Para começar, falarei de um personagem cujo impacto revolucionou toda uma indústria de quadrinhos – e, indiretamente, uma nação: Tintim!

Tintim e Milu

Tintim e Milu

Tintim foi criado em 1929 para o semanário Le Petit Vingtième (suplemento juvenil do semanário católico conservador belga Le XXème Siècle). Seu autor, Georges Remi (que assinava com o pseudônimo Hergé, tirado de suas iniciais RG), era responsável pelo suplemento e decidiu criar uma HQ própria, inspirada em seu antigo personagem Totor (um escoteiro protagonista de uma HQ que Hergé desenhou quando ele próprio era escoteiro). Tintim seria um repórter do proóprio Petit Vingtième que viajava de um lado para o outro visitando lugares exóticos (geralmente mostrados sob uma ótica bastante preconceituosa, de acordo com a linha política do jornal). O objetivo da série para os editores do jornal era, claro, transmitir às crianças a ideologia supremacista deles próprios. Mas Hergé queria apenas fazer uma boa história em quadrinhos.

Um encontro com o jovem estudante chinês Tchang Tchong-Jen, que ajudou Hergé na pesquisa para criação do álbum O Lótus Azul, mudou a vida de ambos autor e personagem. Tchang fez com que Hergé rejeitasse a visão estereotipada que os europeus tinham das culturas estrangeiras e pesquisasse, com rigor cada vez maior, os lugares que Tintim visitava. A qualidade de seu trabalho (tanto em termos de roteiro quanto de arte) acompanhou essa progressão, bem como a popularidade do personagem. Às vésperas da Segunda Guerra Mundial ele já era um dos personagens de quadrinhos mais popular da Europa, chegando ao topo no pós-guerra, onde se manteve por décadas até o surgimento de Asterix. Ainda hoje, muitos anos após a morte de seu criador (que ordenou que não se fizessem mais aventuras de Tintim após sua morte), ele é bastante popular por todo o mundo, vendendo uma quantidade de HQs que muitos personagens modernos nem sonham em vender.

Mas a importância de Tintim não reside apenas em sua duradoura popularidade. O personagem foi reponsável por muitas das características particulares da indústria de quadrinhos franco-belga. O álbum colorido em formato grande, capa dura e poucas páginas, talvez o elemento mais característico do quadrinho europeu, foi introduzido pela primeira vez nesta série (ironicamente para um formato considerado caro, ele foi criado por razões econômicas, devido à escassez de papel durante a Segunda Guerra). O maior cuidado (tanto em termos de pesquisa quanto na qualidade artística) com que os autores europeus tratam seu trabalho também veio da série, bem como a visão mais “artística” e menos comercial dos quadrinhos. Por fim, a enorme popularidade de Tintim em seu país natal e seu reflexo nas outras HQs fez da Bélgica o país ocidental em que os quadrinhos são mais populares e respeitados, uma relação de um povo com suas HQs que talvez só possua paralelo no Japão. A título de curiosidade, em recente votação popular na Bélgica para escolha do maior belga de todos os tempos, Hergé foi o sétimo colocado entre os votantes de língua francesa e o 24º na Bélgica flamenga (onde ele é bem menos popular devido à profunda divisão cultural entre as duas metades do país).

Mural de Tintim em um prédio da capital belga Bruxelas

Mural de Tintim em um prédio da capital belga Bruxelas

Em suma, Tintim não é apenas um personagem popular e conhecido, ele é também um dos principais responsáveis por toda indústria de quadrinhos franco-belga! E por isso mereceu ser o primeiro dos grandes personagens deste blog!

Tintim e seus amigos

Tintim e seus amigos

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