Tonkaradani, a obra mais obscura de Osamu Tezuka sábado, dez 17 2011 

Soube com algum atraso da nobre iniciativa do Tezuka Day. Ora, como fã incondicional de Osamu Tezuka, eu nunca poderia deixar essa data passar em branco! E decidi reavivar o meu blog só para homenagear aquele que foi o maior autor de mangá (e quiçá de quadrinhos como um todo) de todos os tempos!

Mas sobre o que escrever? Como muitas das principais obras dele já estavam sendo comentadas por outros, era preciso que fosse um material bastante obscuro. Então eu fui atrás daquela que deve ser a obra mais obscura do autor: Tonkaradani Monogatari!

Castiga o pandeiro aí! Ziriguidum, telecoteco, balacobaco!

Capa da edição francesa de Tonkaradani, que referencia a adaptação de Mignon

Tonka o quê?

(mais…)

Resenha: The Hedge Knight HC segunda-feira, abr 23 2007 

Apesar do nome do blog, eu não me proponho somente a falar dos quadrinhos europeus (embora sejam o assunto principal). Também pretendo falar de HQs de outras procedências, já que eu leio quadrinhos de tudo quanto é lugar, sem preconceitos.

The Hedge Knight é uma adaptação de um conto do escritor norte-americano George R. R. Martin (também criador da série de livros Wild Cards, que inclusive já teve uma versão em quadrinhos publicada no Brasil pela Editora Globo). Ele foi publicado originalmente na antologia Legends, editada por Robert Silverberg. A ideia dessa antologia era publicar contos de autores de séries de fantasia consagradas passados nos mesmos universos dessas séries. Assim seria possível, ao menos em teoria, divulgar os trabalhos de todos autores aos leitores de cada um deles. Com nomes de peso do gênero como Stephen King, Robert Jordan e até, no segundo Legends, Neil Gaiman envolvidos, o sucesso comercial também parecia inevitável. Porém as antologias não tiveram tanto sucesso assim e acabaram se tornando mais uma curiosidade para os leitores desses autores procurarem do que uma forma de divulgação eficiente. Um desses contos era The Hedge Knight, de autoria de Martin e passado no mesmo universo de sua consagrada série A Song of Ice and Fire, embora ambientado muitos anos antes dos eventos desta.

Enquanto isso, os irmãos Ernst, Lester, Pascal e David Dabel fundaram um pequeno estúdio de produção de quadrinhos. Os assim chamados Dabel Brothers logo começaram a publicar suas HQs, primeiro em parceria com a Image Comics, depois com a pequena e ambiciosa editora Alias, do polêmico artista Mike S. Miller. Tentando descobrir uma forma de sobreviver no impiedoso mercado norte-americano, eles decidiram tentar uma ambiciosa adaptação para quadrinhos da série de livros A Song of Ice and Fire.

Porém Martin prudentemente achou que um estúdio de pequeno porte como o dos Dabel não teria capacidade de executar a titânica tarefa de adaptar a série (que conta atualmente com três livros de mais de 800 páginas cada – muito maior que O Senhor dos Anéis!) para quadrinhos e sugeriu que ao invés disso eles adaptassem Hedge Knight, uma história muito mais curta.

Justiça seja feita, os irmãos lançaram-se nessa adaptação sem dar qualquer sinal de ressetimento por terem sido forçados a trabalhar em um “prêmio de consolação”. Rapidamente montaram uma talentosa equipe, com Ben Avery no argumento, o próprio Mike Miller na arte e um grande número de autores de fantasia de peso nas capas (Boris Vallejo, os irmãos Hildebrant, Mike Kaluta, etc.), e publicaram uma mini-série em 6 edições que foi o maior sucesso da pequena editora. A encadernação que se seguiu obteve um sucesso ainda maior nas livrarias americanas, sem dúvida impulsionada pelo nome de Martin.

O sucesso do lançamento abriu as portas para os irmãos publicarem outras adaptações de autores de fantasia (em particular daqueles presentes em Legends) e, eventualmente, fazerem uma parceria com a poderosa Marvel Comics, que é a atual editora dos Dabel e a responsável pelo livro que eu vou (finalmente!) resenhar.

