Hoje é aniversário do desenhista Albert Uderzo, que completa 80 anos de vida (e mais de 50 de quadrinhos!). Nada mais justo então do que falar do personagem que ele criou em parceria com o roteirista René Goscinny (já falecido) e se tornou um dos personagens de quadrinhos mais famosos do mundo: Asterix, o Gaulês!

Asterix, o Gaulês

Asterix, o Gaulês

Segundo os autores, Asterix teria sido criado pela dupla em uma tarde de verão de 1959 no quitinete onde morava Uderzo, no subúrbio parisiense de Bobigny. Eles precisavam criar uma série humorística para o semanário Pilote, que lançariam dentro de poucos meses. Primeiro eles pensaram em fazer uma adaptação em quadrinhos do Le Roman de Renart, célebre série de contos satíricos da França medieval, mas depois descobriram que já existia um projeto similar em produção. Ainda à procura de uma sátira histórica, eles acabaram decidindo se fixar no período gaulês.

A inspiração foi rápida. Em poucos minutos, Goscinny se inspirou no nome do chefe gaulês Vercingétorix para decidir batizar seus personagens gauleses com nomes terminados em “ix”. Seu protagonista seria um baixinho chamado Asterix (derivado de “asterisco”), por ser tão imperceptível quanto um sinal de pontuação. A temática da aldeia gaulesa irredutível resistindo ao invasor romano inspirou-se certamente tanto na resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial (ainda fresca na memória dos franceses naquela altura) quanto no Gaullismo então corrente (Charles de Gaulle acabara de assumir a presidência da França), algo que certamente contribuiu para a rápida popularidade do personagem. Também naquele momento surgiu a ideia da poção mágica criada por um druida como explicação para essa resistência. Tudo antes mesmo do personagem ser desenhado! Eventualmente outros personagens marcantes, entre eles seu inseparável companheiro Obelix, se juntariam à série.

Asterix e seu inseparável companheiro Obelix

Asterix e seu inseparável companheiro Obelix

Asterix surge então no primeiro número da Pilote, publicado em 29 de Outubro de 1959. Rapidamente torna-se o personagem mais popular da revista e, com o decorrer dos anos, do quadrinho franco-belga, destronando o até então imbatível Tintim. Simbolicamente também alterando o balanço de poder dentro do quadrinho franco-belga, que até o surgimento da Pilote tinha sido dominado pelas HQs de origem belga. O pequeno gaulês triunfara não apenas contra os romanos como contra os belgas!

Asterix logo se tornou um dos símbolos do orgulho nacional francês. Quando a França lançou seu primeiro satélite ao espaço, em 1965, este foi batizado de “Asterix”! Porém isso não o impediu de ganhar popularidade no exterior. Começando por Portugal (em 1961), Asterix passou a ser publicado em uma infinidade de países não-francófonos, obtendo particular sucesso na Alemanha (onde seus álbuns vendem quase tanto quanto na França!) e até na Inglaterra, país onde as HQs franco-belgas não costumam ter muita penetração. A popularidade do personagem chegou a tal ponto que cada álbum novo passou a ter uma tiragem inicial superior a um milhão de exemplares (a tiragem inicial do mais recente foi de 7 milhões de exemplares, dos quais 3 em língua francesa!). O número de álbuns vendidos até hoje é superior a 300 milhões, o que faz dele um dos personagens de quadrinhos mais populares de todos os tempos (se não o mais!).

Para toda essa popularidade contribuiu bastante a genialidade de seus criadores, tanto a incomparável visão satírica de Goscinny quanto a fenomenal arte de Uderzo, que se complementam com uma perfeição raras vezes vista na história dos quadrinhos. Aliás, pode-se argumentar até que a dupla é a melhor equipe criativa da história da HQ mundial, já que a maior parte dos outros quadrinhos de qualidade comparável costumam ser o trabalho de criadores individuais.

Goscinny e Uderzo refletem a popularidade de seu personagem

Goscinny e Uderzo refletem a popularidade de seu personagem

Infelizmente Goscinny faleceu prematuramente em 1977, quando a série estava no auge. Após o choque inicial, Uderzo decidiu terminar o álbum que Goscinny deixara incompleto (Asterix entre os belgas) e continuar a série por si só. Sua justificativa seria de que nenhum outro escritor poderia substituir seu antigo companheiro. O que não deixa de ser verdade, já que o trabalho de Uderzo como criador único dos álbuns mais recentes tem sido bastante irregular, com alguns álbuns de boa qualidade (como A odisséia de Asterix) e outros bastante fracos. A arte, porém, mantém-se de alto nível. Uderzo já anunciou que, tal qual Hergé, não deseja que a série seja continuada após sua morte, o que faz com que cada novo álbum da série que produz seja potencialmente o derradeiro.

Página do mais recente álbum de Asterix

Apesar disso, Asterix ainda é uma HQ de qualidade e popularidade inquestionáveis, que merece figurar em qualquer estudo sério dos quadrinhos. E parabéns a Uderzo por seu aniversário, que muitos outros o sigam!

Asterix e os irredutíveis gauleses

Asterix e os irredutíveis gauleses

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