HQs e política na França – Conclusão domingo, maio 13 2007 

A eleição presidencial francesa já passou e, como se esperava, Nicolas Sarkozy é o novo presidente da República Francesa, assumindo o cargo na próxima quarta-feira (16 de maio). Hora das editoras lançarem seus últimos trabalhos sobre o assunto e medirem os resultados.

Edição espanhola da bem sucedida paródia de Sarkozy

Edição espanhola da bem sucedida paródia de Sarkozy

O grande sucesso da turma foi, sem dúvida, La face kärchée de Sarkozy, que eu mencionei em meu artigo anterior, que vendeu mais de 200 mil cópias em sua edição francesa, para não falar em uma tradução espanhola que parece ter tido um desempenho razoável. O que impulsionou os autores a escreverem uma continuação, Sarko 1er, que cobre o período eleitoral e será publicada dia 15 de maio, véspera da posse do novo presidente. Para poder terminar o álbum ainda antes da posse, os autores chegaram a fazer duas versões diferentes da capa, para cada um dos candidatos do segundo turno do escrutínio eleitoral gaulês.

Capa do novo álbum parodiando Sarkozy

Outras HQs publicadas para aproveitar o interesse do público na eleição tiveram um desempenho mais modesto. A dupla Tout sur Sarko/Ségo, que eu igualmente mencionei em meu artigo, vendeu “apenas” cerca de 20 mil exemplares cada um (ainda muito acima das vendas médias de um álbum na França, estimadas em 7 mil exemplares).

Capa prevista para caso Ségolène vencesse a eleição presidencial

Todo esse furor de criação de HQs oportunistas sobre a eleição presidencial despertou a curiosidade de muita gente, com algumas reportagens televisivas sobre o assunto chegando até às redes de televisão americanas, que raramente falam sobre quadrinhos! A revista francesa especializada em quadrinhos BoDoï também fez uma reportagem sobre o assunto, com direito a uma curta entrevista com o autor e jornalista Pierre Christin (Valerian, A Caçada, Falanges da Ordem Negra), um dos poucos argumentistas franceses com tradição em escrever sobre assuntos políticos.

Eu e Pierre Christin no último Festival de Angoulême. Não ia perder a chance de mostrar esta foto!

Christin afirmou que há pouca gente escrevendo HQs políticas “de verdade” e gente demais trabalhando nessas sátiras a Sarkozy e Ségolène. Ele fala com conhecimento de causa, já que alguns de seus trabalhos mais políticos (como A Caçada, obra de ficção ambientada nos bastidores do regime soviético) são bem vendidos até hoje, décadas depois de sua publicação.

Capa de A Caçada, arte de Enki Bilal

Uma HQ política nova seria o primeiro volume da série Élysée République, de autoria da dupla Rémy Le Gall, que, de acordo com a editora, é lobista da indústria de armamentos e antigo alto funcionário do executivo francês, e Frisco, que consta ser o pseudônimo de um artista já estabelecido dos quadrinhos franceses.

Capa do primeiro álbum da série Élysée République

Prevista como uma série de cinco álbuns (o primeiro foi publicado em fevereiro), Élysée République segue a trajetória de Constant Kérel, honesto deputado francês que quer ser o próximo presidente do país. No primeiro álbum ele descobre um segredo que pode ser fatal para o atual presidente, seu adversário político. Nos álbuns seguintes, o autor pretende acompanhar a caminhada do protagonista rumo à ambicionada presidência. Conseguirá ele manter sua integridade ou terá de abrir mão de seus princípios para poder chegar ao poder?

Página de Élysée République

Página de Élysée République

Já existem HQ examinando o tema, em particular o mangá Eagle, de Kaiji Kawaguchi, que mostra um candidato nipo-americano tantando chegar à presidência dos Estados Unidos, mas Élysée segue uma linha diferente, a de Largo Winch, mostrando seu protagonista não apenas como um hábil político, mas também como um corajoso homem de ação, tal e qual o herói Largo Winch, cujas tramas misturam ação e os bastidores das altas finanças e inspirou uma infinidade de outros heróis em moldes similares, dos quais Constant Kérel é o mais recente.

Capa da edição francesa do mangá Eagle, uma ficção pol�tica mais convencional

Para além das acrobacias de seu protagonista, a série tem sido muito elogiada por sua representação realista (ou ao menos convincente) das engrenagens do poder na França.

Voltando um pouco ao presidente eleito da França, Sarkozy fez recentemente uma incomum crítica ao chargista político Plantu, que o caricaturou caracterizado como o líder da extrema direita Jean-Marie Le Pen. Aparentemente Sarko não gostou da comparação! A resposta do chargista foi, obviamente, satirizar ainda mais o político.

A caricatura que tirou Sarkozy do sério

A eleição de Sarkozy também provocou um regresso inesperado. Frantico, autor de um polêmico blog em quadrinhos que foi posteriormente transformado em livro, surpreendera o mundo dos quadrinhos francês no ano passado, quando foi revelado que ele seria nada menos que o célebre autor Lewis Trondheim, maior nome do quadrinho “alternativo” francês, trabalhando sob pseudônimo (Trondheim nega, com pouca convicção). Agora “Frantico” está de volta, com um novo blog em que satiriza Sarkozy, retratando-o como “Nico Shark”, retratando-o como o ditatorial diretor de recursos humanos de uma empresa.

