tinha sido dominado pelas HQs de origem belga. O pequeno gaulês triunfara não apenas contra os romanos como contra os belgas!

Asterix logo se tornou um dos símbolos do orgulho nacional francês. Quando a França lançou seu primeiro satélite ao espaço, em 1965, este foi batizado de “Asterix”! Porém isso não o impediu de ganhar popularidade no exterior. Começando por Portugal (em 1961), Asterix passou a ser publicado em uma infinidade de países não-francófonos, obtendo particular sucesso na Alemanha (onde seus álbuns vendem quase tanto quanto na França!) e até na Inglaterra, país onde as HQs franco-belgas não costumam ter muita penetração. A popularidade do personagem chegou a tal ponto que cada álbum novo passou a ter uma tiragem inicial superior a um milhão de exemplares (a tiragem inicial do mais recente foi de 7 milhões de exemplares, dos quais 3 em língua francesa!). O número de álbuns vendidos até hoje é superior a 300 milhões, o que faz dele um dos personagens de quadrinhos mais populares de todos os tempos (se não o mais!).

Para toda essa popularidade contribuiu bastante a genialidade de seus criadores, tanto a incomparável visão satírica de Goscinny quanto a fenomenal arte de Uderzo, que se complementam com uma perfeição raras vezes vista na história dos quadrinhos. Aliás, pode-se argumentar até que a dupla é a melhor equipe criativa da história da HQ mundial, já que a maior parte dos outros quadrinhos de qualidade comparável costumam ser o trabalho de criadores individuais.

Goscinny e Uderzo refletem a popularidade de seu personagem

Goscinny e Uderzo refletem a popularidade de seu personagem

Infelizmente Goscinny faleceu prematuramente em 1977, quando a série estava no auge. Após o choque inicial, Uderzo decidiu terminar o álbum que Goscinny deixara incompleto (Asterix entre os belgas) e continuar a série por si só. Sua justificativa seria de que nenhum outro escritor poderia substituir seu antigo companheiro. O que não deixa de ser verdade, já que o trabalho de Uderzo como criador único dos álbuns mais recentes tem sido bastante irregular, com alguns álbuns de boa qualidade (como A odisséia de Asterix) e outros bastante fracos. A arte, porém, mantém-se de alto nível. Uderzo já anunciou que, tal qual Hergé, não deseja que a série seja continuada após sua morte, o que faz com que cada novo álbum da série que produz seja potencialmente o derradeiro.

Página do mais recente álbum de Asterix

Apesar disso, Asterix ainda é uma HQ de qualidade e popularidade inquestionáveis, que merece figurar em qualquer estudo sério dos quadrinhos. E parabéns a Uderzo por seu aniversário, que muitos outros o sigam!

Asterix e os irredutíveis gauleses

Asterix e os irredutíveis gauleses

Resenha: The Hedge Knight HC segunda-feira, abr 23 2007 

Apesar do nome do blog, eu não me proponho somente a falar dos quadrinhos europeus (embora sejam o assunto principal). Também pretendo falar de HQs de outras procedências, já que eu leio quadrinhos de tudo quanto é lugar, sem preconceitos.

The Hedge Knight é uma adaptação de um conto do escritor norte-americano George R. R. Martin (também criador da série de livros Wild Cards, que inclusive já teve uma versão em quadrinhos publicada no Brasil pela Editora Globo). Ele foi publicado originalmente na antologia Legends, editada por Robert Silverberg. A ideia dessa antologia era publicar contos de autores de séries de fantasia consagradas passados nos mesmos universos dessas séries. Assim seria possível, ao menos em teoria, divulgar os trabalhos de todos autores aos leitores de cada um deles. Com nomes de peso do gênero como Stephen King, Robert Jordan e até, no segundo Legends, Neil Gaiman envolvidos, o sucesso comercial também parecia inevitável. Porém as antologias não tiveram tanto sucesso assim e acabaram se tornando mais uma curiosidade para os leitores desses autores procurarem do que uma forma de divulgação eficiente. Um desses contos era The Hedge Knight, de autoria de Martin e passado no mesmo universo de sua consagrada série A Song of Ice and Fire, embora ambientado muitos anos antes dos eventos desta.

Enquanto isso, os irmãos Ernst, Lester, Pascal e David Dabel fundaram um pequeno estúdio de produção de quadrinhos. Os assim chamados Dabel Brothers logo começaram a publicar suas HQs, primeiro em parceria com a Image Comics, depois com a pequena e ambiciosa editora Alias, do polêmico artista Mike S. Miller. Tentando descobrir uma forma de sobreviver no impiedoso mercado norte-americano, eles decidiram tentar uma ambiciosa adaptação para quadrinhos da série de livros A Song of Ice and Fire.

Porém Martin prudentemente achou que um estúdio de pequeno porte como o dos Dabel não teria capacidade de executar a titânica tarefa de adaptar a série (que conta atualmente com três livros de mais de 800 páginas cada – muito maior que O Senhor dos Anéis!) para quadrinhos e sugeriu que ao invés disso eles adaptassem Hedge Knight, uma história muito mais curta.