Capa da edição em capa dura de The Hedge Knight

O livro conta a história de Dunk, escudeiro de limitada inteligência mas boa índole de um envelhecido cavaleiro andante. A repentina morte de seu mestre faz com que ele tome uma decisão ousada: Entrar no torneio de cavalaria para onde seu amo se dirigia e, dessa forma, poder tornar-se também um cavaleiro. Porém um encontro casual com o garoto “Egg” (“Ovo”), que ele adota como seu próprio escudeiro, muda sua vida e acaba por colocá-lo em uma situação em que toda sua vontade de ser cavaleiro é posta em jogo.

Capa alternativa da mesma edição, para quem não gosta que suas HQs parecam HQs...

A história original é, como seria de se esperar do trabalho de um autor literário de talento, absolutamente espetacular, com uma impressionante quantidade de reviravoltas inesperadas, personagens bem construídos e, algo absolutamente inesperado para um trabalho que não se propõe como histórico, uma das melhores representações de um torneio medieval já feitas na ficção! Na minha humilde opinião, superior até ao clássico Ivanhoé de Walter Scott! A adaptação feita por Avery é bastante fiel ao texto original e, algo raro em adaptações, não perde nada em relação ao texto original.

Aliás, pode-se argumentar que até oferece mais do que este, pois é complementada pela bela arte de Miller, que se revela surpreendentemente hábil na complexa tarefa de desenhar armaduras, cavalos, ambientação medieval e o imenso elenco de personagens da história (há pelo menos duas dúzias de personagens “nomeados”!) sem comprometer a qualidade do seu trabalho nem ceder à tentação de fazer uma “fotonovela” das partes mais importantes da história original, um hábito tristemente comum em adaptações para quadrinhos de obras literárias. Sua narrativa e cenas de ação são tão dinâmicas (ainda que ocasionalmente confusas) quanto qualquer HQ de super-herói, mas estão sempre a serviço da história. Apesar de suas posições ideológicas polêmicas e ética pessoal duvidosa, Miller se revela neste trabalho um artista de primeira categoria, a ponto de ter sido chamado para desenhar a adapatação da segunda história dos personagens (que está prestes a ser publicada nos EUA) mesmo após sua ruptura com os Dabel, por exigência do próprio Martin, que ficou bastante impressionado com a arte da HQ. Justificadamente!

Espetacular capa de Mike Miller para a mini-série

Vale mencionar as capas das edições individuais da mini-série. Cada uma delas teve duas capas (política questionável porém comum nos EUA), geralmente uma desenhada por Miller e a outra por algum grande artista de fantasia. Valem mencionar que mesmo aí Miller mostrou talento, produzindo diversas capas que não ficam atrás das que os outros capistas fizeram! Todas elas estão no HC da Marvel, à exceção de uma, assinada pelos irmãos Hildebrant, reproduzida abaixo.

Capa dos irmãos Hildebrant, ausente da edição da Marvel

A edição da Marvel contém também uma curta amostra (meia dúzia de páginas) da próxima mini-série da equipe, que adapta a história de Martin originalmente publicada no segundo Legends. A julgar pela amostra, a segunda adaptação manterá o alto nível de qualidade da primeira!

Por fim, a edição em si tem capa dura e sobrecapa, papel couchê grosso de alta qualidade e impressão excepcional, com valores de produção comparáveis aos melhores álbuns europeus! Algo que seria praticamente impossível de se ver em uma HQ norte-americana de alguns anos atrás, mas parece estar cada dia mais comum. E, ao menos neste caso, o conteúdo está à altura da edição!

Em suma, uma HQ de qualidade excepcional que mais do que merece uma edição em português. Como é publicada pela Marvel, a editora lógica para uma edição em português (seja em Portugal ou no Brasil) seria a Panini, que faria bem em publicar essa história (e outras das adaptaçãoes de fantasia dos Dabel Brothers) ao invés de alguma mini-série descartável de um super-herói qualquer.

Saindo um pouco dos quadrinhos, também recomendo também a leitura dos livros de George R. R. Martin, em particular da série A Song of Ice and Fire, que transcendem a literatura de fantasia normal (geralmente um amealhado de chavões reciclados da obra de J. R. R. Tolkien), sendo inspirados não em O Senhor dos Anéis mas na Guerra das Duas Rosas, e repletos de tramas bizantinas, personagens ambíguos, diálogos memoráveis e ocasionais sequências de ação desenfreada. Leitura altamente recomendada!

