Depois de alguns posts alegres e cheios de figurinhas, vamos enveredar agora pelo caminho mais sóbrio da teoria. Nos posts desta categoria, eu pretendo examinar a parte teórica dos quadrinhos tanto na vertente criativa (embora eu nunca tenha feito uma HQ na vida) quanto na comercial (embora eu nunca tenha vendido uma HQ na vida). Altamente qualificado como sou, eu não pretendo ter a última palavra sobre qualquer assunto, então estas mensagens são também convites ao debate.

Primeiro examinaremos uma tendência mundial: O desaparecimento das HQs das bancas. Ora, apesar de experimentos como os de Rodolphe Töpffer (para mim o verdadeiro pioneiro dos quadrinhos, mas isso é outro papo), que infelizmente não tiveram seguimento, as HQs somente se popularizaram quando começaram a aparecer nos jornais, em tiras diárias em P&B ou páginas dominicais coloridas (estas a base das indústrias de quadrinhos inglesa e franco-belga, mas isso também é outra história). A seguir surgiram as primeiras revistas dedicadas, a princípio republicando material dos jornais, mas logo, devido à relativa escassez deste, passando a publicar trabalhos exclusivos, que nas décadas de 30 a 50 espalharam-se pelas bancas de todo o mundo.

O formato dessas revistas, porém, não era constante em todos os países. Nos EUA os comics sugiram em um formato meio tablóide (ligeiramente reduzido com o tempo), a cores, com muitas páginas (eventualmente reduzidas de 84 para as magras vinte e poucas dos comics modernos) e periodicidade por norma mensal. Na Europa preferiu-se criar revistas nos moldes dos suplementos dominicais dos jornais (semanais, formato grande, ocasionalmente a cores, poucas páginas, mas com conteúdo mais trabalhado para compensar sua relativa escassez), embora a Itália eventualmente preferisse criar revistas com mais páginas, geralmente em P&B, e em formato menor, que são a maioria das publicações italianas de banca até hoje. No Japão, as HQs foram invadindo as revistas juvenis já existentes (ao menos uma delas, Shonen Magazine, foi criada nos anos 30 como revista juvenil para rapazes e é hoje uma revista em quadrinhos), que, para sobreviver no disputado mercado nipônico, foram aumentando sua periodicidade (de mensal para quinzenal ou mesmo semanal) e número de páginas (algumas ultrapassam as 900 páginas!), mantendo uma impressão em P&B (com ocasionais páginas a cores) e um formato razoavelmente grande para edições com esse volume de páginas, geralmente variando entre A4 e B5. Todas estas revistas eram antologias no princípio, até porque poucos desenhistas têm fôlego para desenhar o bastante por mês para fazer uma revista de mais de 22 páginas, mas com o tempo algumas passaram a se dedicar a um único personagem, em particular nos EUA.

Apesar dessas diferenças regionais, a constante era que as revistas eram consideradas descartáveis e impressas em papel de pouca qualidade. Por conta disso, poucos exemplares das revistas editadas nos anos 20 e 30 (época do lançamento das primeiras publicações do tipo) sobreviveram até hoje, menos de um século depois, e mesmo os melhor conservados estão em um estado lastimável se comparados a, por exemplo, livros de boa qualidade desse tempo conservados da mesma maneira.

A mensagem é clara: Esse tipo de publicação não é feito para durar! Mas com o tempo algumas das histórias publicadas nesses veículos fizeram sucesso a ponto de justificar edições mais permanentes, ou seja, livros de verdade, com papel de melhor qualidade e vendidos em livraria. Talvez devido às experiências de Töpffer quase um século antes, os europeus logo se tornaram entusiastas dessas edições, que alcançaram uma qualidade incomparável com as HQs vendidas no resto do mundo. Os japoneses preferiram edições menores e mais baratas (e mais similares a livros tradicionais), que se popularizaram a tal ponto que tornou-se habitual qualquer HQ publicada no Japão ganhar sua versão encadernada, fazendo com que as tradicionais antologias de banca japonesas fossem encaradas cada vez mais como material descartável, a ponto de serem literalmente jogadas fora pelos leitores logo após a leitura! Qualquer história que interessasse o leitor seria adquirida separadamente depois, em sua edição encadernada menor, mais cômoda, fácil de guardar (muito importante em um país em que qualquer imóvel minúsculo custa uma fortuna!) e livre das outras HQs menos interessantes para o leitor em questão.

Porém os mercados que mais influenciaram o brasileiro, o americano e o italiano, mantiveram-se durante muito tempo presos aos seus periódicos, seguindo uma evolução diferente. Mais sobre isso adiante.

