Novamente a falta de tempo me fez negligenciar o blog por um período demasiado longo. Tentarei compensar nos próximos dias.

Todo esse tempo de ausência fez com que eu não comentasse uma palestra do artista David B. (pseudônimo de Pierre-François Beauchard) que eu assisti mês passado no Instituto Franco-Português de Lisboa. O autor fora convidado para o Festival Internacional de BD de Beja e o Instituto, sabiamente, aproveitou sua curta passagem por Lisboa para convidá-lo a dar lá uma palestra.

Foto do autor. Infelizmente eu não tirei fotos da palestra.

Foto do autor. Infelizmente eu não tirei fotos da palestra.

David B. foi, junto com outros seis autores, um dos fundadores da célebre editora francesa L’Association em 1990. A editora revolucionou o mercado francês, introduzindo uma série de formatos e temáticas antes impensáveis na então altamente conservadora indústria de quadrinhos franco-belga.

Dono de um estilo enganadoramente simples, mas capaz de desenhar páginas de composição arrojada e possuidor de um excelente domínio das técnicas do chiaroscuro, o autor virou uma lenda entre os autores de quadrinhos “alternativos” ao criar a série L’Ascension du Haut Mal (que está para ser publicada no Brasil com o título de “Epiléptico”, pela editora Conrad), publicada pela L’Association entre 1996 e 2003, que aborda a relação entre o autor e seu irmão, vítima de epilepsia, de uma forma inovadora, quase onírica. A série foi bastante premiada e traduzida em diversas línguas.

Exemplo das belas composições de página de David B.
De lá para cá, David B. participou de muitos outros projetos, sozinho ou em parceria com outros autores, como Christophe Blain(de Isaac o Pirata) e Joann Sfar(O Gato do Rabino). Em 2005 deixou a editora que ajudara a fundar e passou a publicar primordialmente pela nova encarnação da editora Futuropolis, onde ainda se encontra.

Apesar de ter ficado famoso por seus trabalhos autobiográficos, David B. já fez uma infinidade de quadrinhos sobre outros temas, em particular falando de seus sonhos surreais, uma grande influência em toda sua obra.

Na palestra, falada em francês, David B. falou sobre todos esses assuntos e diversos outros. Explicou as razões que o levaram a deixar a L’Association (essencialmente ele rompeu com o cacique da editora, Jean-Christophe Menu), falou sobre sua vida e seus projetos. Não vou escrever aqui tudo o que ele falou, mas devo dizer que foi uma palestra assaz interessante.

Vale também adicionar que, caso único entre todas as vezes em que eu assisti palestras de autores de quadrinhos estrangeiros, fosse em festivais ou em eventos pontuais como este, a livraria do Instituto teve o cuidado de trazer e colocar à venda todos os trabalhos do autor disponíveis na França! Uma medida aparentemente óbvia, mas que eu nunca vira antes posta em prática! Certamente valeu a pena, já que quase todos os que assistiram a palestra (pouco mais de uma dúzia de pessoas) saíram de lá com um ou mais álbuns recém-comprados nas mãos (eu inclusive). Ouso dizer que esse tipo de boa visão comercial é uma das razões da prosperidade do mercado francês…

Entre o material que adquiri estão as duas mais recentes obras do autor, publicadas pela Futuropolis, que eu comentarei a seguir:

Capa de Le jardin armé et autres histoires

Capa de Le jardin armé et autres histoires

Le jardin armé et autres histoires é uma coleção de três histórias (duas delas serializadas na antiga revista Lapin da L’Association), que abordam temas ligados à religião e os conflitos criados pelo fanatismo, mas dentro de uma ambientação fantástica e sobrenatural.

Na primeira história, Le prophète voilé (“O profeta velado”), um homem tem o rosto coberto por uma misteriosa faixa de tecido e transforma-se no profeta velado, um poderoso conquistador e líder religioso que eventualmente desperta a atenção do famoso califa Harun al-Rashid, que por sua vez precisa descobrir uma forma de destruir este oponente sobrenatural. A segunda história, Le jardin armé (“O jardim armado”), mostra um ferreiro da Praga medieval que crê ter visões que o levarão até o Jardim do Éden, rapidamente ele atrai um exército de fanáticos a seu redor e começa a espalhar o caos e a violência pela região. Por fim, na última história, Le tambor amoureux (“O tambor apaixonado”), o líder hussita Jan Zizka, que aparecera na história anterior, morre e seus seguidores criam com sua pele um tambor, cujo toque permite a seu exército vencer todas as batalhas, mas o tambor cai nas mãos de uma jovem, por quem o espírito de Zizka se apaixona.

Página de Le prophète voilé
As três histórias são excepcionalmente criativas e cativantes, ajudadas pela bela arte de David B., que retrata com perfeição a magia de seus personagens. Mais que uma história em quadrinhos, este álbum é uma entrada para um mundo onde violência, magia e religião andam de braços dados. E uma das melhores HQs que eu li nos últimos meses.

Capa do primeiro volume de Par les chemins noirs
Par les chemins noirs (“Por caminhos obscuros”) é o título da mais recente série de David B., cujo primeiro álbum, entitulado Les Prologues (“Os prólogos”) foi recentemente editado na França. Como o título diz, é uma série de “prólogos” da saga que o autor pretende contar, ambientada na então cidade iugoslava de Fiume (hoje Rijeka, na Croácia) em 1920, quando a cidade, de maioria italiana, foi ocupada militarmente pelo escritor e aventureiro italiano Gabriele d’Annunzio, que tentou criar lá um “estado livre”. O álbum mostra a vida de uma série de personagens exóticos (entre eles o próprio poeta), cujos caminhos se cruzam em meio ao caos criado pela ocupação do “brancaleonesco” exército de D’Annunzio.

Página de Par les chemins noirs
Necessariamente menos exótico e surreal que as outras obras mencionadas acima, o álbum chama a atenção pela eficiente caracterização dos personagens e o bom humor com que retrata a inusitada situação em que se encontram. Apesar das limitações em trabalhar com uma temática mais realista, a arte de David B. continua bastante eficiente, exibindo ocasionalmente (mas sempre em contexto!) as composições surrealistas que fizeram a fama do autor. Um início promissor para uma série ambiciosa como esta.

Para aqueles que ainda não conhecem o autor e não têm o privilégio de saber francês ou poder assistir uma palestra com ele, eu recomendo adquirirem a edição brasileira de “Epiléptico”, que está prestes a ser lançada pela Conrad.

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