(Pessoalmente eu acho crueldade comparar um ser humano com um diretor de recursos humanos…)

Por fim, um acontecimento ainda mais estranho que serve como prova definitiva da ligação entre quadrinhos e política na França: Um autor de quadrinhos, Jean-Luc Coudray, é candidato nas eleições legislativas francesas, a serem realizadas em junho!

Cartaz de propaganda eleitoral de Coudray

Veterano autor de quadrinhos (está no sangue, seu irmão gêmeo Philippe Coudray também trabalha na área!), Jean-Luc Coudray já trabalhou com autores do porte de Trondheim ou Moebius e agora é candidato pelo Parti pour la Decroissance (“Partido do Decrescimento”), que defende o fim da busca obsessiva pelo crescimento econômico, argumentando que isso tem prejudicado a sociedade e o meio ambiente! Não deixa de ser verdade, muito embora eu pense que o fim desse crescimento não resolva necessariamente esses problemas – e crie muitos outros!

Antes de sua carreira política, Coudray trabalhou em diversas HQs de sátira política, como Béret et Casquette (“Boné e Boina”). É de se imaginar que logo ele terá material para muitas outras…

Capa de Béret et Casquette

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José Aguiar no Centro de Cultura França-Alemanha de Niterói quarta-feira, maio 9 2007 

Andei muito ocupado esses últimos dias para poder atualizar o blog. Mea culpa, vou tentar compensar o melhor que puder. Primeiro divulgando um evento que está rolando na cidade de Niterói (RJ).

Bom amigo meu e artista de grande talento, o curitibano José Aguiar é um dos raros artistas brasileiros de quadrinhos trabalhando no exigente mercado europeu. Depois de ter feito diversos trabalhos para o mercado brasileiro (incluindo uma participação na “reformulação” do super-herói curitibano O Gralha), Aguiar, em parceria com o também brasileiro Wander Antunes, publicou pela editora suiça Paquet dois álbuns da série policial Ernie Adams.

Capas dos dois álbuns de Ernie Adams

A série não foi um grande sucesso (é complicado uma série de uma editora pequena se destacar em um mercado com mais de 3000 lançamentos de quadrinhos por ano…), mas foi o bastante para Aguiar, na altura morando na Alemanha, fazer uma pequena turnê de lançamento por França e Suiça.

Aguiar autografando seus trabalhos em uma loja de quadrinhos suiça

Durante a turnê, ele aproveitou para colocar no papel suas impressões do Velho Continente, prática bastante comum para os artistas europeus em viagem pelo mundo, que Aguiar “inverteu” fazendo ele próprio uma série de ilustrações da pitoresca Europa.

Aguiar junto à antiga residência de Rodolphe Töpffer, o “inventor” dos quadrinhos!

De volta ao Brasil, fez a exposição Reisetagebuch – Uma Viagem Ilustrada pela Alemanha, na qual exibiu suas ilustrações, e uma HQ autobiográfica publicada na revista Omelete, do website homônimo, do qual nós dois somos colaboradores de longa data.

Página da HQ de Aguiar no Omelete, mostrando as peripécias do casal Aguiar em Paris

(Incidentalmente, seu Aguiar, quase todos os parisienses sabem inglês, apenas se recusam a falar nessa língua! Mas eles falam em inglês se você tentar falar com eles em francês e não conseguir, por estranho que pareça. Esses franceses são loucos!)

O plano de Aguiar é fazer um livro misturando suas ilustrações, quadrinhos e textos falando sobre suas experiências na Europa, um tipo de trabalho muito difundido no Velho Continente, mas praticamente inexistente no Brasil, ao menos na vertente de quadrinhos.

A exposição Viajando em Quadrinhos pela França e Alemanha, que reune esses trabalhos com páginas produzidas para Ernie Adams, abre hoje no Centro de Cultura França Alemanha, em Niterói, com a presença do autor. O Centro de Cultura fica na Estrada Francisco da Cruz Nunes, 6266, Oásis Shopping Center, Piratininga, Niterói-RJ, e abre de segunda a sexta-feira, das 13h às 21 horas e sábados das 8h às 12 horas. Vão lá e digam que Hunter os mandou, que vão poder entrar sem pagar! Bem, na verdade vão poder entrar de graça até sem falar nada, porque a entrada é franca…

Dinâmica página de Ernie Adams, t�pica das que estarão na exposição

A exposição fica até o fim do mês. Se estiverem nas proximidades, visitem-na!

Página de teste de Aguiar com Dylan Dog. Não tem nada a ver com a exposição, mas eu não podia deixar de postar isso!

Enquanto ninguém se anima a publicar esse projeto no Brasil (e se você é um editor de quadrinhos, está lendo isso e ainda não entrou em contato com o Aguiar para publicá-lo, qual é o seu problema afinal?), Aguiar continua seu trabalho para a Paquet, desta vez colaborando na coletânea Flying Doctors, um álbum coletivo em homenagem à ONG AMREF, que presta ajuda médica a comunidades africanas isoladas utilizando aviões. O álbum será publicado na coleção Cockpit da editora, dedicada a histórias de aviação, e será escrito por Régis Hautière, com arte de 10 artistas de diversas nacionalidades, entre eles Aguiar. O título do álbum será Un jour de mai (“Um dia de maio”).

Página de Un jour de mai de autoria de Aguiar, que mostra sua habilidade como desenhista “técnico”

É uma pena que alguém como José Aguiar precise ir até a Europa para conseguir publicar seus trabalhos. Resta esperar que um dia o mercado brasileiro esteja sólido o suficiente para que talentos como ele possam publicar no próprio país!