Com o tempo, porém, surgiu uma constante: As vendas dos periódicos começaram a declinar! Devido a uma série de fatores, entre os quais o surgimento de outras formas de entretenimento periódico (a televisão sendo a mais destacada), os crescentes custos do papel que reduziram a diferença de preço entre o papel barato usado nos periódicos e outros tipos de papel mais sofisticados (o que levou os periódicos de quase todos os países a adotarem um papel de melhor qualidade – e mais caro! Exceto o Japão, que preferiu passar a publicar em papel reciclado absurdamente ordinário, mas adequado ao caráter totalmente descartável de suas publicações), a redução do espaço nas bancas provocada pela enorme quantidade de material vendido nesses espaços (que leva os jornaleiros, com razão, a preferir expor produtos mais caros que a típica HQ no espaço que têm disponível), além de vários outros fatores regionais que não vale a pena expor aqui.

No geral, a conclusão é clara: As bancas tornam-se cada vez mais um mercado hostil às típicas revistas em quadrinhos. O que fazer então?

Um outro mercado era necessário. Uma opção eram as lojas especializadas (que existem há muito tempo, a Lambiek holandesa abriu em 1968!), mas, apesar de alguns sucessos pontuais, em particular nos EUA, não costumam estar em quantidade suficiente para sustentar uma publicação. Isso não é exclusividade das HQs, afinal quantas livrarias especializadas em, digamos, livros de informática existem? Restam as livrarias generalistas, que têm a vantagem de já trabalhar com produtos similares e já serem uma rede pré-existente que não depende somente do público de quadrinhos para sobreviver.

Mas, perguntam vocês, o preço necessariamente mais elevado do material de livraria não encarece demais as HQs? Bem, encarece, é verdade, por isso as HQs vendidas em livraria precisam ser um material mais seleto do que o que se vê na banca. Watchmen? Beleza! Super-Homem ou Homem-Aranha deste mês? Nem pensar! Entendem o que eu quero dizer?

Isso não poderia acabar com os quadrinhos? Bem, não parece ter acabado com os livros! E os países que fizeram essa transição costumam ver um aumento nas vendas a longo prazo, enquanto as vendas de banca andam em uma queda constante e, aparentemente, inevitável no mundo inteiro.

Mas e a criançada? Não fica caro demais para eles? Bom, livros infantis custam o mesmo e esse é o gênero que mais vende em livrarias (podem verificar!). Nunca se esqueçam de que quem paga livros (ou quase tudo…) para as crianças são os pais, não as próprias! E, embora isso possa variar, meus pais preferiam me dar um álbum do Asterix ou Tintim ao invés de um gibi de super-heróis porque achavam que era um leitura melhor. Hoje eu vejo que tinham razão…

Mas isso significa que as HQs de banca vão acabar? Eu não diria isso por enquanto, mas temo que seja a tendência a longo prazo. Querem um exemplo? No final do século XIX, os livros (livros de literatura mesmo!) costumavam ser publicados no formato de folhetim, a um capítulo por edição com vários livros diferentes sendo serializados no mesmo jornal ou revista literária, antes de serem compilados em livros. Machado de Assis foi publicado assim originalmente. Idem para Charles Dickens e Alexandre Dumas. Pois bem, quantos livros ainda são publicados dessa maneira no mundo? Quantos desses folhetins ainda existem? Quase nenhum (isso porque admito que possa existir ainda algum, já que eu pessoalmente desconheço)! A literatura morreu por causa disso? Não, ficou até mais popular desde então!

O mundo parece caminhar nessa direção. Ano passado, pela primeira vez em sua história, as HQs americanas venderam mais em encadernação do que em revistas avulsas. A Itália é hoje o último país com uma grande indústria de quadrinhos em que as edições de bancas ainda vendem mais que as de livrarias – e mesmo lá as vendas de banca estão em queda livre! O mercado japonês também já favorece as livrarias desde 2005 e os editores de lá andam estudando opções alternativas à publicação em banca, tais como serialização no formato digital (ou seja, trocar as antologias por downloads via Internet) e até distribuição grátis de revistas (!).

Portanto, embora eu ainda seja um dos fósseis que acredita que o quadrinho de banca sempre existirá (mesmo na França, o mercado que mais se voltou para as livrarias, ainda é possível se encontrar uma boa gama de HQs nas bancas!), eu acho que é nas livrarias que está o futuro. E que qualquer um que pretenda publicar quadrinhos, em qualquer lugar do mundo, deve levar isso sempre em mente.

E vocês, o que acham?

Tipica seção de quadrinhos de uma livraria francesa. Será esse o futuro?

Típica seção de quadrinhos de uma livraria francesa. Será esse o futuro?

Adendo: Depois que eu escrevi meu texto original, obtive a informação de que também no Japão, o país onde os quadrinhos de banca (bem, todos os tipos de quadrinhos) vendem mais, as vendas de livraria ultrapassaram as de banca em 2005. Aliás, para ser exato as vendas de banca caíram abaixo das de livraria nesse ano, já que, como em todo o mundo, as vendas de HQs de banca no Japão estão em queda. O meu texto foi alterado para refletir ester novos dados!

Adendo 2: Agora eu obtive uma fonte mais concreta sobre a evolução de vendas de mangá, o informe anual sobre a indústria de publicações japonesa da JETRO, organização japonesa que monitora o comércio exterior do país. Siga o link para saber mais detalhes sobre as vendas de publicações no Japão em geral e de mangás em particular.

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