Apesar do nome do blog, eu não me proponho somente a falar dos quadrinhos europeus (embora sejam o assunto principal). Também pretendo falar de HQs de outras procedências, já que eu leio quadrinhos de tudo quanto é lugar, sem preconceitos.

The Hedge Knight é uma adaptação de um conto do escritor norte-americano George R. R. Martin (também criador da série de livros Wild Cards, que inclusive já teve uma versão em quadrinhos publicada no Brasil pela Editora Globo). Ele foi publicado originalmente na antologia Legends, editada por Robert Silverberg. A ideia dessa antologia era publicar contos de autores de séries de fantasia consagradas passados nos mesmos universos dessas séries. Assim seria possível, ao menos em teoria, divulgar os trabalhos de todos autores aos leitores de cada um deles. Com nomes de peso do gênero como Stephen King, Robert Jordan e até, no segundo Legends, Neil Gaiman envolvidos, o sucesso comercial também parecia inevitável. Porém as antologias não tiveram tanto sucesso assim e acabaram se tornando mais uma curiosidade para os leitores desses autores procurarem do que uma forma de divulgação eficiente. Um desses contos era The Hedge Knight, de autoria de Martin e passado no mesmo universo de sua consagrada série A Song of Ice and Fire, embora ambientado muitos anos antes dos eventos desta.

Enquanto isso, os irmãos Ernst, Lester, Pascal e David Dabel fundaram um pequeno estúdio de produção de quadrinhos. Os assim chamados Dabel Brothers logo começaram a publicar suas HQs, primeiro em parceria com a Image Comics, depois com a pequena e ambiciosa editora Alias, do polêmico artista Mike S. Miller. Tentando descobrir uma forma de sobreviver no impiedoso mercado norte-americano, eles decidiram tentar uma ambiciosa adaptação para quadrinhos da série de livros A Song of Ice and Fire.

Porém Martin prudentemente achou que um estúdio de pequeno porte como o dos Dabel não teria capacidade de executar a titânica tarefa de adaptar a série (que conta atualmente com três livros de mais de 800 páginas cada – muito maior que O Senhor dos Anéis!) para quadrinhos e sugeriu que ao invés disso eles adaptassem Hedge Knight, uma história muito mais curta.

Justiça seja feita, os irmãos lançaram-se nessa adaptação sem dar qualquer sinal de ressetimento por terem sido forçados a trabalhar em um “prêmio de consolação”. Rapidamente montaram uma talentosa equipe, com Ben Avery no argumento, o próprio Mike Miller na arte e um grande número de autores de fantasia de peso nas capas (Boris Vallejo, os irmãos Hildebrant, Mike Kaluta, etc.), e publicaram uma mini-série em 6 edições que foi o maior sucesso da pequena editora. A encadernação que se seguiu obteve um sucesso ainda maior nas livrarias americanas, sem dúvida impulsionada pelo nome de Martin.

O sucesso do lançamento abriu as portas para os irmãos publicarem outras adaptações de autores de fantasia (em particular daqueles presentes em Legends) e, eventualmente, fazerem uma parceria com a poderosa Marvel Comics, que é a atual editora dos Dabel e a responsável pelo livro que eu vou (finalmente!) resenhar.

Capa da edição em capa dura de The Hedge Knight

O livro conta a história de Dunk, escudeiro de limitada inteligência mas boa índole de um envelhecido cavaleiro andante. A repentina morte de seu mestre faz com que ele tome uma decisão ousada: Entrar no torneio de cavalaria para onde seu amo se dirigia e, dessa forma, poder tornar-se também um cavaleiro. Porém um encontro casual com o garoto “Egg” (“Ovo”), que ele adota como seu próprio escudeiro, muda sua vida e acaba por colocá-lo em uma situação em que toda sua vontade de ser cavaleiro é posta em jogo.

Capa alternativa da mesma edição, para quem não gosta que suas HQs parecam HQs...

A história original é, como seria de se esperar do trabalho de um autor literário de talento, absolutamente espetacular, com uma impressionante quantidade de reviravoltas inesperadas, personagens bem construídos e, algo absolutamente inesperado para um trabalho que não se propõe como histórico, uma das melhores representações de um torneio medieval já feitas na ficção! Na minha humilde opinião, superior até ao clássico Ivanhoé de Walter Scott! A adaptação feita por Avery é bastante fiel ao texto original e, algo raro em adaptações, não perde nada em relação ao texto original.

Aliás, pode-se argumentar que até oferece mais do que este, pois é complementada pela bela arte de Miller, que se revela surpreendentemente hábil na complexa tarefa de desenhar armaduras, cavalos, ambientação medieval e o imenso elenco de personagens da história (há pelo menos duas dúzias de personagens “nomeados”!) sem comprometer a qualidade do seu trabalho nem ceder à tentação de fazer uma “fotonovela” das partes mais importantes da história original, um hábito tristemente comum em adaptações para quadrinhos de obras literárias. Sua narrativa e cenas de ação são tão dinâmicas (ainda que ocasionalmente confusas) quanto qualquer HQ de super-herói, mas estão sempre a serviço da história. Apesar de suas posições ideológicas polêmicas e ética pessoal duvidosa, Miller se revela neste trabalho um artista de primeira categoria, a ponto de ter sido chamado para desenhar a adapatação da segunda história dos personagens (que está prestes a ser publicada nos EUA) mesmo após sua ruptura com os Dabel, por exigência do próprio Martin, que ficou bastante impressionado com a arte da HQ. Justificadamente!

Espetacular capa de Mike Miller para a mini-série

Vale mencionar as capas das edições individuais da mini-série. Cada uma delas teve duas capas (política questionável porém comum nos EUA), geralmente uma desenhada por Miller e a outra por algum grande artista de fantasia. Valem mencionar que mesmo aí Miller mostrou talento, produzindo diversas capas que não ficam atrás das que os outros capistas fizeram! Todas elas estão no HC da Marvel, à exceção de uma, assinada pelos irmãos Hildebrant, reproduzida abaixo.

Capa dos irmãos Hildebrant, ausente da edição da Marvel

A edição da Marvel contém também uma curta amostra (meia dúzia de páginas) da próxima mini-série da equipe, que adapta a história de Martin originalmente publicada no segundo Legends. A julgar pela amostra, a segunda adaptação manterá o alto nível de qualidade da primeira!

Por fim, a edição em si tem capa dura e sobrecapa, papel couchê grosso de alta qualidade e impressão excepcional, com valores de produção comparáveis aos melhores álbuns europeus! Algo que seria praticamente impossível de se ver em uma HQ norte-americana de alguns anos atrás, mas parece estar cada dia mais comum. E, ao menos neste caso, o conteúdo está à altura da edição!

Em suma, uma HQ de qualidade excepcional que mais do que merece uma edição em português. Como é publicada pela Marvel, a editora lógica para uma edição em português (seja em Portugal ou no Brasil) seria a Panini, que faria bem em publicar essa história (e outras das adaptaçãoes de fantasia dos Dabel Brothers) ao invés de alguma mini-série descartável de um super-herói qualquer.

Saindo um pouco dos quadrinhos, também recomendo também a leitura dos livros de George R. R. Martin, em particular da série A Song of Ice and Fire, que transcendem a literatura de fantasia normal (geralmente um amealhado de chavões reciclados da obra de J. R. R. Tolkien), sendo inspirados não em O Senhor dos Anéis mas na Guerra das Duas Rosas, e repletos de tramas bizantinas, personagens ambíguos, diálogos memoráveis e ocasionais sequências de ação desenfreada. Leitura altamente recomendada!

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