A eleição presidencial francesa já passou e, como se esperava, Nicolas Sarkozy é o novo presidente da República Francesa, assumindo o cargo na próxima quarta-feira (16 de maio). Hora das editoras lançarem seus últimos trabalhos sobre o assunto e medirem os resultados.

Edição espanhola da bem sucedida paródia de Sarkozy

Edição espanhola da bem sucedida paródia de Sarkozy

O grande sucesso da turma foi, sem dúvida, La face kärchée de Sarkozy, que eu mencionei em meu artigo anterior, que vendeu mais de 200 mil cópias em sua edição francesa, para não falar em uma tradução espanhola que parece ter tido um desempenho razoável. O que impulsionou os autores a escreverem uma continuação, Sarko 1er, que cobre o período eleitoral e será publicada dia 15 de maio, véspera da posse do novo presidente. Para poder terminar o álbum ainda antes da posse, os autores chegaram a fazer duas versões diferentes da capa, para cada um dos candidatos do segundo turno do escrutínio eleitoral gaulês.

Capa do novo álbum parodiando Sarkozy

Outras HQs publicadas para aproveitar o interesse do público na eleição tiveram um desempenho mais modesto. A dupla Tout sur Sarko/Ségo, que eu igualmente mencionei em meu artigo, vendeu “apenas” cerca de 20 mil exemplares cada um (ainda muito acima das vendas médias de um álbum na França, estimadas em 7 mil exemplares).

Capa prevista para caso Ségolène vencesse a eleição presidencial

Todo esse furor de criação de HQs oportunistas sobre a eleição presidencial despertou a curiosidade de muita gente, com algumas reportagens televisivas sobre o assunto chegando até às redes de televisão americanas, que raramente falam sobre quadrinhos! A revista francesa especializada em quadrinhos BoDoï também fez uma reportagem sobre o assunto, com direito a uma curta entrevista com o autor e jornalista Pierre Christin (Valerian, A Caçada, Falanges da Ordem Negra), um dos poucos argumentistas franceses com tradição em escrever sobre assuntos políticos.

Eu e Pierre Christin no último Festival de Angoulême. Não ia perder a chance de mostrar esta foto!

Christin afirmou que há pouca gente escrevendo HQs políticas “de verdade” e gente demais trabalhando nessas sátiras a Sarkozy e Ségolène. Ele fala com conhecimento de causa, já que alguns de seus trabalhos mais políticos (como A Caçada, obra de ficção ambientada nos bastidores do regime soviético) são bem vendidos até hoje, décadas depois de sua publicação.

Capa de A Caçada, arte de Enki Bilal

Uma HQ política nova seria o primeiro volume da série Élysée République, de autoria da dupla Rémy Le Gall, que, de acordo com a editora, é lobista da indústria de armamentos e antigo alto funcionário do executivo francês, e Frisco, que consta ser o pseudônimo de um artista já estabelecido dos quadrinhos franceses.

Capa do primeiro álbum da série Élysée République

Prevista como uma série de cinco álbuns (o primeiro foi publicado em fevereiro), Élysée République segue a trajetória de Constant Kérel, honesto deputado francês que quer ser o próximo presidente do país. No primeiro álbum ele descobre um segredo que pode ser fatal para o atual presidente, seu adversário político. Nos álbuns seguintes, o autor pretende acompanhar a caminhada do protagonista rumo à ambicionada presidência. Conseguirá ele manter sua integridade ou terá de abrir mão de seus princípios para poder chegar ao poder?

Página de Élysée République

Página de Élysée République

Já existem HQ examinando o tema, em particular o mangá Eagle, de Kaiji Kawaguchi, que mostra um candidato nipo-americano tantando chegar à presidência dos Estados Unidos, mas Élysée segue uma linha diferente, a de Largo Winch, mostrando seu protagonista não apenas como um hábil político, mas também como um corajoso homem de ação, tal e qual o herói Largo Winch, cujas tramas misturam ação e os bastidores das altas finanças e inspirou uma infinidade de outros heróis em moldes similares, dos quais Constant Kérel é o mais recente.

Capa da edição francesa do mangá Eagle, uma ficção pol�tica mais convencional

Para além das acrobacias de seu protagonista, a série tem sido muito elogiada por sua representação realista (ou ao menos convincente) das engrenagens do poder na França.

Voltando um pouco ao presidente eleito da França, Sarkozy fez recentemente uma incomum crítica ao chargista político Plantu, que o caricaturou caracterizado como o líder da extrema direita Jean-Marie Le Pen. Aparentemente Sarko não gostou da comparação! A resposta do chargista foi, obviamente, satirizar ainda mais o político.

A caricatura que tirou Sarkozy do sério

A eleição de Sarkozy também provocou um regresso inesperado. Frantico, autor de um polêmico blog em quadrinhos que foi posteriormente transformado em livro, surpreendera o mundo dos quadrinhos francês no ano passado, quando foi revelado que ele seria nada menos que o célebre autor Lewis Trondheim, maior nome do quadrinho “alternativo” francês, trabalhando sob pseudônimo (Trondheim nega, com pouca convicção). Agora “Frantico” está de volta, com um novo blog em que satiriza Sarkozy, retratando-o como “Nico Shark”, retratando-o como o ditatorial diretor de recursos humanos de uma empresa.

(Pessoalmente eu acho crueldade comparar um ser humano com um diretor de recursos humanos…)

Por fim, um acontecimento ainda mais estranho que serve como prova definitiva da ligação entre quadrinhos e política na França: Um autor de quadrinhos, Jean-Luc Coudray, é candidato nas eleições legislativas francesas, a serem realizadas em junho!

Cartaz de propaganda eleitoral de Coudray

Veterano autor de quadrinhos (está no sangue, seu irmão gêmeo Philippe Coudray também trabalha na área!), Jean-Luc Coudray já trabalhou com autores do porte de Trondheim ou Moebius e agora é candidato pelo Parti pour la Decroissance (“Partido do Decrescimento”), que defende o fim da busca obsessiva pelo crescimento econômico, argumentando que isso tem prejudicado a sociedade e o meio ambiente! Não deixa de ser verdade, muito embora eu pense que o fim desse crescimento não resolva necessariamente esses problemas – e crie muitos outros!

Antes de sua carreira política, Coudray trabalhou em diversas HQs de sátira política, como Béret et Casquette (“Boné e Boina”). É de se imaginar que logo ele terá material para muitas outras…

Capa de Béret et Casquette

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