Resenha: Wayne Shelton vols. 1 e 2 quinta-feira, abr 19 2007 

Vamos agora variar um pouco e partir para as resenhas. Comecemos por uma ótima série de espionagem da Dargaud, Wayne Shelton.

Capa de Wayne Shelton 1

Sou grande apreciador do trabalho do roteirista belga Jean Van Hamme, criador de séries como Thorgal, XIII e Largo Winch e escritor de língua francesa mais vendido da atualidade. Nos intervalos entre a publicação das suas séries mais famosas, Van Hamme tem o hábito de escrever trabalhos “menores”, ainda que não necessariamente de menos qualidade, Wayne Shelton é um deles.

Thriller de espionagem no estilo habitual do autor, a série se diferencia por seu protagonista. Depois de criar Largo Winch, um aventureiro milionário jovem, e XIII, um aventureiro adulto no auge da forma, Van Hamme decidiu criar um protagonista que, tal como o próprio autor, já viveu seus melhores anos e começa a sentir o peso da idade, o cinquentão Wayne Shelton. O protagonista, antigo soldado das forças especiais americanas no Vietnã, é um mercenário e contrabandista contratado para cumprir uma missão espinhosa: Libertar da prisão um caminhoneiro francês detido em uma pequena ex-república soviética após matar acidentalmente o ministro da defesa do país! Ora, Shelton não pode fazer um trabalho complicado desses sozinho e decide, no melhor estilo Missão Impossível, recrutar uma equipe especial para ajudá-lo em um plano mirabolante para libertar o prisioneiro.

Página do primeiro álbum. Germânio de novo?

Todo o primeiro álbum mostra esse recrutamento, algo bastante raro no quadrinho franco-belga (que geralmente prefere uma narrativa mais corrida para compensar o relativamente baixo número de páginas), o que permite a Van Hamme desenvolver bastante os personagens. O que é justificável, já que no segundo álbum uma traição vai colocar a missão – e as vidas desses personagens – em risco.

Capa de Wayne Shelton 2
A arte, de Christian Denayer, antigo assistente de Jean Graton (Michel Vaillant) e Tibet (Ric Hochet), é de boa qualidade, na linha habitual dos desenhistas europeus de HQs realistas, mas sem nenhum destaque particular para além da esperada atenção aos detalhes. O ponto mais fraco são mesmo as capas, um pouco genéricas e nada representativas do conteúdo. O próprio Wayne Shelton mal aparece nas duas que estão aqui (é ele quem está no caminhão da primeira capa)! As cores têm a qualidade habitual das HQs franco-belgas.

Lápis e arte terminada do volume 2

A história segue o estilo não apenas de Missão Impossível mas da antiga HQ de espionagem Bruno Brazil (com quem compartilha o elenco de personagens exóticos e o destino trágico de vários deles). Porém o dedo do escritor é visível na trama bem elaborada e nos personagens cativantes. Vale mencionar a única mulher da equipe, com o nome “bondiano” de Honesty Goodness, uma sedutora ilusionista com forte personalidade, no estilo das heroínas de Van Hamme.

Honesty Goodness no lápis de Denayer

A única real falha da história é reaproveitar parte da trama do arco de XIII passado em San Miguel, com toda aquela história da empresa inescrupulosa explorando jazidas de germânio. Van Hamme não costuma reciclar ideias assim! É no mínimo curioso que ele não tenha pensado em outro minério raro e valioso que pudesse estar no lugar do agora malhado germânio…

Pensado originalmente como um one-shot em dois volumes (o que é bastante visível durante a leitura dos álbuns), Wayne Shelton mostrou fôlego o bastante para a Dargaud decidir expandi-lo para uma série regular. Sem interesse em continuar a série, Van Hamme passa os roteiros para Thierry Cailleteau (Aquablue) a partir do terceiro álbum. Não sei dizer como ficou a série sob o novo escritor, mas os dois primeiros álbuns são de qualidade e deveriam algum dia ganhar uma edição em língua portuguesa.