Uma curiosa novidade agitou a indústria de quadrinhos francesa nos últimos dias. Dia 16 de Fevereiro foi oficialmente fundado o Sindicato de Autores de Quadrinhos da França, ligado ao SNAC (Syndicat National des Auteurs et des Compositeurs, Sindicato Nacional dos Autores e Compositores, agremiação sindical francesa que junta autores e outros “trabalhadores criativos” em geral). O objetivo deste sindicato é, como esperado, defender a categoria (que inclui escritores, desenhistas e os frequentemente ignorados coloristas) nas relações com o patronato.

A ideia é bastante antiga, mesmo fora da França. Nos anos 70 nos EUA, Neal Adams defendeu durante bastante tempo a criação de um sindicato para os quadrinhistas de lá, sem sucesso. Na França, onde, ao contrário dos EUA, a norma é os autores serem donos dos personagens, a demanda por um sindicato não costumava ser muito alta. Já existia uma Associação de Autores de Quadrinhos, a ADABD (Association des Auteurs de Bande Dessinée), mas ela não fora criada com objetivos puramente sindicais.

Porém eventos recentes ajudaram a impulsionar a criação do sindicato, em particular o “caso Dupuis”, acontecimento ocorrido pouco após a venda da tradicional editora belga Dupuis para a poderosa holding Média-Participations, também dona das editoras Dargaud e Lombard, quando uma repentina e polêmica mudança administrativa colocou em risco alguns direitos dos autores, que na ocasião se juntaram para pressionar a editora.

Espetacular foto dos autores se manifestando às portas da Dupuis. Em primeiro plano, na cadeira de rodas, o recentemente falecido Yvan Delporte

Depois destes acontecimentos traumáticos, a ideia de um sindicato voltou à mente de vários autores, em particular o então presidente do Festival de Angoulême, Lewis Trondheim, que aproveitou sua posição privilegiada para ajudar a organizar os autores em torno da proposta do sindicato.

Agora ela finalmente foi posta em prática. O sindicato já está atuante e realizou sua primeira intervenção na editora Humanoïdes Associés, que, em crise há alguns meses, anda atrasando os pagamentos aos seus autores. A editora prometeu resolver a situação.

Aos curiosos, o sindicato cobra 79€ ao ano (dedutíveis nos impostos) de contribuição sindical aos seus membros. Ele afirma não ter uma postura “anti-editoras”, pregando apenas uma relação mais equitativa entre autores e editoras. Uma das plataformas do sindicato diz respeito aos direitos de adaptação audiovisuais das obras, que maior parte das editoras exige para elas em seus contratos atuais e que, como os recentes sucessos cinematográficos baseados em HQs provam, podem ser verdadeiras minas de ouro. Conheço pessoalmente casos de rompimento entre autores e editoras na Europa motivados pela ambição daquelas com respeito a esses direitos!

O comitê de direção do sindicato é composto pelos autores Virginie Augustin, Julien Blondel, David Chauvel (Arthur), Kris, Michaël Le Galli, Cyril Pedrosa e Jean Philippe Peyraud. Os membros fundadores são Alfred, Christophe Arleston (Lanfeust de Troy), Virginie Augustin, Alain Ayroles, Denis Bajram (Universal War One), Joseph Béhé (O Decálogo), David Chauvel, Frank Giroud (O Decálogo), Richard Guérineau, Valérie Mangin (O Flagelo de Deus), Cyril Pedrosa, Lewis Trondheim e Fabien Vehlmann. Vale notar que são todos autores relativamente jovens (se você tem menos de 40 anos na indústria de quadrinhos franco-belga você é jovem…), não havendo nenhum autor “tradicional” envolvido.

Reunião do sindicato

Reunião do sindicato

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