Justiça seja feita, os irmãos lançaram-se nessa adaptação sem dar qualquer sinal de ressetimento por terem sido forçados a trabalhar em um “prêmio de consolação”. Rapidamente montaram uma talentosa equipe, com Ben Avery no argumento, o próprio Mike Miller na arte e um grande número de autores de fantasia de peso nas capas (Boris Vallejo, os irmãos Hildebrant, Mike Kaluta, etc.), e publicaram uma mini-série em 6 edições que foi o maior sucesso da pequena editora. A encadernação que se seguiu obteve um sucesso ainda maior nas livrarias americanas, sem dúvida impulsionada pelo nome de Martin.

O sucesso do lançamento abriu as portas para os irmãos publicarem outras adaptações de autores de fantasia (em particular daqueles presentes em Legends) e, eventualmente, fazerem uma parceria com a poderosa Marvel Comics, que é a atual editora dos Dabel e a responsável pelo livro que eu vou (finalmente!) resenhar.

Capa da edição em capa dura de The Hedge Knight

O livro conta a história de Dunk, escudeiro de limitada inteligência mas boa índole de um envelhecido cavaleiro andante. A repentina morte de seu mestre faz com que ele tome uma decisão ousada: Entrar no torneio de cavalaria para onde seu amo se dirigia e, dessa forma, poder tornar-se também um cavaleiro. Porém um encontro casual com o garoto “Egg” (“Ovo”), que ele adota como seu próprio escudeiro, muda sua vida e acaba por colocá-lo em uma situação em que toda sua vontade de ser cavaleiro é posta em jogo.

Capa alternativa da mesma edição, para quem não gosta que suas HQs parecam HQs...

A história original é, como seria de se esperar do trabalho de um autor literário de talento, absolutamente espetacular, com uma impressionante quantidade de reviravoltas inesperadas, personagens bem construídos e, algo absolutamente inesperado para um trabalho que não se propõe como histórico, uma das melhores representações de um torneio medieval já feitas na ficção! Na minha humilde opinião, superior até ao clássico Ivanhoé de Walter Scott! A adaptação feita por Avery é bastante fiel ao texto original e, algo raro em adaptações, não perde nada em relação ao texto original.

Aliás, pode-se argumentar que até oferece mais do que este, pois é complementada pela bela arte de Miller, que se revela surpreendentemente hábil na complexa tarefa de desenhar armaduras, cavalos, ambientação medieval e o imenso elenco de personagens da história (há pelo menos duas dúzias de personagens “nomeados”!) sem comprometer a qualidade do seu trabalho nem ceder à tentação de fazer uma “fotonovela” das partes mais importantes da história original, um hábito tristemente comum em adaptações para quadrinhos de obras literárias. Sua narrativa e cenas de ação são tão dinâmicas (ainda que ocasionalmente confusas) quanto qualquer HQ de super-herói, mas estão sempre a serviço da história. Apesar de suas posições ideológicas polêmicas e ética pessoal duvidosa, Miller se revela neste trabalho um artista de primeira categoria, a ponto de ter sido chamado para desenhar a adapatação da segunda história dos personagens (que está prestes a ser publicada nos EUA) mesmo após sua ruptura com os Dabel, por exigência do próprio Martin, que ficou bastante impressionado com a arte da HQ. Justificadamente!

Espetacular capa de Mike Miller para a mini-série

Vale mencionar as capas das edições individuais da mini-série. Cada uma delas teve duas capas (política questionável porém comum nos EUA), geralmente uma desenhada por Miller e a outra por algum grande artista de fantasia. Valem mencionar que mesmo aí Miller mostrou talento, produzindo diversas capas que não ficam atrás das que os outros capistas fizeram! Todas elas estão no HC da Marvel, à exceção de uma, assinada pelos irmãos Hildebrant, reproduzida abaixo.

Capa dos irmãos Hildebrant, ausente da edição da Marvel

A edição da Marvel contém também uma curta amostra (meia dúzia de páginas) da próxima mini-série da equipe, que adapta a história de Martin originalmente publicada no segundo Legends. A julgar pela amostra, a segunda adaptação manterá o alto nível de qualidade da primeira!

Por fim, a edição em si tem capa dura e sobrecapa, papel couchê grosso de alta qualidade e impressão excepcional, com valores de produção comparáveis aos melhores álbuns europeus! Algo que seria praticamente impossível de se ver em uma HQ norte-americana de alguns anos atrás, mas parece estar cada dia mais comum. E, ao menos neste caso, o conteúdo está à altura da edição!

Em suma, uma HQ de qualidade excepcional que mais do que merece uma edição em português. Como é publicada pela Marvel, a editora lógica para uma edição em português (seja em Portugal ou no Brasil) seria a Panini, que faria bem em publicar essa história (e outras das adaptaçãoes de fantasia dos Dabel Brothers) ao invés de alguma mini-série descartável de um super-herói qualquer.

