Vamos agora variar um pouco e partir para as resenhas. Comecemos por uma ótima série de espionagem da Dargaud, Wayne Shelton.

Sou grande apreciador do trabalho do roteirista belga Jean Van Hamme, criador de séries como Thorgal, XIII e Largo Winch e escritor de língua francesa mais vendido da atualidade. Nos intervalos entre a publicação das suas séries mais famosas, Van Hamme tem o hábito de escrever trabalhos “menores”, ainda que não necessariamente de menos qualidade, Wayne Shelton é um deles.
Thriller de espionagem no estilo habitual do autor, a série se diferencia por seu protagonista. Depois de criar Largo Winch, um aventureiro milionário jovem, e XIII, um aventureiro adulto no auge da forma, Van Hamme decidiu criar um protagonista que, tal como o próprio autor, já viveu seus melhores anos e começa a sentir o peso da idade, o cinquentão Wayne Shelton. O protagonista, antigo soldado das forças especiais americanas no Vietnã, é um mercenário e contrabandista contratado para cumprir uma missão espinhosa: Libertar da prisão um caminhoneiro francês detido em uma pequena ex-república soviética após matar acidentalmente o ministro da defesa do país! Ora, Shelton não pode fazer um trabalho complicado desses sozinho e decide, no melhor estilo Missão Impossível, recrutar uma equipe especial para ajudá-lo em um plano mirabolante para libertar o prisioneiro.

Todo o primeiro álbum mostra esse recrutamento, algo bastante raro no quadrinho franco-belga (que geralmente prefere uma narrativa mais corrida para compensar o relativamente baixo número de páginas), o que permite a Van Hamme desenvolver bastante os personagens. O que é justificável, já que no segundo álbum uma traição vai colocar a missão – e as vidas desses personagens – em risco.

A arte, de Christian Denayer, antigo assistente de Jean Graton (Michel Vaillant) e Tibet (Ric Hochet), é de boa qualidade, na linha habitual dos desenhistas europeus de HQs realistas, mas sem nenhum destaque particular para além da esperada atenção aos detalhes. O ponto mais fraco são mesmo as capas, um pouco genéricas e nada representativas do conteúdo. O próprio Wayne Shelton mal aparece nas duas que estão aqui (é ele quem está no caminhão da primeira capa)! As cores têm a qualidade habitual das HQs franco-belgas.

A história segue o estilo não apenas de Missão Impossível mas da antiga HQ de espionagem Bruno Brazil (com quem compartilha o elenco de personagens exóticos e o destino trágico de vários deles). Porém o dedo do escritor é visível na trama bem elaborada e nos personagens cativantes. Vale mencionar a única mulher da equipe, com o nome “bondiano” de Honesty Goodness, uma sedutora ilusionista com forte personalidade, no estilo das heroínas de Van Hamme.

A única real falha da história é reaproveitar parte da trama do arco de XIII passado em San Miguel, com toda aquela história da empresa inescrupulosa explorando jazidas de germânio. Van Hamme não costuma reciclar ideias assim! É no mínimo curioso que ele não tenha pensado em outro minério raro e valioso que pudesse estar no lugar do agora malhado germânio…
Pensado originalmente como um one-shot em dois volumes (o que é bastante visível durante a leitura dos álbuns), Wayne Shelton mostrou fôlego o bastante para a Dargaud decidir expandi-lo para uma série regular. Sem interesse em continuar a série, Van Hamme passa os roteiros para Thierry Cailleteau (Aquablue) a partir do terceiro álbum. Não sei dizer como ficou a série sob o novo escritor, mas os dois primeiros álbuns são de qualidade e deveriam algum dia ganhar uma edição em língua portuguesa.