Embora mais comum do que no Brasil (seria impossível ser menos…), é bem raro os telejornais daqui de Portugal falarem de quadrinhos. Pois bem, ontem eu vi uma matéria razoavelmente longa (2-3 minutos) em um telejornal falando sobre a participação dos quadrinhos na… Campanha presidencial francesa!

Não é exagero. Quando estive na França para o Festival de Angoulême (detalhes de minha estadia por lá em futuros posts), havia já uma grande quantidade de álbuns nas livrarias satirizando os candidatos, o presidente atual (Jacques Chirac, que, quando ainda era um jovem político, foi a inspiração para o vilão do álbum Obelix e Companhia!) e a disputa presidencial em si.

Chirac em Asterix

A principal “vítima” das HQs é o candidato Nicolas Sarkozy. Baixinho, vaidoso, narigudo e com uma aparência na fronteira entre o cômico e o sinistro, ele é o alvo perfeito para as sátiras. Costuma ser comparado frequentemente ao personagem Iznogud (Iznogoud no original), de Goscinny e Tabary (já publicado no Brasil e em Portugal e que já teve uma adaptação excelente – ainda que pouco divulgada – em desenho animado), que vive conspirando contra seu chefe, o califa, porque quer “ser o califa no lugar do califa”, da mesma maneira que Sarkozy reportadamente conspiraria contra Chirac (que hoje em dia o detesta) para sucedê-lo na presidência. Panfletos políticos mostrando esse paralelo chegaram a ser distribuídos na porta do Festival de Angoulême por partidários da oposição, eu vi alguns! A comparação se literalizou quando Sarkozy decidiu mandar publicidade eleitoral via mail para centenas de milhares de eleitores franceses (uma novidade na política gaulesa), muitos dos quais, revoltados, responderam com uma “bomba do Google” que fez com que, durante algum tempo, buscas por Iznogud fossem parar no site de Sarkozy e vice-versa.

Iznogud normalIznogud como Sarkozy

Não foi a única sátira ao candidato e ministro. Ele logo se tornaria o “alvo” favorito dessas paródias. A principal delas é com certeza o álbum La face karchée de Sarkozy. Bem humorada adaptação para quadrinhos de uma reportagem de Philippe Cohen sobre a vida do político (apresentada na HQ como uma tese de doutorado feita por um estudante do futuro), o álbum, com roteiro de Richard Malka e arte de Riss, obteve um sucesso sem precedentes para este tipo de obra e se tornou um dos best-sellers dos quadrinhos franceses do ano, com mais de 200 mil exemplares vendidos até o momento!

A bem sucedida sátira a Sarkozy

O inesperado sucesso abriu as portas a inúmeras outras paródias e, embora Sarkozy ainda seja o favorito dos cartunistas (Riss, o desenhista de La face karchée, declarou na reportagem de TV que Sarkozy “já é um personagem de quadrinhos”), seus oponentes não escaparam da paródia. Chegou mesmo a sair uma dupla de álbuns, Tout sur Sarko e Tout sur Ségo, que, embora de autores diferentes, compartilhava a mesma estrutura básica para parodiar cada um dos dois principais candidatos.

O álbum de Sarkozy......e o de sua rival Ségolène.

O mais interessante nisso tudo, porém, é constatar como as HQs já viraram uma parte tão integral da cultura francesa que é perfeitamente normal uma enxurrada de álbuns aparecerem nas livrarias durante a campanha presidencial. Esse material terá previsivelmente uma vida comercial bastante curta (não vejo um álbum sobre Sarkozy ficando 60 anos à venda nas livrarias que nem os álbuns do Tintim…), mas ainda assim os editores consideram viável sua publicação, confiando que, nos poucos meses que separam a data de seus lançamentos até a escolha do presidente, as vendas sejam suficientes para compensar o investimento.

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