Saindo um pouco dos quadrinhos, também recomendo também a leitura dos livros de George R. R. Martin, em particular da série A Song of Ice and Fire, que transcendem a literatura de fantasia normal (geralmente um amealhado de chavões reciclados da obra de J. R. R. Tolkien), sendo inspirados não em O Senhor dos Anéis mas na Guerra das Duas Rosas, e repletos de tramas bizantinas, personagens ambíguos, diálogos memoráveis e ocasionais sequências de ação desenfreada. Leitura altamente recomendada!

Resenha: Wayne Shelton vols. 1 e 2 quinta-feira, abr 19 2007 

Vamos agora variar um pouco e partir para as resenhas. Comecemos por uma ótima série de espionagem da Dargaud, Wayne Shelton.

Capa de Wayne Shelton 1

Sou grande apreciador do trabalho do roteirista belga Jean Van Hamme, criador de séries como Thorgal, XIII e Largo Winch e escritor de língua francesa mais vendido da atualidade. Nos intervalos entre a publicação das suas séries mais famosas, Van Hamme tem o hábito de escrever trabalhos “menores”, ainda que não necessariamente de menos qualidade, Wayne Shelton é um deles.

Thriller de espionagem no estilo habitual do autor, a série se diferencia por seu protagonista. Depois de criar Largo Winch, um aventureiro milionário jovem, e XIII, um aventureiro adulto no auge da forma, Van Hamme decidiu criar um protagonista que, tal como o próprio autor, já viveu seus melhores anos e começa a sentir o peso da idade, o cinquentão Wayne Shelton. O protagonista, antigo soldado das forças especiais americanas no Vietnã, é um mercenário e contrabandista contratado para cumprir uma missão espinhosa: Libertar da prisão um caminhoneiro francês detido em uma pequena ex-república soviética após matar acidentalmente o ministro da defesa do país! Ora, Shelton não pode fazer um trabalho complicado desses sozinho e decide, no melhor estilo Missão Impossível, recrutar uma equipe especial para ajudá-lo em um plano mirabolante para libertar o prisioneiro.

Página do primeiro álbum. Germânio de novo?

Todo o primeiro álbum mostra esse recrutamento, algo bastante raro no quadrinho franco-belga (que geralmente prefere uma narrativa mais corrida para compensar o relativamente baixo número de páginas), o que permite a Van Hamme desenvolver bastante os personagens. O que é justificável, já que no segundo álbum uma traição vai colocar a missão – e as vidas desses personagens – em risco.

Capa de Wayne Shelton 2
A arte, de Christian Denayer, antigo assistente de Jean Graton (Michel Vaillant) e Tibet (Ric Hochet), é de boa qualidade, na linha habitual dos desenhistas europeus de HQs realistas, mas sem nenhum destaque particular para além da esperada atenção aos detalhes. O ponto mais fraco são mesmo as capas, um pouco genéricas e nada representativas do conteúdo. O próprio Wayne Shelton mal aparece nas duas que estão aqui (é ele quem está no caminhão da primeira capa)! As cores têm a qualidade habitual das HQs franco-belgas.

Lápis e arte terminada do volume 2

A história segue o estilo não apenas de Missão Impossível mas da antiga HQ de espionagem Bruno Brazil (com quem compartilha o elenco de personagens exóticos e o destino trágico de vários deles). Porém o dedo do escritor é visível na trama bem elaborada e nos personagens cativantes. Vale mencionar a única mulher da equipe, com o nome “bondiano” de Honesty Goodness, uma sedutora ilusionista com forte personalidade, no estilo das heroínas de Van Hamme.

Honesty Goodness no lápis de Denayer

A única real falha da história é reaproveitar parte da trama do arco de XIII passado em San Miguel, com toda aquela história da empresa inescrupulosa explorando jazidas de germânio. Van Hamme não costuma reciclar ideias assim! É no mínimo curioso que ele não tenha pensado em outro minério raro e valioso que pudesse estar no lugar do agora malhado germânio…

Pensado originalmente como um one-shot em dois volumes (o que é bastante visível durante a leitura dos álbuns), Wayne Shelton mostrou fôlego o bastante para a Dargaud decidir expandi-lo para uma série regular. Sem interesse em continuar a série, Van Hamme passa os roteiros para Thierry Cailleteau (Aquablue) a partir do terceiro álbum. Não sei dizer como ficou a série sob o novo escritor, mas os dois primeiros álbuns são de qualidade e deveriam algum dia ganhar uma edição em língua portuguesa.

Autores, unidos, jamais serão vencidos! quarta-feira, abr 18 2007 

Uma curiosa novidade agitou a indústria de quadrinhos francesa nos últimos dias. Dia 16 de Fevereiro foi oficialmente fundado o Sindicato de Autores de Quadrinhos da França, ligado ao SNAC (Syndicat National des Auteurs et des Compositeurs, Sindicato Nacional dos Autores e Compositores, agremiação sindical francesa que junta autores e outros “trabalhadores criativos” em geral). O objetivo deste sindicato é, como esperado, defender a categoria (que inclui escritores, desenhistas e os frequentemente ignorados coloristas) nas relações com o patronato.

A ideia é bastante antiga, mesmo fora da França. Nos anos 70 nos EUA, Neal Adams defendeu durante bastante tempo a criação de um sindicato para os quadrinhistas de lá, sem sucesso. Na França, onde, ao contrário dos EUA, a norma é os autores serem donos dos personagens, a demanda por um sindicato não costumava ser muito alta. Já existia uma Associação de Autores de Quadrinhos, a ADABD (Association des Auteurs de Bande Dessinée), mas ela não fora criada com objetivos puramente sindicais.

Porém eventos recentes ajudaram a impulsionar a criação do sindicato, em particular o “caso Dupuis”, acontecimento ocorrido pouco após a venda da tradicional editora belga Dupuis para a poderosa holding Média-Participations, também dona das editoras Dargaud e Lombard, quando uma repentina e polêmica mudança administrativa colocou em risco alguns direitos dos autores, que na ocasião se juntaram para pressionar a editora.

Espetacular foto dos autores se manifestando às portas da Dupuis. Em primeiro plano, na cadeira de rodas, o recentemente falecido Yvan Delporte

Depois destes acontecimentos traumáticos, a ideia de um sindicato voltou à mente de vários autores, em particular o então presidente do Festival de Angoulême, Lewis Trondheim, que aproveitou sua posição privilegiada para ajudar a organizar os autores em torno da proposta do sindicato.

Agora ela finalmente foi posta em prática. O sindicato já está atuante e realizou sua primeira intervenção na editora Humanoïdes Associés, que, em crise há alguns meses, anda atrasando os pagamentos aos seus autores. A editora prometeu resolver a situação.

Aos curiosos, o sindicato cobra 79€ ao ano (dedutíveis nos impostos) de contribuição sindical aos seus membros. Ele afirma não ter uma postura “anti-editoras”, pregando apenas uma relação mais equitativa entre autores e editoras. Uma das plataformas do sindicato diz respeito aos direitos de adaptação audiovisuais das obras, que maior parte das editoras exige para elas em seus contratos atuais e que, como os recentes sucessos cinematográficos baseados em HQs provam, podem ser verdadeiras minas de ouro. Conheço pessoalmente casos de rompimento entre autores e editoras na Europa motivados pela ambição daquelas com respeito a esses direitos!

O comitê de direção do sindicato é composto pelos autores Virginie Augustin, Julien Blondel, David Chauvel (Arthur), Kris, Michaël Le Galli, Cyril Pedrosa e Jean Philippe Peyraud. Os membros fundadores são Alfred, Christophe Arleston (Lanfeust de Troy), Virginie Augustin, Alain Ayroles, Denis Bajram (Universal War One), Joseph Béhé (O Decálogo), David Chauvel, Frank Giroud (O Decálogo), Richard Guérineau, Valérie Mangin (O Flagelo de Deus), Cyril Pedrosa, Lewis Trondheim e Fabien Vehlmann. Vale notar que são todos autores relativamente jovens (se você tem menos de 40 anos na indústria de quadrinhos franco-belga você é jovem…), não havendo nenhum autor “tradicional” envolvido.

Reunião do sindicato

Reunião do sindicato

Livrarias, o futuro dos quadrinhos? segunda-feira, abr 16 2007 

Depois de alguns posts alegres e cheios de figurinhas, vamos enveredar agora pelo caminho mais sóbrio da teoria. Nos posts desta categoria, eu pretendo examinar a parte teórica dos quadrinhos tanto na vertente criativa (embora eu nunca tenha feito uma HQ na vida) quanto na comercial (embora eu nunca tenha vendido uma HQ na vida). Altamente qualificado como sou, eu não pretendo ter a última palavra sobre qualquer assunto, então estas mensagens são também convites ao debate.

Primeiro examinaremos uma tendência mundial: O desaparecimento das HQs das bancas. Ora, apesar de experimentos como os de Rodolphe Töpffer (para mim o verdadeiro pioneiro dos quadrinhos, mas isso é outro papo), que infelizmente não tiveram seguimento, as HQs somente se popularizaram quando começaram a aparecer nos jornais, em tiras diárias em P&B ou páginas dominicais coloridas (estas a base das indústrias de quadrinhos inglesa e franco-belga, mas isso também é outra história). A seguir surgiram as primeiras revistas dedicadas, a princípio republicando material dos jornais, mas logo, devido à relativa escassez deste, passando a publicar trabalhos exclusivos, que nas décadas de 30 a 50 espalharam-se pelas bancas de todo o mundo.

O formato dessas revistas, porém, não era constante em todos os países. Nos EUA os comics sugiram em um formato meio tablóide (ligeiramente reduzido com o tempo), a cores, com muitas páginas (eventualmente reduzidas de 84 para as magras vinte e poucas dos comics modernos) e periodicidade por norma mensal. Na Europa preferiu-se criar revistas nos moldes dos suplementos dominicais dos jornais (semanais, formato grande, ocasionalmente a cores, poucas páginas, mas com conteúdo mais trabalhado para compensar sua relativa escassez), embora a Itália eventualmente preferisse criar revistas com mais páginas, geralmente em P&B, e em formato menor, que são a maioria das publicações italianas de banca até hoje. No Japão, as HQs foram invadindo as revistas juvenis já existentes (ao menos uma delas, Shonen Magazine, foi criada nos anos 30 como revista juvenil para rapazes e é hoje uma revista em quadrinhos), que, para sobreviver no disputado mercado nipônico, foram aumentando sua periodicidade (de mensal para quinzenal ou mesmo semanal) e número de páginas (algumas ultrapassam as 900 páginas!), mantendo uma impressão em P&B (com ocasionais páginas a cores) e um formato razoavelmente grande para edições com esse volume de páginas, geralmente variando entre A4 e B5. Todas estas revistas eram antologias no princípio, até porque poucos desenhistas têm fôlego para desenhar o bastante por mês para fazer uma revista de mais de 22 páginas, mas com o tempo algumas passaram a se dedicar a um único personagem, em particular nos EUA.

Apesar dessas diferenças regionais, a constante era que as revistas eram consideradas descartáveis e impressas em papel de pouca qualidade. Por conta disso, poucos exemplares das revistas editadas nos anos 20 e 30 (época do lançamento das primeiras publicações do tipo) sobreviveram até hoje, menos de um século depois, e mesmo os melhor conservados estão em um estado lastimável se comparados a, por exemplo, livros de boa qualidade desse tempo conservados da mesma maneira.

A mensagem é clara: Esse tipo de publicação não é feito para durar! Mas com o tempo algumas das histórias publicadas nesses veículos fizeram sucesso a ponto de justificar edições mais permanentes, ou seja, livros de verdade, com papel de melhor qualidade e vendidos em livraria. Talvez devido às experiências de Töpffer quase um século antes, os europeus logo se tornaram entusiastas dessas edições, que alcançaram uma qualidade incomparável com as HQs vendidas no resto do mundo. Os japoneses preferiram edições menores e mais baratas (e mais similares a livros tradicionais), que se popularizaram a tal ponto que tornou-se habitual qualquer HQ publicada no Japão ganhar sua versão encadernada, fazendo com que as tradicionais antologias de banca japonesas fossem encaradas cada vez mais como material descartável, a ponto de serem literalmente jogadas fora pelos leitores logo após a leitura! Qualquer história que interessasse o leitor seria adquirida separadamente depois, em sua edição encadernada menor, mais cômoda, fácil de guardar (muito importante em um país em que qualquer imóvel minúsculo custa uma fortuna!) e livre das outras HQs menos interessantes para o leitor em questão.

Porém os mercados que mais influenciaram o brasileiro, o americano e o italiano, mantiveram-se durante muito tempo presos aos seus periódicos, seguindo uma evolução diferente. Mais sobre isso adiante.

Com o tempo, porém, surgiu uma constante: As vendas dos periódicos começaram a declinar! Devido a uma série de fatores, entre os quais o surgimento de outras formas de entretenimento periódico (a televisão sendo a mais destacada), os crescentes custos do papel que reduziram a diferença de preço entre o papel barato usado nos periódicos e outros tipos de papel mais sofisticados (o que levou os periódicos de quase todos os países a adotarem um papel de melhor qualidade – e mais caro! Exceto o Japão, que preferiu passar a publicar em papel reciclado absurdamente ordinário, mas adequado ao caráter totalmente descartável de suas publicações), a redução do espaço nas bancas provocada pela enorme quantidade de material vendido nesses espaços (que leva os jornaleiros, com razão, a preferir expor produtos mais caros que a típica HQ no espaço que têm disponível), além de vários outros fatores regionais que não vale a pena expor aqui.

No geral, a conclusão é clara: As bancas tornam-se cada vez mais um mercado hostil às típicas revistas em quadrinhos. O que fazer então?

Um outro mercado era necessário. Uma opção eram as lojas especializadas (que existem há muito tempo, a Lambiek holandesa abriu em 1968!), mas, apesar de alguns sucessos pontuais, em particular nos EUA, não costumam estar em quantidade suficiente para sustentar uma publicação. Isso não é exclusividade das HQs, afinal quantas livrarias especializadas em, digamos, livros de informática existem? Restam as livrarias generalistas, que têm a vantagem de já trabalhar com produtos similares e já serem uma rede pré-existente que não depende somente do público de quadrinhos para sobreviver.

Mas, perguntam vocês, o preço necessariamente mais elevado do material de livraria não encarece demais as HQs? Bem, encarece, é verdade, por isso as HQs vendidas em livraria precisam ser um material mais seleto do que o que se vê na banca. Watchmen? Beleza! Super-Homem ou Homem-Aranha deste mês? Nem pensar! Entendem o que eu quero dizer?

Isso não poderia acabar com os quadrinhos? Bem, não parece ter acabado com os livros! E os países que fizeram essa transição costumam ver um aumento nas vendas a longo prazo, enquanto as vendas de banca andam em uma queda constante e, aparentemente, inevitável no mundo inteiro.

Mas e a criançada? Não fica caro demais para eles? Bom, livros infantis custam o mesmo e esse é o gênero que mais vende em livrarias (podem verificar!). Nunca se esqueçam de que quem paga livros (ou quase tudo…) para as crianças são os pais, não as próprias! E, embora isso possa variar, meus pais preferiam me dar um álbum do Asterix ou Tintim ao invés de um gibi de super-heróis porque achavam que era um leitura melhor. Hoje eu vejo que tinham razão…

Mas isso significa que as HQs de banca vão acabar? Eu não diria isso por enquanto, mas temo que seja a tendência a longo prazo. Querem um exemplo? No final do século XIX, os livros (livros de literatura mesmo!) costumavam ser publicados no formato de folhetim, a um capítulo por edição com vários livros diferentes sendo serializados no mesmo jornal ou revista literária, antes de serem compilados em livros. Machado de Assis foi publicado assim originalmente. Idem para Charles Dickens e Alexandre Dumas. Pois bem, quantos livros ainda são publicados dessa maneira no mundo? Quantos desses folhetins ainda existem? Quase nenhum (isso porque admito que possa existir ainda algum, já que eu pessoalmente desconheço)! A literatura morreu por causa disso? Não, ficou até mais popular desde então!

O mundo parece caminhar nessa direção. Ano passado, pela primeira vez em sua história, as HQs americanas venderam mais em encadernação do que em revistas avulsas. A Itália é hoje o último país com uma grande indústria de quadrinhos em que as edições de bancas ainda vendem mais que as de livrarias – e mesmo lá as vendas de banca estão em queda livre! O mercado japonês também já favorece as livrarias desde 2005 e os editores de lá andam estudando opções alternativas à publicação em banca, tais como serialização no formato digital (ou seja, trocar as antologias por downloads via Internet) e até distribuição grátis de revistas (!).

Portanto, embora eu ainda seja um dos fósseis que acredita que o quadrinho de banca sempre existirá (mesmo na França, o mercado que mais se voltou para as livrarias, ainda é possível se encontrar uma boa gama de HQs nas bancas!), eu acho que é nas livrarias que está o futuro. E que qualquer um que pretenda publicar quadrinhos, em qualquer lugar do mundo, deve levar isso sempre em mente.

E vocês, o que acham?

Tipica seção de quadrinhos de uma livraria francesa. Será esse o futuro?

Típica seção de quadrinhos de uma livraria francesa. Será esse o futuro?

Adendo: Depois que eu escrevi meu texto original, obtive a informação de que também no Japão, o país onde os quadrinhos de banca (bem, todos os tipos de quadrinhos) vendem mais, as vendas de livraria ultrapassaram as de banca em 2005. Aliás, para ser exato as vendas de banca caíram abaixo das de livraria nesse ano, já que, como em todo o mundo, as vendas de HQs de banca no Japão estão em queda. O meu texto foi alterado para refletir ester novos dados!

Adendo 2: Agora eu obtive uma fonte mais concreta sobre a evolução de vendas de mangá, o informe anual sobre a indústria de publicações japonesa da JETRO, organização japonesa que monitora o comércio exterior do país. Siga o link para saber mais detalhes sobre as vendas de publicações no Japão em geral e de mangás em particular.

HQs e política na França segunda-feira, abr 16 2007 

Embora mais comum do que no Brasil (seria impossível ser menos…), é bem raro os telejornais daqui de Portugal falarem de quadrinhos. Pois bem, ontem eu vi uma matéria razoavelmente longa (2-3 minutos) em um telejornal falando sobre a participação dos quadrinhos na… Campanha presidencial francesa!

Não é exagero. Quando estive na França para o Festival de Angoulême (detalhes de minha estadia por lá em futuros posts), havia já uma grande quantidade de álbuns nas livrarias satirizando os candidatos, o presidente atual (Jacques Chirac, que, quando ainda era um jovem político, foi a inspiração para o vilão do álbum Obelix e Companhia!) e a disputa presidencial em si.

Chirac em Asterix

A principal “vítima” das HQs é o candidato Nicolas Sarkozy. Baixinho, vaidoso, narigudo e com uma aparência na fronteira entre o cômico e o sinistro, ele é o alvo perfeito para as sátiras. Costuma ser comparado frequentemente ao personagem Iznogud (Iznogoud no original), de Goscinny e Tabary (já publicado no Brasil e em Portugal e que já teve uma adaptação excelente – ainda que pouco divulgada – em desenho animado), que vive conspirando contra seu chefe, o califa, porque quer “ser o califa no lugar do califa”, da mesma maneira que Sarkozy reportadamente conspiraria contra Chirac (que hoje em dia o detesta) para sucedê-lo na presidência. Panfletos políticos mostrando esse paralelo chegaram a ser distribuídos na porta do Festival de Angoulême por partidários da oposição, eu vi alguns! A comparação se literalizou quando Sarkozy decidiu mandar publicidade eleitoral via mail para centenas de milhares de eleitores franceses (uma novidade na política gaulesa), muitos dos quais, revoltados, responderam com uma “bomba do Google” que fez com que, durante algum tempo, buscas por Iznogud fossem parar no site de Sarkozy e vice-versa.

Iznogud normalIznogud como Sarkozy

Não foi a única sátira ao candidato e ministro. Ele logo se tornaria o “alvo” favorito dessas paródias. A principal delas é com certeza o álbum La face karchée de Sarkozy. Bem humorada adaptação para quadrinhos de uma reportagem de Philippe Cohen sobre a vida do político (apresentada na HQ como uma tese de doutorado feita por um estudante do futuro), o álbum, com roteiro de Richard Malka e arte de Riss, obteve um sucesso sem precedentes para este tipo de obra e se tornou um dos best-sellers dos quadrinhos franceses do ano, com mais de 200 mil exemplares vendidos até o momento!

A bem sucedida sátira a Sarkozy

O inesperado sucesso abriu as portas a inúmeras outras paródias e, embora Sarkozy ainda seja o favorito dos cartunistas (Riss, o desenhista de La face karchée, declarou na reportagem de TV que Sarkozy “já é um personagem de quadrinhos”), seus oponentes não escaparam da paródia. Chegou mesmo a sair uma dupla de álbuns, Tout sur Sarko e Tout sur Ségo, que, embora de autores diferentes, compartilhava a mesma estrutura básica para parodiar cada um dos dois principais candidatos.

O álbum de Sarkozy......e o de sua rival Ségolène.

O mais interessante nisso tudo, porém, é constatar como as HQs já viraram uma parte tão integral da cultura francesa que é perfeitamente normal uma enxurrada de álbuns aparecerem nas livrarias durante a campanha presidencial. Esse material terá previsivelmente uma vida comercial bastante curta (não vejo um álbum sobre Sarkozy ficando 60 anos à venda nas livrarias que nem os álbuns do Tintim…), mas ainda assim os editores consideram viável sua publicação, confiando que, nos poucos meses que separam a data de seus lançamentos até a escolha do presidente, as vendas sejam suficientes para compensar o investimento.

Ronaldinho em Mortadelo e Salaminho sábado, abr 14 2007 

Criações do catalão Francisco Ibáñez, Mortadelo e Salaminho (Mortadela e Salamão em Portugal, Mortadelo y Filemón no original espanhol) é a HQ mais famosa da Espanha. Sua duradoura popularidade (completarão 50 anos de publicação no ano que vem!) em terras espanholas deve-se, entre outros motivos, à sua capacidade de fazer humor em cima dos eventos atuais. Há sempre um álbum dos personagens para cada copa do mundo ou olimpíada, por exemplo.

Ora, o sucesso de Ronaldinho Gaúcho no Barcelona certamente motivou Ibáñez a desenhar esta capa para a série Top Cómic Mortadelo:

Mortadelo e Ronaldinho

Mortadelo e Ronaldinho

Nela podemos ver Ronaldinho contracenando com Mortadelo, Salaminho e o cegueta Rompetechos, os personagens mais famosos de Ibáñez.

O jogador, porém, não aparece no interior. Top Cómic Mortadelo é uma revista periódica de banca que republica duas aventuras da dupla de agentes (em formato menor que o dos álbuns habituais) junto com uma história curta inédita de Rompetechos e uma pequena seção de “besteiras” (geralmente fotos alteradas para incluir a insana dupla de agentes). As duas aventuras de Mortadelo e Salaminho republicadas nada têm a ver com futebol (uma tem como tema os telefones celulares, a outra é comemorativa dos 100 anos de quadrinhos, mostrando a dupla enfrentando cópias malignas do Super-Homem, Homem-Aranha, Príncipe Valente, etc.), já a de Rompetechos, que mostra o baixinho míope provocando o caos habitual enquanto tenta praticar esporte, apenas cita o jogador quando Rompetechos vê uma ovelha dentuça e a confunde com o futebolista, inspirando-se assim a praticar futebol (com resultados previsivelmente desastrosos…).

Falarei mais sobre estes personagens em um futuro post de “Grandes personagens”.

Álbum de homenagem a Asterix pelos 80 anos de Uderzo quarta-feira, abr 11 2007 

No próximo dia 25 de abril, Albert Uderzo, desenhista de Asterix completa 80 anos de idade!

Em comemoração, a editora Albert-René juntou a nata dos artistas de quadrinhos europeus em um álbum especial que será publicado nessa data, Astérix et ses amis (Asterix e seus amigos).

Capa do álbum em homenagem a Asterix

Capa do álbum em homenagem a Asterix

O álbum terá 60 páginas. Cada criador fará uma história curta de uma a quatro páginas. A publicação será simultânea em pelo menos dez países (incluindo Portugal) e a tiragem, baixa para os padrões da série, é de 400 mil exemplares. Todos os lucros do álbum serão doados a uma ONG de assistência às crianças.

Entre os talentos envolvidos estão Christophe Arleston (que já fora o responsável por uma iniciativa similar, publicada pela Soleil, e deve ser o maior fã de Uderzo que existe) escrevendo duas histórias, em parceria com seus amigos Mourier (desenhista de Trolls de Troy) e Tarquin (Lanfeust de Troy). Outro que escreve é Jean Van Hamme, com desenhos de Vance (XIII) e Rozinsky (Thorgal).

Mais nomes: Juanjo Guarnido (Blacksad), Loustal, Midam (Kid Paddle), Zep (Titeuf), François Boucq (Jerome Moucherot), Baru, Manara (Clic), Turf, Walthéry (Natasha), a dupla Raoul Cauvin e Laudec (Cédric), a dupla Laurent Guerra e Achdé (atual equipe da série Lucky Luke), Fred Beltran (Megalex), Carrère (Léo Loden), Brössel (Werner), Jidéheim (assistente de Franquin em Gaston e outras séries), Dany (Olivier Rameau), Cuzor, o canadense Stuart Immonen (artista de super-heróis nos EUA), Tibet (Ric Hochet, Chick Bill), o chileno Vicar (desenhista de inúmeras HQs Disney), Jean Graton (Michel Vaillant), Derib (Buddy Longway, Yakari), Batem (Marsupilami), Forges, o inglês David Lloyd (V de Vingança) e Kuijpers (Franka).

O mais curioso é que em boa parte dessas histórias o guerreiro gaulês vai se encontrar com os personagens mais distintivos do respectivo criador (incluindo quase todos os citados acima!), ou seja, o álbum será um grande “megacrossover” do quadrinho europeu! Há um preview no site do Asterix. Confiram!

Grandes personagens dos quadrinhos – Tintim segunda-feira, abr 9 2007 

Para começar, falarei de um personagem cujo impacto revolucionou toda uma indústria de quadrinhos – e, indiretamente, uma nação: Tintim!

Tintim e Milu

Tintim e Milu

Tintim foi criado em 1929 para o semanário Le Petit Vingtième (suplemento juvenil do semanário católico conservador belga Le XXème Siècle). Seu autor, Georges Remi (que assinava com o pseudônimo Hergé, tirado de suas iniciais RG), era responsável pelo suplemento e decidiu criar uma HQ própria, inspirada em seu antigo personagem Totor (um escoteiro protagonista de uma HQ que Hergé desenhou quando ele próprio era escoteiro). Tintim seria um repórter do proóprio Petit Vingtième que viajava de um lado para o outro visitando lugares exóticos (geralmente mostrados sob uma ótica bastante preconceituosa, de acordo com a linha política do jornal). O objetivo da série para os editores do jornal era, claro, transmitir às crianças a ideologia supremacista deles próprios. Mas Hergé queria apenas fazer uma boa história em quadrinhos.

Um encontro com o jovem estudante chinês Tchang Tchong-Jen, que ajudou Hergé na pesquisa para criação do álbum O Lótus Azul, mudou a vida de ambos autor e personagem. Tchang fez com que Hergé rejeitasse a visão estereotipada que os europeus tinham das culturas estrangeiras e pesquisasse, com rigor cada vez maior, os lugares que Tintim visitava. A qualidade de seu trabalho (tanto em termos de roteiro quanto de arte) acompanhou essa progressão, bem como a popularidade do personagem. Às vésperas da Segunda Guerra Mundial ele já era um dos personagens de quadrinhos mais popular da Europa, chegando ao topo no pós-guerra, onde se manteve por décadas até o surgimento de Asterix. Ainda hoje, muitos anos após a morte de seu criador (que ordenou que não se fizessem mais aventuras de Tintim após sua morte), ele é bastante popular por todo o mundo, vendendo uma quantidade de HQs que muitos personagens modernos nem sonham em vender.

Mas a importância de Tintim não reside apenas em sua duradoura popularidade. O personagem foi reponsável por muitas das características particulares da indústria de quadrinhos franco-belga. O álbum colorido em formato grande, capa dura e poucas páginas, talvez o elemento mais característico do quadrinho europeu, foi introduzido pela primeira vez nesta série (ironicamente para um formato considerado caro, ele foi criado por razões econômicas, devido à escassez de papel durante a Segunda Guerra). O maior cuidado (tanto em termos de pesquisa quanto na qualidade artística) com que os autores europeus tratam seu trabalho também veio da série, bem como a visão mais “artística” e menos comercial dos quadrinhos. Por fim, a enorme popularidade de Tintim em seu país natal e seu reflexo nas outras HQs fez da Bélgica o país ocidental em que os quadrinhos são mais populares e respeitados, uma relação de um povo com suas HQs que talvez só possua paralelo no Japão. A título de curiosidade, em recente votação popular na Bélgica para escolha do maior belga de todos os tempos, Hergé foi o sétimo colocado entre os votantes de língua francesa e o 24º na Bélgica flamenga (onde ele é bem menos popular devido à profunda divisão cultural entre as duas metades do país).

Mural de Tintim em um prédio da capital belga Bruxelas

Mural de Tintim em um prédio da capital belga Bruxelas

Em suma, Tintim não é apenas um personagem popular e conhecido, ele é também um dos principais responsáveis por toda indústria de quadrinhos franco-belga! E por isso mereceu ser o primeiro dos grandes personagens deste blog!

Tintim e seus amigos

Tintim e seus amigos

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